Calagem na Cultura da Cana-de-açúcar
Introdução
A acidez do solo tem origem pela intemperização dos solos, devido à intensa lavagem e lixiviação dos nutrientes, pela retirada dos nutrientes catiônicos pela cultura, sem a devida reposição e também pela utilização de fertilizantes de caráter ácido.
A análise do solo indica o grau de acidez através do índice pH e também nos dá a acidez potencial do solo (H+ + Al+3), que devemos levar em conta para a recomendação de corretivos.
A correção da acidez do solo tem efeitos diretos e indiretos sobre as plantas, como a neutralização do Al e do Mn que podem ser tóxicos, a elevação das concentrações de cálcio e magnésio, a elevação do pH, o aumento na disponibilidade de uma série de elementos como o fósforo e o molibdênio, que aumenta a CTC e a atividade microbiana.
A eficiência de uso do fósforo fornecido por adubos solúveis também é aumentada pela prática da calagem.
Raij et al. (1997) após revisar inúmeros trabalhos científicos, recomenda aplicar calcário para elevar a saturação por bases a 70% na camada superficial do solo (0-25 cm), porém, não menos que 1,5 t ha-1 do corretivo (PRNT = 100%).
Em solos muito ácidos, abaixo da camada de 25 cm, especialmente se a saturação por bases em profundidade for inferior a 30% ou saturação de alumínio maior que 40% da CTC efetiva, a correção de acidez em profundidade ajuda o crescimento de raízes e reduz o impacto do período seco.
Nesse caso, aumentar a dose de calcário para prever a correção à maior profundidade, fazendo o cálculo para elevar a saturação por bases a 50% na camada de solo de 25-50 cm. Somar a dose de calcário calculada para a camada subsuperficial àquela da camada superficial.

Onde:
V2 é a saturação de bases desejada. No caso da cana-de-açúcar V2 = 70%
V1 é a saturação de bases encontrada no solo
CTC é a capacidade de troca de cátions obtida pela soma de Ca, Mg, K, Na, H + Al
Cuidado especial deve ser tomado na correta aplicação do calcário. No preparo de solo, para implantar o canavial aplicar em área total, incorporando ao solo o mais profundo e com a maior antecedência possível, idealmente de três a quatro meses antes do plantio.
Em solos com teores baixos de magnésio, usar calcário com pelo menos 12% de MgO, visando manter o teor de Mg²+ acima de 8 mmolc dm-3 na camada superficial.
No caso de “MEIOSI” onde se prepara a linha-mãe de cana, se pudermos contar com equipamento canteirizador, pode ser feita a calagem da mesma forma que o indicado acima.
Existem atualmente diversas fontes de corretivos que podem se mostrar mais eficazes para corrigir a acidez em situações onde a incorporação não é facilitada.
Alguns produtos encontrados no mercado são:
Calcários calcíticos, dolomíticos, magnesianos
O calcário é obtido pela moagem da rocha calcária, constituída pelo carbonato de cálcio (CaCO3) e carbonato de magnésio (MgCO3), em diferentes concentrações.
Em relação aos teores de cálcio e magnésio, o calcário pode ser denominado de:
a) calcítico: 40-45% de CaO + 5% de MgO
b) magnesiano: 31-39% de CaO + 6-12% de MgOc) dolomítico: 25-30% de CaO + 13-20% de MgO
A reação destes materiais é lenta e gradual. O carbonato é uma base fraca, a formação do OH- é gradual e a reação é mais lenta com H+ do solo. A elevação do pH ocorre nas proximidades de onde o calcário foi aplicado.

Cal virgem ou cal hidratada
Cal virgem tem caráter de base forte, pois libera OH- que rapidamente reage com H+ do solo. A correção do pH é bem mais rápida que do calcário.

Calcário calcinado
É obtido industrialmente pela calcinação parcial do calcário – material intermediário entre calcário e cal virgem.
Calcário Filler e micronizado
Calcário finamente moído com a finalidade de aumentar a superfície de exposição e reação.
Calcário + gesso, silicatos, calcário + micronutrientes
Esses materiais têm diferenças no poder de neutralização da acidez do solo. A tabela 3 mostra a capacidade de neutralização dos diferentes materiais relativamente ao carbonato de cálcio.

Assim, 100 kg de óxido de cálcio tem efeito neutralizante igual a 179 kg de carbonato de cálcio.
A reatividade (RE) de um corretivo é a velocidade de sua reação no solo. É a % que reage nos primeiros três meses.
Depende das condições de clima e de solo, da natureza química do corretivo e também da sua granulometria. Quanto maior a acidez, a temperatura e a umidade, tanto maior será a reatividade.
O efeito residual de um corretivo e o tempo de duração da correção efetuada depende de vários fatores: dosagem do corretivo, tipo de solo, adubações (os adubos nitrogenados acidificam o solo) e intensidade de cultivo.
PRNT = PN x RE (%)/100. Quanto menor o PRNT, maior é a dose de calcário a ser usada.
O material corretivo mais econômico é aquele de menor custo por unidade do PRNT ou seja: custo por tonelada do produto colocado na propriedade/PRNT do produto.
Para a cana-de-açúcar, cujo ciclo é longo, uma boa estratégia é aliar o uso de calcários de alto poder residual com fontes de rápida ação, como óxido de cálcio.
Dessa forma, o uso de calcário para correção do solo durante o preparo, aliado ao uso de óxido de cálcio no sulco ou na linha-mãe da “MEIOSI” tem sido uma prática indicada para ganhos em produtividade.
Em geral, recomenda-se utilizar calcário como o indicado acima por Raij et al. (1997), aliado a 500 kg ha-1 de óxido de cálcio aplicado no sulco ou na linha-mãe da “MEIOSI”.
A cada dois anos amostrar o solo das soqueiras e corrigir sua acidez, calculando a quantidade de calcário para elevar a saturação por bases do solo a 70% na camada superficial.
Aplicar o calcário, quando necessário, em área total, logo após o corte, sem necessidade de incorporação em áreas com palha.
Esse manejo visa evitar que o solo chegue ao período de reforma com excesso de acidez e/ou baixa fertilidade.
Entre as diversas vantagens da calagem já citadas acima, ressalta-se que a correção do solo promove condições para o crescimento radicular, e a consequente melhor utilização da água nos períodos de seca, a que o ciclo da cana-de-açúcar está sujeito durante alguns meses do ano.
A calagem em profundidade também tem sido importante para manter a longevidade do canavial, garantindo maiores retornos econômicos aos produtores.
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Fonte
XAVIER, Mauro Alexandre; LANDELL, Marcos Guimarães de Andrade; PIRES, Regina Célia de Matos; et al. Gemas brotadas de cana-de-açúcar: produção sustentável e utilização experimental na formação de áreas de multiplicação. Campinas - SP: Instituto Agronômico, 2020.