Pecuária

Bem-Estar e Análise Bioética da Zootecnia de Precisão

Daniel Vilar
Especialista
13 min de leitura
Bem-Estar e Análise Bioética da Zootecnia de Precisão
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A Zootecnia de Precisão é um novo conceito que apresenta um grande potencial para transformar a produção animal através da introdução de um grau de controlo sobre as componentes dos processos, algo que antes não era possível.

A base deste controlo é o conhecimento detalhado que um proprietário agrícola do século XXI terá dos animais, individualmente ou em grupo, semelhante à relação que existia ancestralmente entre o agricultor medieval e a sua exploração. A maior diferença encontrada está, essencialmente, na dimensão da exploração moderna.

No entanto, as novas tecnologias agrícolas poderão ter mais impacto no plano do bem-estar animal do que em resultados imediatos para o empresário agrícola. Este impacto pode ser avaliado objetivamente utilizando a nova técnica da análise bioética.

Conceito de bem-estar

Um dos temas mais discutidos em produção animal, atualmente, é o bem-estar. Porém, o próprio conceito de bem-estar está ainda em formulação, o que faz com que a tarefa de assegurar o bem-estar dos animais seja considerada complicada.

Assim, a FAWC (FARM ANIMAL WELFARE COUNCIL, 1997) propôs as chamadas “cinco liberdades”, para serem utilizadas como base para que se possa assegurar o bem-estar dos animais.

De acordo com esta proposta, os sistemas de produção devem garantir condições de liberdade contra o medo e stress, liberdade contra a dor, ferimentos e doença, liberdade contra a fome e sede, liberdade contra o desconforto e liberdade para expressar seus comportamentos normais.

Segundo Hurnik (1995), o termo bem-estar é amplamente entendido como um estado de condição satisfatória de um indivíduo.

Considera-se que os requisitos mais importantes para o bem-estar são a saúde, o fornecimento de recursos adequados que permitem o funcionamento biológico completo do organismo e, sobretudo, a satisfação física e fisiológica do indivíduo no seu ambiente.

Dessa forma, o oposto ao bem-estar seria a não satisfação desses requisitos em função da presença de doenças, da restrição do funcionamento biológico e dos efeitos adversos do ambiente que envolve o animal, caracterizando um estado de sofrimento.

Dessa forma, o termo stress é comummente utilizado para indicar uma condição que é adversa para o bem-estar do animal.

De acordo com Hafez (1973), o stress pode ser climático, nutricional, social ou devido a desordens fisiológicas, patogénicas e toxinas.

Assim, o animal sob essas condições, é considerado como não normal e a condição em que ele se encontra, indesejável.

A maioria das definições de bem-estar destaca a necessidade da harmonia entre o indivíduo e o ambiente.

De acordo com Hurnik (1995), o ambiente de um animal consiste em numerosos componentes ou fatores que podem ser geralmente definidos por estímulos.

As reações comportamentais à presença ou ausência de estímulos podem servir como indicadores imediatos dos estados fisiológicos dos animais e da qualidade do seu ambiente.

Sistema de produção e bem-estar animal

Determinar qual o sistema de produção que possibilita uma melhor qualidade de vida não é uma questão simples.

Cada sistema de produção pode satisfazer alguns requisitos relacionados com o bem-estar que outro poderá não oferecer. Para Hurnik (1995), um bom princípio seria oferecer condições para uma vida saudável, sendo essas condições consideradas como necessidades.

De acordo com Hurnik (1995), as necessidades dos animais podem ser divididas em 3 categorias:

1) Necessidades essenciais ou para a manutenção da vida que, quando não satisfeitas, levam à morte rápida ou imediata do organismo.

2) Necessidades essenciais para a manutenção da saúde que, quando não satisfeitas, levam o animal ao adoecimento, deterioração progressiva e à eventual morte.

3) Necessidades essenciais para o conforto, as quais, ao não serem satisfeitas, resultam na ocorrência de estereotipias e outros desvios comportamentais, frequentemente inapropriados ou desnecessários, chamados de comportamentos não funcionais. Quando as necessidades de conforto são desprezadas, o bem-estar do animal pode ser adversamente afetado ou pela incapacidade de realizar as atividades que são necessárias ao bem-estar ou pela presença de comportamentos que levam a danos próprios ou de outros.

Baseando-se nesta categorização, pode-se assumir que a satisfação desta terceira categoria é menos crítica do que as necessidades determinadas na 1ª e 2ª categorias. Contudo, o julgamento do peso de cada categoria também apresenta a sua dificuldade.

A persistência na falha em satisfazer uma necessidade de conforto pode ter consequências piores para um indivíduo do que uma falha temporária no atendimento da necessidade de manutenção da saúde.

Assim, para alcançar e manter padrões elevados de bem-estar, é necessário o atendimento das três categorias de necessidades (Hurnik, 1995).

Dada a complexidade de fatores envolvidos no atendimento das necessidades dos animais, torna-se importante reconhecer que as avaliações do bem-estar devem envolver uma série de fatores.

Assim, o relatório do Comité Científico Veterinário para Saúde e Bem-estar Animal (2001) determinou a utilização de quatro abordagens diferentes que, combinadas, podem melhor determinar o bem-estar animal:

Produtividade: o conceito consiste em que, se o animal cresce bem, se reproduz, se produz em quantidades óptimas, o seu bem-estar é aceitável. Porém, esta é uma maneira considerada insensível para medir o bem-estar, sendo encarada como um critério demasiadamente estreito.

Saúde e doença: O bem-estar de um animal fica comprometido se ele estiver doente. Isto poderá estar relacionado com o tipo de sistema de produção. Por exemplo, nas aves, a aparência externa e as condições das penas têm um impacto considerável na interpretação da sua saúde e bem-estar, principalmente quando o interesse é a avaliação dos sistemas de produção. Dessa forma, os métodos de avaliação têm sido frequentemente utilizados como forma de avaliar os efeitos dos maneios direcionados para aves, tais como: as condições do alojamento, composição da dieta, genótipo, debicagens, programas de luz, etc. Além da condição das penas, as condições das patas e pele também são avaliadas.

Fisiologia: A fisiologia descreve o funcionamento do organismo do animal. Embora o corpo normalmente tente manter um estado de equilíbrio (homeostase), possui mecanismos que permitem a quebra deste equilíbrio como resposta a estímulos variados. Fatores de stress como o clima, mudança de ambiente, ruído, elevada densidade de animais etc., levam à libertação de hormonas que podem identificar o nível de stress do animal. As aves podem responder, em condições de stress, através de alterações fisiológicas. As respostas ao stress podem ser: aumento do ritmo cardíaco, aumento dos níveis plasmáticos de corticosterona e níveis de catecolaminas, hipertrofia e atrofia da glândula adrenal, imunossupressão, mudanças nas hormonas reprodutivas e do crescimento e mudanças neuroquímicas (FREEMAN, 1988).

A medida de hormonas indicativas do stress, como é o caso dos corticosteróides, tem sido amplamente utilizada em avaliações de bem-estar (CRAIG & CRAIG, 1985; ONBASILAR & AKSOY, 2005).

Porém, de acordo com Dawkins (2003), existem vários problemas de interpretação dos ensaios com essas medidas.

O problema reside no facto de que muitos indicadores fisiológicos do bem-estar utilizados serem, na verdade, mais indicativos de atividade ou excitação do que realmente das condições de bem-estar do animal, variando naturalmente em função do horário do dia, da temperatura e das condições de alojamento.

Há, ainda, a inconveniência de alguns métodos, por serem invasivos ou causarem perturbação ao animal no ato de adquirir tais medidas, contrariarem os objetivos das análises de bem-estar.

Comportamento: Estudos indicam que a observação do comportamento do animal pode fornecer respostas mais confiáveis quanto ao seu bem-estar, uma vez que o comportamento está intimamente relacionado com o meio em que o indivíduo vive. Segundo Wechsler et al. (1997), o comportamento animal deve ser incorporado no sistema de produção, utilizando-se a etologia aplicada que permite identificar e resolver problemas de bem-estar. De acordo com Becker (2002), na prática da etologia, o bem-estar é avaliado por meio de indicadores fisiológicos e comportamentais.

Segundo Broom (1988), o comportamento do animal varia em função das dificuldades ambientais enfrentadas, sendo este um componente das respostas regulatórias e emergentes.

Algumas medidas de respostas comportamentais às dificuldades são as ações que auxiliam o animal a enfrentar o problema, enquanto outras são patologias do comportamento que podem não ter efeito benéfico.

Porém, um comportamento anormal é aquele que difere do padrão, da frequência ou do contexto do que é mostrado pelos demais membros da espécie em condições naturais. Mesmo podendo ajudar um animal a enfrentar um problema, ainda assim, o comportamento anormal é um indicador de bem-estar “pobre”.

Além disso, alguns comportamentos são considerados importantes para o bem-estar, e a falta de oportunidade em exercê-los pode conduzir o animal a um sentimento de frustração.

Alguns parâmetros de avaliação do bem-estar fornecem apenas evidências de que este se encontra comprometido.

Assim, para a determinação das condições de bem-estar (output), tornam-se necessárias a avaliação e a interpretação de um conjunto de fatores (input(s)) que possam ser analisados concomitantemente.

De acordo com Broom (1988), apesar de uma medida poder indicar que um indivíduo está a ter grandes dificuldades em relação ao seu ambiente, para uma adequada avaliação do sistema de produção é essencial que uma variedade de indicadores de bem-estar seja usada, uma vez que os indivíduos variam na forma como se relacionam com o ambiente.

Simples medidas de comportamento podem dar informações válidas sobre o bem-estar dos animais, mas a combinação de medidas de comportamento, medidas fisiológicas, doenças e medidas do desenvolvimento do animal podem permitir uma avaliação mais completa.

A análise bioética

A análise bioética é uma forma de avaliação tecnológica que identifica as áreas éticas de uma forma transparente, objetiva e sistemática. A sua aplicação às biotecnologias ligadas à agricultura e ao sector alimentar foi iniciada por Mepham (1996).

Na prática, a análise bioética requer uma avaliação de uma tecnologia através de um comité de juízes com competência moral demonstrada na utilização de uma deontologia ética aceite.

Entre outras características, os juízes devem ter profundos conhecimentos, ser empáticos, independentes e isentos.

Para a estrutura ética, Mepham planeou uma matriz bioética que se baseia numa teoria, que se baseia no respeito por três grandes princípios éticos aceites, isto é, o bem-estar, a autonomia e a justiça.

Estes princípios são aplicados aos grupos envolvidos (stakeholders), com interesse na tecnologia. A partir do momento em que a matriz e os grupos de interesse são identificados a informação é organizada em cada uma das células da matriz. Esta matriz é então analisada pelos juízes, por forma a fornecer uma avaliação ética completa.

Como exemplo, temos um modelo matemático que simula a relação dinâmica existente entre a intensidade luminosa e a atividade dos frangos de carne (exercício), considerando que os aspectos comportamentais dos frangos de carne são geridos ativamente por manipulação da intensidade luminosa, e um sistema de monitorização que se baseia na análise de imagens (Kristensen et al., 2006).

A falta de exercício dos animais, principalmente quando jovens, foi identificada como uma causa importante de lesões músculo-esqueléticas (Bradshaw et al., 2002).

Tomando em consideração a perspectiva do animal, qual será a informação necessária para que seja implementada uma análise bioética? Podem ser consultados, na Tabela 3, resultados de uma análise hipotética, desta plausível aplicação de Zootecnia de Precisão.

Um outro exemplo de análise bioética de um sistema de automatização, que tem sido largamente debatida por diferentes grupos, refere-se à da introdução do robot de ordenha, que colocam em questão o impacto negativo em zonas rurais, a menor qualidade do leite e a “instrumentalização” do animal.

Deste modo, a análise bioética de qualquer sistema de automatização deverá ser implementada para que problemas eventualmente preocupantes em diversos grupos de interesse, possam ser detectados precocemente e devidamente acautelados.

A comercialização das aplicações de Zootecnia de Precisão será favorecida ao serem asseguradas tecnologias com base nos princípios bioéticos.

Considerações Finais

Apesar dos grandes avanços na área de conhecimento da produção animal, ainda existe possibilidade de melhorar mais a eficiência de produção, ao mesmo tempo em que se reduz o impacto ambiental causado por essa atividade.

No entanto, para que isso ocorra, é necessário usar tecnologias mais avançadas que diminuam as perdas e controlem o sistema de produção de maneira mais rígida.

Na Zootecnia de Precisão, a informação passa a ser um recurso valioso, que permite otimizar o uso de fatores de produção no sistema de produção. O uso de sistemas de automação permite o controlo preciso da utilização de recursos.

No entanto, para que os sistemas de automação tenham efeito, é necessário que tecnologias mais básicas de melhoria da produção já estejam a ser utilizadas.

De nada adianta um sistema de automação altamente sofisticado num aviário onde o sistema será mal utilizado, por falta de pessoal com formação adequada.

A Zootecnia de Precisão é uma tecnologia que se encontra numa fase inicial de desenvolvimento com um grande potencial de transformar a produção animal intensiva com base na utilização eficiente dos alimentos, na detecção precoce de doenças, na redução da emissão de poluentes e na disponibilização de informação útil aos técnicos.

No entanto, é necessária uma abordagem cautelosa ao nível da investigação e do desenvolvimento da Zootecnia de Precisão para que esta tecnologia não seja abandonada em consequência de um mau produto e de um deficiente marketing.

Durante os próximos anos (5-7 anos) de acordo com Wathes et al (2008) preveem-se quatro barreiras que deverão ser ultrapassadas pelos pioneiros da Zootecnia de Precisão:

(1) Tecnologia. As maiores carências tecnológicas são: sistemas de monitorização robustos e de baixo custo; modelos de dados dos principais processos físicos e biológicos com parâmetros relevantes e sistemas de controlo que possam gerir dois ou mais processos biológicos e/ou físicos interativos.

(2) Aplicações: são necessários objetivos e trajetórias para os principais processos, nomeadamente o crescimento, a doença e o comportamento, assentes em princípios biológicos.

(3) Marketing: as aplicações de Zootecnia de Precisão devem ser testadas comercialmente para que os empresários agrícolas tenham confiança nos fabricantes.

(4) Bioética: a Zootecnia de Precisão pode ser encarada desfavoravelmente pelos consumidores como uma tecnologia que prevê o uso instrumental dos animais, podendo potencialmente comprometer o seu bem-estar. Embora seja necessária uma análise bioética da Zootecnia de Precisão, esta não poderá ser iniciada sem que a investigação de base seja implementada. A análise bioética comprovará o potencial da Zootecnia de Precisão perante os maiores grupos de interesse, possibilitando uma decisão informada sobre a sua utilidade para a sociedade em geral.

As oportunidades criadas pela introdução da Zootecnia de Precisão são muitas, contudo existem ensinamentos históricos a serem apreendidos, e espera-se que a Zootecnia de Precisão continue a ser praticada pelos pioneiros e não comprometida pelas barreiras tecnológicas, éticas e económicas.

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Fonte

PINHEIRO, Cristina; PINHEIRO, Anacleto. Zootecnia de Precisão. Lisboa - POR: Artes Gráficas, 2009.

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