Aspectos Gerais da Cultura do Maracujá no Brasil
O maracujazeiro é uma frutífera muito cultivada e apreciada sob diversas formas nas mais variadas regiões do Brasil. A sua importância comercial passou a ocorrer na segunda metade da década de 1970, quando a produção do país tornou-se crescente ano após ano, a fim de atender à demanda interna e à exportação.
Naquela época, existiam poucos países produtores e a concorrência internacional era praticamente incipiente, o que facilitava sobremaneira a comercialização e a expansão do cultivo.
Entretanto, já na década de 1980, surgem novos países produtores, como Colômbia, Equador, Austrália, África do Sul, dentre outros, o que provoca um acirramento da concorrência no mercado internacional.
Além disso, nas primeiras décadas de cultivo, poucas eram as pragas que infestavam a lavoura e que, portanto, não inviabilizavam a atividade. Entretanto, com o passar do tempo, surge um número expressivo de novas pragas, incluindo-se os patógenos causadores de diversas enfermidades, provocando, assim, sérios danos econômicos.
Nesse contexto, muitas dessas novas pragas praticamente inviabilizaram as plantações de maracujazeiro em diversas regiões brasileiras. Àquela época, não se relatava presença de ácaros, brocas (curculionídeos e lepidópteros), mosca branca, cochonilhas, dentre outros.
Em relação às enfermidades, também não se observava grande número de patógenos provocando danos ou até mesmo limitando o seu cultivo. Entretanto, novas doenças foram se manifestando, destacando-se aquelas de origem bacteriana, virótica e fúngica.
O surgimento dessas novas pragas provocou incremento substancial no custo de produção do maracujazeiro, principalmente por exigir maior número de pulverizações com defensivos agrícolas ou por provocar redução na vida útil e na produtividade dos pomares dessa frutífera.
Os pomares que antigamente apresentavam uma longevidade média de três anos, atingindo às vezes até cinco anos de produção no campo, tiveram sua vida útil drasticamente reduzida, sendo que atualmente duram de quatro meses a, no máximo, dois anos.
É muito comum, em regiões tradicionais, observar-se pomares com duração de apenas um ano, entre o plantio das mudas até a sua erradicação. Essa curta duração de vida produtiva das plantas deve-se, principalmente, às viroses e algumas doenças fúngicas.
Outros fatores que também afetaram a produção da lavoura, além do custo crescente da mão de obra, que representa um dos principais componentes do custo de produção, foram os preços dos fertilizantes, defensivos agrícolas, e o preço dos combustíveis (óleo diesel), que tiveram aumentos substanciais nessa última década.
Acrescente-se, ainda, o custo das estacas e mourões utilizados na formação das espaldeiras ou latadas, que também sofreram forte incremento. Frente a tal situação, o produtor não obteve compensação no preço da fruta em um mesmo patamar de aumento dos custos.
Tudo isso levou a uma rentabilidade cada vez menor para o produtor e busca de mecanismos que possibilitassem contornar tais problemas. Assim, foram adaptados novos sistemas de plantio e manejo da cultura, que serão discutidos a seguir.
Densidade de plantio
O espaçamento de plantio do maracujazeiro tradicionalmente utilizado era de 3 metros entre linhas e 5 m entre plantas, totalizando 666 plantas por hectare. Atualmente, os espaçamentos mais comuns são: 3 x 2,5 m, 3 x 1,5 m, 3 x 1 m, 2 x 1 m, que proporcionam densidade variando de 1.300 a 5.000 plantas por hectare.
Nas regiões de clima semiárido, como ocorre em Livramento de Nossa Senhora e Juazeiro na Bahia, Petrolina em Pernambuco, Neópolis, em Sergipe, Janaúba e Jaíba, em Minas Gerais etc., os espaçamentos mais utilizados, há alguns anos, são aqueles mais adensados, como 3 x 1 m, 3 x 1,5 m ou 2 x 1 m.
Mesmo em menor intensidade, outros estados produtores passaram a adensar mais o plantio dessa Passifloraceae, como Espírito Santo, Rio de Janeiro, Goiás e até mesmo algumas regiões do Estado de São Paulo.
Esse menor espaçamento e, consequentemente, maior densidade de plantio, foi uma estratégia que o produtor passou a adotar para compensar o maior tempo para formação plena das cortinas de produção da cultura em espaçamento maior, como 3 x 5 m, para um tempo relativamente reduzido nos espaçamentos mais adensados.
Esse tipo de manejo faz com que o número total de ramos produtivos apareça em maior volume nos pomares adensados, em relação ao mesmo período, o que proporciona maior volume de produção em menor tempo.
Assim, um pomar adensado inicia sua produção plena mais cedo que os pomares não adensados, compensando, de alguma forma, o menor período produtivo que pode variar entre 4 e 24 meses, sendo mais comum 12 meses de produção. Dessa forma, os produtores, especialmente nas zonas de clima semiárido, procuram, através do adensamento, compensar a menor longevidade dos seus pomares.
Controle de pragas
A trajetória da cultura do maracujá mostra que as pragas modificaram substancialmente a longevidade dos pomares de maracujazeiro. Algumas regiões com intensa presença de enfermidades fúngicas e viróticas vêm reduzindo o período de colheita dos pomares, ficando entre 4 e 6 meses; já em outras regiões com menor intensidade de ocorrência dessas doenças, a vida produtiva estende-se a 12 meses e, eventualmente, até 24 meses.
Esse menor tempo de vida útil da planta deve-se à ocorrência de patógenos que provocam podridão de raízes, como a Fusariose, principal doença das regiões de clima semiárido, que provoca mortalidade das plantas muito precocemente, principalmente no período chuvoso.
Com isso, reduz-se drasticamente o número de plantas por área, o que afeta a produção e a produtividade, bem como a rentabilidade da cultura.
Atualmente é muito difícil controlar eficientemente o patógeno (Fusarium sp.) causador dessa doença com fungicidas químicos. Entretanto, nos últimos anos, vislumbra-se o uso de controle biológico por meio de fungos fitopatogênicos no controle do fungo patogênico.
Esses fungos ditos benéficos pertencem a alguns gêneros, destacando-se o gênero Trichoderma. Muitas das espécies fazem parte desse gênero como, por exemplo, T. viridi, T. polisporum, T. harzianun, T. stromaticum, T. longibrachiatum, dentre outros.
Esses fungos têm a capacidade de decompor rapidamente a matéria orgânica do solo ou de restos vegetais depositados sobre os solos e de inibir o desenvolvimento do fungo Fusarium, causador da doença.
Trabalhos realizados em laboratório demonstram a ocorrência de inibição de determinadas espécies de Trichoderma sobre o fungo Fusarium. Nos últimos anos, os testes, em condições de campo, mostram resultados muito promissores para a aplicação de Trichoderma no controle de Fusariose do maracujazeiro. Muito provavelmente o controle biológico será uma grande ferramenta para essa cultura.
Quanto às doenças de origem bacteriana, já existem no mercado produtos com eficácia no controle, entretanto para as viróticas ainda não há.
Certamente, no futuro, o melhoramento genético pode-se tornar uma grande ferramenta na busca por variedades resistentes ou tolerantes a essa moléstia que também causa redução da produção e produtividade dos pomares dessa Passifloraceae.

Custo de produção
O custo de produção da cultura do maracujazeiro sofreu incrementos significativos nos últimos anos, principalmente em função do aumento dos custos de mão de obra. Há cerca de 15 anos, o salário mínimo vigente no país estava em torno de US$110 mensais, atualmente encontra-se acima de US$300; tal situação implica em aumentos relevantes no custo desse fator de produção em uma atividade altamente intensiva no seu uso.
O preço dos insumos, por exemplo, os adubos químicos, oscilavam entre US$ 150 e 300/T, atualmente estão entre US$300 e 700/T. O mesmo se verifica em relação aos preços dos fungicidas e inseticidas e outros defensivos agrícolas.
Muito embora os custos de produção tenham aumentado, os preços recebidos pelos produtores na comercialização da fruta não foram compensados nesses mesmos patamares. Assim, os produtores muitas vezes são desestimulados a continuar na atividade.
Para se manter na lavoura, os agricultores buscam adotar técnicas que aumentem os índices de produtividade a fim de compensar a elevação dos custos de produção.
Produção e mercado
Diversos produtores localizados em zonas de clima favorável têm deslocado a época de produção para que a colheita ocorra no segundo semestre do ano, que é um período de entressafra da maioria das regiões produtoras.
Dessa forma, os preços de venda do maracujá in natura são mais remuneradores para o produtor. No entanto, deve-se salientar que tais alterações do plantio são encontradas, apenas, em regiões de clima quente, a exemplo da região Norte do Brasil (Pará), região de clima semiárido e cerrado com temperaturas noturnas superiores a 18 °C nos meses mais frios do ano e fotoperíodo acima de 11 horas de luz.
Nas principais regiões de produção de maracujá das regiões Sul e Sudeste e parte do Centro-Oeste do país, a limitação climática impede o florescimento nos meses de junho a agosto, tornando-se um obstáculo à produção de frutos de maracujá nos meses de setembro, outubro e novembro. Tal fato leva à escassez de oferta nesse período do ano e incremento significativo dos preços.
É certo que ocorreram muitos avanços tecnológicos nos últimos anos, no que concerne à nutrição das plantas, densidade de plantio, material genético de melhor qualidade para a agroindústria e para o mercado de fruta fresca, novas embalagens etc.
Entretanto, há muito ainda a ser feito, pois muitas regiões tradicionalmente produtoras de maracujá já não conseguem se manter na atividade em função de problemas fitossanitários, altos custos da mão de obra, dificuldades de mercado, principalmente junto às agroindústrias de processamento, devido a preços fortemente oscilantes, ora estimulando, ora desestimulando o produtor.
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Fonte
PIRES, Mônica de Moura; SÃO JOSE, Abel Rebouças; DA CONCEIÇÃO, Aline Oliveira. Maracujá: avanços tecnológicos e sustentabilidade. 1ª ed. Ilhéus - BA: Editus, 2011.