Aprenda a Retirar uma Amostra de Solos
A principal técnica utilizada no Brasil para avaliação da fertilidade do solo é a análise química do solo, que permite a quantificação de atributos que beneficiam ou prejudicam o desenvolvimento normal das plantas, bem como possibilita avaliar o nível de deficiência ou suficiência de nutrientes e assim determinar as necessidades de reposição destes, por meio da adubação.
Essa técnica oferece vantagens como baixo custo operacional, rápida execução, além de permitir o planejamento da recomendação de fertilizantes e corretivos antes da implantação e durante a condução da cultura.
A análise do solo é feita em uma pequena porção de terra, proveniente do terreno onde vai ser implantada a cultura ou onde se pretende avaliar a sua fertilidade. A coleta dessa porção de terra representa a primeira e uma das mais importantes etapas para o estabelecimento de um programa adequado para correção do solo e adubação das plantas. Essa pequena porção de terra, obtida após diversas etapas de trabalho, é chamada de amostra e todo o trabalho realizado para obtê-la chama-se amostragem.
Um programa de análise de solo, para ser implementado como ferramenta de avaliação e monitoramento da fertilidade do solo, envolve diversas fases fundamentais para obter o sucesso desejado dos sistemas de recomendação de adubação, muitas das quais exigem procedimentos detalhados que precisam ser realizados dentro de padrões técnicos.
Amostragem do Solo
A amostragem de solo é o procedimento de coletar amostras de terra, de modo que estas amostras sejam representativas do terreno onde vai ser implantada a cultura, sendo a primeira etapa de um programa de adubação e calagem (RAIJ et al. 1997).
De modo geral, amostragem pode ser definida como uma série de operações que permite retirar porções ou partes de tamanho reduzido de um sistema, que descrevam representativamente as características do mesmo (CHITOLINA, 1982).
Do ponto de vista da fertilidade do solo, as porções ou partes de tamanho reduzido são denominadas de amostras simples e correspondem às amostras individuais, representadas por pequenas quantidades de terra coletadas em um único ponto, ao acaso, em uma área ou gleba uniforme ou homogênea.

Por sua vez, a mistura de várias amostras simples, coletadas ao acaso dentro de uma área ou gleba uniforme, devidamente homogeneizadas, é denominada de amostra composta, devendo possuir as características representativas da área amostrada e por isso corresponde à amostra que será enviada ao laboratório para a realização de análise química.
Considerando que solos são sistemas muito heterogêneos e que podem apresentar grande variabilidade nas propriedades químicas, mesmo em áreas aparentemente uniformes, a amostragem do solo deve ser entendida como uma das etapas mais críticas do programa de avaliação da fertilidade do solo.
Dessa forma, erros que porventura possam ser acometidos durante o procedimento de amostragem, jamais poderão ser corrigidos pela análise de solo, ou seja, por melhor que seja a qualidade da análise realizada no laboratório, se a amostra não estiver refletindo a realidade da área amostrada, o resultado poderá levar as recomendações sub ou superestimadas, podendo ter implicações diretas nas quantidades de fertilizantes e corretivos a serem utilizadas no empreendimento agrícola.
Para se ter uma ideia da dimensão que a amostra representa no processo de amostragem, quando se faz análise no laboratório em uma porção de terra de 10 cm3, retirada de uma amostra composta de 500 g, coletada em área de 10 hectares, a uma profundidade de 20 cm, essa porção representa uma parte em 2 bilhões de partes do volume total do solo amostrado. Por essa razão, a amostragem mal feita é considerada a maior fonte de erro em um programa dessa natureza.
Portanto, o procedimento de amostragem requer o estabelecimento de um plano de amostragem para a propriedade agrícola, envolvendo uma sequência de ações, como: separação da área a ser amostrada em subáreas homogêneas; escolha da ferramenta adequada para coleta; processamento da coleta de solo; embalagem das amostras; e envio ao laboratório.
Separação de Subáreas Homogêneas
Como forma de minimizar a influência da heterogeneidade do solo e, assim, obter maior representatividade da amostra, o primeiro passo no processo de amostragem deve ser a divisão da área de interesse em subáreas homogêneas, que correspondem às unidades de amostragem e dependendo da uniformidade do terreno e do manejo do solo, sugere-se evitar exceder a 10 hectares.
Para a demarcação das áreas homogêneas, alguns aspectos devem ser levados em consideração, tais como: cobertura vegetal ou cultura (anterior e atual); textura do solo (argiloso ou arenoso); relevo (plano ou ondulado); cor do solo; condições de drenagem; manejo do solo (forma de preparo da área, adubação e calagem); produtividade e histórico da área. Um esquema geral da demarcação das áreas homogêneas pode ser verificado na Fig. 1.

Sempre que houver variação em um ou mais desses aspectos, há necessidade de subdivisão da área, de modo a obter glebas o mais uniforme possível. Áreas com culturas diferentes (por exemplo, culturas anuais, semiperenes e perenes) devem ser amostradas em separado, já que o manejo destas pode ser diferenciado e com isso ocasionar variações na fertilidade do solo.
A textura do solo pode ser determinada pela análise granulométrica e em alguns casos pode ser identificada pelo tato das mãos com a terra, no caso de técnicos que possuem experiência nessa forma de identificação.
Nos solos predominantes no Estado do Pará (Latossolos e Argissolos), a cor pode dar um indicativo da textura, já que aqueles com coloração amarelada, geralmente, possuem maior teor de argila (argiloso), enquanto que aqueles com coloração mais esbranquiçada possuem textura com maior teor de areia (arenoso) e, assim, podem ser separados na amostragem.
O relevo está intimamente ligado à gênese do solo e, assim, pode diferenciar os tipos de solo na paisagem. Além disso, dependendo da posição do solo no relevo, a exposição aos processos erosivos pode variar, influenciando diretamente na fertilidade dos solos. Então, no caso de áreas com topografia acidentada, devem ser separadas áreas do topo, do meio e da base do relevo.
A cor do solo é uma das características mais fáceis de serem percebidas, podendo dar indicativo de tipos diferenciados de solo, existente na área. Dependendo do tipo do solo, as características químicas podem ser diferentes, havendo a necessidade de separação.
Outro aspecto importante na demarcação de subáreas está relacionado às condições de drenagem do solo, em que áreas encharcadas devem ser amostradas separadamente de áreas sem restrição de água.
A forma com que o solo vem sendo manejado nos anos anteriores pode ter grande impacto na fertilidade dos solos e, por isso, o histórico de utilização da área deve ser conhecido para facilitar o procedimento de amostragem. Então, áreas com diferenciação, em anos anteriores, no sistema preparo, que tenham recebido adubação e calagem, devem ser subdivididas para que a amostragem seja efetuada separadamente.
Áreas com uma mesma cultura, mas com produtividade diferente também devem ser amostradas separadamente.
Áreas ou manchas de solo com aspecto muito diferente do restante da gleba devem ser evitadas na amostragem, tais como: depressões alagadas; manchas de depósitos de calcário ou fertilizantes; estradas antigas ou carreadores; sulcos de erosão; formigueiros; currais; pocilgas; cinzas decorrentes da queima da vegetação, etc.
No caso de áreas com culturas perenes, devem ser ainda consideradas diferenças de cultivar utilizada, além das características do sistema de produção e idade dos plantios.

Sempre que possível, é recomendável identificar essas glebas de maneira definitiva, elaborando um mapa das diferentes áreas homogêneas demarcadas, para o acompanhamento da fertilidade do solo ao longo do tempo.
Ferramentas e Materiais para Coleta
A necessidade de realizar a coleta do solo de modo uniforme, em volume e profundidade, pode ser facilitada pela utilização de ferramentas apropriadas para tal prática.
Conforme o nível de eficiência requerido e a disponibilidade no local de amostragem, diversas ferramentas podem ser usadas para a coleta de solo, tais como: enxada; enxadeco; pá reta; e draga ou cavador. Além dessas, quando se deseja fazer a amostragem em áreas muito extensas, deve-se lançar mão de ferramentas que propiciem maior rapidez na coleta das amostras e menor volume de terra, como é o caso dos trados de amostragem, sendo os mais utilizados o trado meia lua ou calador e o trado holandês.
Além dessas ferramentas, é necessária a utilização de baldes de plástico e sacos de plástico devidamente etiquetados. Quando se pretende realizar análise de micronutrientes, deve ser evitada a utilização de balde de metal galvanizados, dando preferência para o uso de trado de aço.
Para garantir resultados confiáveis, deve ser minimizada a interferência de contaminantes nas amostras. Para isso, os materiais a serem utilizados no processo de amostragem (ferramentas, baldes e embalagens) devem estar limpos, isentos de restos de terra e resíduos, especialmente de adubos e corretivos de acidez.
Procedimento de Coleta de Solo
Mesmo que seja realizada corretamente a divisão da propriedade em subáreas homogêneas, é importante notar que dentro dessas subáreas aparentemente uniformes ainda poderão existir variações nos atributos químicos do solo, que devem ser levados em conta para que se tenha uma adequada avaliação da fertilidade do solo.
Como forma de minimizar essa variabilidade e obter maior representatividade, durante o procedimento de coleta de solo, devem ser retiradas diversas subamostras para uma avaliação adequada da área amostrada.
Assim, cada subárea homogênea deve ser percorrida em ziguezague (Fig. 1), coletando-se entre 15 a 20 amostras simples de mesmo volume, para a formação de uma amostra composta. As amostras simples devem ser retiradas uniformemente, procurando cobrir toda a extensão da subárea. Esse número de subamostras deve ser considerado mesmo para o caso de amostragem em parcelas experimentais, nos experimentos de adubação.
Independentemente do tipo de ferramenta a ser utilizada, antes de efetuar a coleta propriamente dita, em cada um dos pontos de amostragem, devem ser removidos os detritos e restos vegetais (folhas, ramos e pedras) da superfície do solo.
No caso da coleta das amostras com enxada, enxadeco ou pá reta alguns procedimentos adicionais são necessários. Em cada ponto de amostragem, deve-se cavar uma cova, na profundidade de 20 cm ou naquela indicada para a cultura de interesse, com as paredes na forma de “U” ou “V”, conforme mostrado na Fig. 2.

Em uma das paredes laterais da cova, efetuar o corte de uma fatia de aproximadamente 5 cm de espessura e remover as bordas laterais desta fatia, deixando-se apenas a parte central, que deve ser colocada no balde, constituindo a amostra simples.
Quando a ferramenta utilizada for a draga ou cavador, retirar um cilindro de terra, conforme a profundidade indicada, procedendo-se dois cortes longitudinais em “X”, utilizando uma faca ou canivete bem afiado, separando-o em quatro partes. Remover uma das partes do cilindro e colocar no balde, constituindo a amostra simples.
Os procedimentos de coleta, de acordo com a ferramenta, são apresentados na Fig. 3.

Dentro de cada subárea homogênea, esse procedimento deve ser repetido em todos os pontos de amostragem até atingir toda a extensão da área a ser amostrada. Ao final, a terra contida no balde deve ser rigorosamente destorroada e homogeneizada, para em seguida, retirar aproximadamente 500 g de terra, constituindo-se na amostra composta, que pode ser colocada em saco de plástico, para envio ao laboratório. A amostra pode ser identificada com as seguintes informações: nome do proprietário, nome da propriedade, município, número e nome da subárea amostrada e data de amostragem.
Em locais onde a cultura já se encontra implantada, os pontos de amostragem deverão ser definidos previamente, conforme a cultura existente. No caso de culturas anuais (milho, arroz, caupi, soja, etc.) e de pastagem a coleta deve ser realizada em toda a extensão da área.
Em áreas cultivadas com culturas perenes que recebem aplicações localizadas e frequentes de fertilizantes, como fruteiras, pimenteira do reino e cafeeiro, a amostragem deve ser realizada nas áreas adubadas e naquelas que não receberam qualquer aplicação de adubos, de modo a obter a média da fertilidade dessas áreas.
Profundidade de Amostragem
Em geral, para a análise de rotina, a amostra deve ser retirada da camada superficial, na profundidade de 0 a 20 cm, por ser a camada do solo onde se concentra o maior volume das raízes, da maioria das plantas cultivadas. Entretanto, determinadas situações exigem uma amostragem em outras profundidades, a fim de se conhecer limitações que podem afetar a produtividade.
No caso de abertura de novas áreas para incorporação ao processo produtivo ou quando se deseja obter informações sobre a movimentação de nutrientes no perfil ou mesmo para verificar a existência de barreiras químicas no subsolo, a amostragem pode ser efetuada em camadas mais profundas, sempre em camadas de 20 cm, podendo ir até 60 cm dependendo da necessidade, ou seja, 0-20, 20-40 e 40-60 cm.
Esta prática tem grande validade para avaliar problemas de toxidez de Al e deficiência de Ca e Mg no perfil do solo e para a separação de áreas com maior ou menor potencial para aprofundamento do sistema radicular das plantas cultivadas.
Em áreas com culturas perenes, na ocasião da implantação a amostragem deve ser realizada em maior profundidade, além da superficial, para verificar a existência de problemas nutricionais nas camadas mais profundas, que possam comprometer o desenvolvimento do sistema radicular das culturas. Neste caso, se recomenda a coleta de amostras nas profundidades de 0-20 cm e 20-40 cm, antes da implantação da cultura.
Para culturas anuais, quando cultivadas no sistema convencional, normalmente, é suficiente amostrar na camada de 0-20 cm. No caso de áreas cultivadas no sistema plantio direto, a amostragem segue um caso à parte. Como nesse sistema não há revolvimento do solo, com o decorrer do tempo, pode haver grande concentração de nutrientes e matéria orgânica nos primeiros centímetros superficiais.
Nos primeiros anos de cultivo, neste sistema é recomendado amostrar as camadas de 0-10 cm e 10-20 cm. A partir do terceiro ano de cultivo, deve ser realizada uma amostragem mais estratificada, retirando-se amostras nas profundidades de 0-5 cm e 5-20 cm, podendo ser coletadas amostras também na camada intermediária de 5-10 cm (INSTITUTO... 1996; COMISSÃO... 1994).
Em locais onde se deseja realizar a implantação de pastagem, recomenda-se levar em consideração as recomendações realizadas para o caso de abertura de novas áreas, já mencionadas anteriormente.

Em situações de pastagem já estabelecida, a amostragem pode ser realizada na profundidade de 0-10 cm, podendo retirar amostras até 20 cm quando necessário. No caso de pastagens degradadas, com alta incidência de ervas invasoras, a amostragem pode ser feita de 0-20 cm, conforme INSTITUTO... (1996).
Amostragem em camadas profundas é altamente recomendável em áreas experimentais, notadamente em estudos que envolvam enxofre, pelo fato de, muitas vezes, níveis de sulfato nas camadas subsuperficiais serem suficientes para mascarar respostas, em solos com baixos níveis de S-sulfato na camada de 0-20 cm.
Frequência de Amostragem
A retirada de amostras de solo pode ser realizada em qualquer período do ano. A frequência de amostragem deve ser definida em função da intensidade de adubação, manejo da propriedade, do número de culturas de ciclo curto consecutivas ou do estádio de desenvolvimento, no caso de culturas perenes.
Áreas com culturas que receberam grandes aplicações de fertilizantes, em geral, convêm fazer a amostragem com maior frequência, sendo recomendada a coleta anual das amostras. Em glebas cultivadas com culturas anuais e mantidas em pousio no período seco, a amostragem deve ser realizada pelo menos a cada três anos.
Para culturas perenes, a partir da fase reprodutiva, a amostragem deve ser realizada anualmente e de preferência no final da estação chuvosa, principalmente, quando são aplicadas doses mais elevadas de adubos. No caso de culturas temporárias, as amostras devem ser retiradas pelo menos um mês antes do plantio, para que a partir dos resultados da análise de solo possa realizar o planejamento de compra dos fertilizantes e corretivos.
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Fonte
CRAVO, Manuel da Silva; VIÉGAS, Ismael de Jesus Matos; BRASIL, Edilson Carvalho. Recomendações de adubação e calagem para o Estado do Pará. 1ª ed. Belém - PA: Embrapa Amazônia Oriental, 2007.