Alimentação de Bezerras Leiteiras
INTRODUÇÃO
A criação de bezerros, principalmente do nascimento ao desaleitamento, exige boas práticas de manejo e muita atenção a detalhes. A saúde e o crescimento dos bezerros dependem de fatores que interferem antes, durante e no período imediatamente após o parto.
Um dos aspectos críticos na nutrição dos bezerros é o fornecimento da dieta líquida e o desenvolvimento do rúmen. A alimentação representa de 50 a 60% dos custos de produção das diferentes espécies de ruminantes criadas com finalidade econômica. Dessa forma, principalmente quando se prioriza eficiência, a nutrição assume importância fundamental.
CUIDADOS COM A ALIMENTAÇÃO DE NOVILHAS E VACAS GESTANTES
Devem ser fornecidas aos animais dietas bem equilibradas para garantia de bom desenvolvimento fetal, adequada formação de colostro e boa lactação, durante toda a gestação e no período de transição. Deficiências de energia, vitaminas, minerais, proteínas podem comprometer o desenvolvimento fetal e aumentar a morbidade e mortalidade de bezerros (Davis e Drackley, 1998).
A demanda de nutrientes para o feto torna-se particularmente importante durante o último trimestre da gestação, observando-se que 60% do ganho de peso fetal ocorre durante os dois últimos meses da gestação. Desta forma, mesmo nesta fase, quando as exigências nutricionais da vaca são menores, ainda é necessário atenção à dieta dos animais (National Research Council - NRC, 2001).
Próximo ao parto, os animais devem ser levados ao piquete maternidade (+ 21 dias antes da data prevista) para o início da dieta de transição (preparar a vaca para a nova lactação) e o acompanhamento do parto. Esses locais devem ter boas condições de higiene e estar localizados próximo às outras instalações para permitir boa alimentação e observações frequentes.

ADAPTAÇÕES APÓS O NASCIMENTO
Após o nascimento, os bezerros passam por várias mudanças fisiológicas para adaptação à vida extrauterina. A primeira e mais imediata é a de iniciar os movimentos respiratórios. O controle do balanço ácido-básico precisa ser iniciado o mais breve possível, e todo o metabolismo precisa estar funcionando para que o organismo possa iniciar o catabolismo de carboidratos, gordura e aminoácidos a fim de fornecer energia para as funções corporais (Davis e Drackley, 1998).
A fonte de nutrientes energéticos, que era primariamente baseada em carboidrato (glicose) durante a vida fetal, muda para alta gordura e baixo carboidrato no colostro (Blum e Hammon, 2000). Outra adaptação necessária é a regulação da temperatura corporal.
Para isso, os bezerros precisam rapidamente ativar os mecanismos termogênicos, como o tremor e o metabolismo da gordura marrom. Iniciado este processo, e somando-se a ele a ingestão do colostro e secagem dos pelos, a produção de calor corporal aumenta e a temperatura corporal se estabiliza dentro dos limites fisiológicos, em torno de 48 a 72 horas de vida (Davis e Drackley, 1998).
FORNECIMENTO DO COLOSTRO
Além de conferir imunidade aos bezerros, o colostro é a primeira fonte de nutrientes. Como pode ser observado na Tabela 1, o colostro possui duas vezes mais sólidos totais que o leite. As porcentagens de proteína e gordura são altas, e a de lactose é menor que no leite integral.

As concentrações de minerais e vitaminas também são maiores no colostro para garantia de estoques adequados até que o consumo de alimentos sólidos aumente. A lactose e a gordura presentes no colostro são fontes de energia para os bezerros.
O corpo do animal recém-nascido possui poucas reservas de gordura, e a maior parte dos lipídeos é de origem estrutural e não pode ser mobilizada. As reservas de gordura corporal e glicogênio que podem ser mobilizadas se esgotam em 18 horas após o nascimento se os animais não forem alimentados, o que demonstra a importância da administração imediata de colostro aos animais (Okamoto et al., 1986).
A quantidade de colostro oferecida depende do peso corporal, devendo ser administrado o volume de 10% do peso corporal. Nos primeiros três a cinco dias de vida, o bezerro deve receber o leite de transição da mãe.
Durante muito tempo, foi também recomendado o uso de uma mistura de colostro excedente e leite de transição de outros animais que tenham parido nestes dias. No entanto, esta recomendação hoje deve ser reavaliada, já que o colostro e o leite de transição podem ser fonte de contaminação de doenças, como a leucose de vacas infectadas para bezerros não infectados (Maunsell e Donovan, 2008).
DIETA LÍQUIDA APÓS O FORNECIMENTO DO COLOSTRO
Antes do desenvolvimento do retículo-rúmen, o bezerro é funcionalmente não ruminante, e o abomaso é o compartimento funcional dos estômagos do bezerro, o que o torna dependente de enzimas digestivas.
Nesta fase, o animal tem alta eficiência para digestão de proteínas do leite, lactose e triacilglicerol, mas é menos capaz de digerir proteínas que não sejam do leite ou polissacarídeos como amido, o que limita os ingredientes que podem ser utilizados nos sucedâneos de leite sem comprometimento do crescimento e da saúde dos bezerros (Drackley, 2008).
A partir de reflexo condicionado, ocorre a contração de uma dobra de tecido da base do esôfago ao orifício retículo-omasal e forma-se um tubo denominado goteira esofagiana. O leite ingerido flui, então, diretamente da base do esôfago (cárdia) ao orifício retículo-omasal e ao abomaso (Church, 1998).
No abomaso, o forte ambiente ácido resultante da secreção de ácido clorídrico das células parietais da mucosa do abomaso (pH + 2,0) converte a enzima inativa prorenina em renina, que quebra uma ligação peptídica especifica na Қ-caseína e que, em presença de íons cálcio, causa coagulação das caseínas, formando o coágulo (onde fica retida a gordura) e o soro (composto por água, minerais, lactose e outras proteínas, incluindo as imunoglobulinas).
O ácido clorídrico tem papel importante na digestão de proteínas no abomaso. A taxa de secreção do ácido clorídrico pelas células parietais é baixa ao nascimento, mas aumenta em 50% durante as quatro primeiras semanas de vida (Church, 1998; Davis e Drackley, 1998).
A caseína é parcialmente digerida pela pepsina abomasal secretada na forma inativa de pepsinogênio, que também é ativada pelo ambiente ácido do abomaso. Os polipeptídios liberados da caseína entram no intestino para posterior absorção. No intestino, tanto os fragmentos da caseína quanto as proteínas do soro são digeridos pelas enzimas pancreáticas tripsina, quimotripsina, carboxipeptidase e elastase.
As peptidases da borda em escova do epitélio intestinal completam a hidrólise dos peptídeos, e uma mistura de aminoácidos livres, dipeptídeos e tripeptídeos é absorvida por transporte específico (Drackley, 2008).
A digestão da gordura do leite inicia-se na boca pela ação da lipase pré-gástrica, e os produtos de sua ação são diacilglicerol e ácidos graxos livres. Os ácidos graxos de cadeia curta liberados são absorvidos no intestino delgado e oxidados a fim de gerar energia para o fígado.
Os ácidos graxos de cadeia média possuem potente atividade antimicrobiana, e sua liberação no abomaso juntamente com as condições ácidas aí presentes vão prevenir a entrada de bactérias no intestino (Davis e Drackley, 1998; Drackley, 2008).
A lipase pancreática na presença de colipase e sais biliares hidrolisa os diacilgliceróis e triacilgliceróis a 2 monoacilglicerol e ácidos graxos livres, e estes são absorvidos pelas células epiteliais, onde são reconvertidos a triacilglicerol e acondicionados nos quilomícrons, sendo secretados das células para o espaço extracelular, atingindo os vasos linfáticos e a veia cava, sendo, então, distribuídos aos músculos esqueléticos, ao coração e ao tecido adiposo (Cunninghan, 2004; Drackley, 2008).
À exceção da lactase enzima presente na borda em escova do epitélio intestinal, todas as outras enzimas que quebram os carboidratos são encontradas com atividade relativamente baixa no intestino dos bezerros. Faltam aos bezerros sacarase e amilase salivar.
A maltase intestinal e a amilase pancreática são encontradas em limitadas quantidades ao nascimento, mas aumentam sua atividade com a idade (especialmente a amilase). Dessa forma, o uso de algum dissacarídeo ou polissacarídeo que não seja a lactose é severamente limitado nas primeiras três semanas de vida do bezerro.
Após as três semanas de idade, ocorre aumento na capacidade de digestão do amido, intensificando a atividade enzimática e a habilidade de digestão de proteínas de origem vegetal (Church, 1998; Davis e Drackley, 1998).

O perfil enzimático indica que os bezerros estão preparados para a digestão do leite e que, até três semanas de vida, são especialmente suscetíveis à baixa qualidade dos ingredientes dos sucedâneos de leite, em virtude da pequena maturação dos tecidos intestinais e da reduzida secreção de enzimas digestivas. Portanto, o leite é a melhor dieta líquida para bezerros de até três semanas de idade.
Várias teorias têm sido propostas para explicar a ativação do reflexo da goteira esofagiana, um processo controlado por estimulação neural. A mais aceita é a de que o condicionamento do animal é o principal fator a desencadear esse reflexo; a repetição dos mesmos hábitos e a utilização dos mesmos utensílios no momento do aleitamento fazem com que os bezerros ativem esse reflexo (Orskov, 1972).
A ativação do reflexo da goteira esofagiana é importante para evitar a entrada e a fermentação do leite no rúmen. A falha desse reflexo e a entrada de leite no rúmen ocasionam fermentação dos carboidratos com produção das formas D e L de ácido lático. Altas quantidades destes isômeros podem acumular no rúmen e serem absorvidas, podendo levar a quadros de acidose metabólica (Gentile et al., 2004; Lorenz, 2004).
Após os primeiros três a cinco dias de vida (recebendo colostro e leite de transição), deve-se iniciar o fornecimento de dieta líquida aos animais, um procedimento que pode ser feito tanto pelo aleitamento natural (bezerro mamando na vaca) como pelo aleitamento artificial (mamadeiras e baldes).

O aleitamento natural é utilizado quando a produção de leite total/animal é igual ou inferior a 8kg de leite/dia e quando as vacas não descem o leite sem a presença do bezerro. No aleitamento natural, durante o primeiro e o segundo mês de vida, deve-se deixar um teto para o bezerro na ordenha da manhã e outro na ordenha da tarde (o bezerro deve ingerir no mínimo quatro litros de leite/dia).
Nos meses seguintes, a ordenha é realizada nos quatro tetos, e o bezerro ingere o leite residual, devendo receber também concentrado a partir do terceiro dia de vida.
O aleitamento artificial é realizado quando a vaca desce o leite sem a presença do bezerro. Essa prática permite a racionalização do manejo, mais higiene na ordenha e controle da quantidade de leite ingerida pelo bezerro.
O aleitamento artificial consiste no fornecimento de quantidade fixa de leite ou sucedâneo, em torno de 8 a 10% do peso vivo (Roy, 1970; Davis e Drackley, 1998).
A quantidade comumente oferecida é de 4kg de leite/dia, oferecida uma ou duas vezes ao dia. Esta restrição no volume oferecido não permite altas taxas de ganho de peso, mas estimula o consumo de alimentos sólidos necessários ao desenvolvimento do rúmen.
O ganho de peso esperado com este consumo é de 200 a 400g/dia em condições termoneutras (15 a 25°C), pois, em condições ambientais adversas, as exigências de mantença aumentam para manter a termogênese, podendo provocar redução do ganho de peso ou perda de peso (Drackley, 2008).
Pesquisas recentes têm apontado consideráveis resultados no crescimento e na eficiência alimentar dos bezerros, por meio do fornecimento de maiores quantidades de leite ou sucedâneos.
Estima-se que, para atender o sistema imune, o animal apresente aumento de exigência nutricional de 20 a 40% da mantença, e que, na ausência de quantidades adequadas de energia e proteína, a imunidade celular, a produção de citocinas, o sistema complemento, a função fagocitária e as concentrações de anticorpos são diminuídos (Woodward, 1998; Jaster e Weary, 2002).
Assim como os outros animais, os bezerros necessitam de nutrientes para mantença e crescimento. O gasto de energia para mantença envolve as funções básicas necessárias para manter o animal vivo, a temperatura corporal em climas frios ou quentes, a resposta imune aos agentes infecciosos e a acomodação a agentes estressores.
O crescimento é o acúmulo de novos tecidos corporais e, antes do desaleitamento, ocorre principalmente nos sistemas esquelético e muscular, sendo necessária a deposição de proteína nos ossos e músculos, com correspondente mineralização da matriz óssea proteica. Alguns lipídios (principalmente os fosfolipídios) são depositados nos tecidos e servem como energia adicional na forma de triacilglicerol (Drackley, 2008).
O NRC (2001) estabeleceu o requerimento de energia para bezerros com até 100kg de peso vivo (PV) em unidade de energia metabolizável, sendo a energia metabolizável determinada pela subtração da perda de energia pelas fezes, de gases digestivos (metano) e urina em relação ao total de energia consumida. A perda de energia na forma de metano é pequena e por isso foi ignorada.
A exigência de energia metabolizável (EM) para mantença sob condições termoneutras é de aproximadamente 1,75Mcal/dia em um animal com 45kg de PV. O leite integral contém aproximadamente 5,37Mcal/kg de sólidos, o que significa que o bezerro requer em torno de 325g de sólidos do leite, ou 2,6kg de leite (2,5 litros) somente para mantença.
Com o uso de sucedâneos, a quantidade de EM/unidade de sólidos está entre 4,6 - 4,7Mcal/kg, já que os sucedâneos apresentam menores conteúdos de energia que o leite. Consequentemente, um animal com 45kg de PV requer em torno de 380g de sucedâneo (3,0 litros) para atender suas exigências nutricionais de mantença. Parte da quantidade de sólidos consumida pelo animal pode ser utilizada também para o crescimento (Drackley, 2008).
A definição das exigências nutricionais de proteína dos bezerros lactantes visa assegurar o suprimento adequado de aminoácidos para o rápido crescimento estrutural e a deposição de tecido magro (muscular), enquanto minimiza os custos e excessos da excreção de nitrogênio. As exigências de proteína para mantença são pequenas (em torno de 30g/d em bezerros com 45kg/PV) e não parecem ser substancialmente alteradas pelo estresse, pelo frio ou calor.
A exigência de proteína é, na maioria das vezes, determinada pela taxa de crescimento. Em média, 188g de proteína são depositadas para cada kg de ganho de PV em bezerros, que requerem de 250 a 280g de proteína bruta (PB) ingerida a partir do sucedâneo. Esta recomendação está baseada no princípio de que a deposição de proteína corporal em bezerros em crescimento é essencialmente linear em função da ingestão de proteína da dieta (Davis e Drackley, 1998; Diaz et al., 2001).
O aumento da ingestão de proteína em dietas à base de leite pode aumentar a deposição de tecido magro e reduzir a deposição de gordura; a elevação do teor de proteína bruta (PB) dos sucedâneos de 16 para 26% e a relação PB:Energia aumentam de forma linear a taxa de crescimento de bezerros, com elevação do ganho de peso médio diário e de deposição de tecido magro (Diaz at al., 2001; Blome et al., 2003).
Desta forma, a restrição de dieta líquida resulta em considerável redução da eficiência de conversão alimentar em bezerros lactantes quando comparada com práticas de alimentação em outras espécies domésticas, como ovelhas (0,69-0,73) e suínos (0,66-0,73). Bezerros alimentados com leite de forma ad libitum apresentam eficiência alimentar de 0,75-0,80 (Khouri e Pickering, 1968; Diaz et al., 2001).

A ingestão de concentrados é fator importante para o desenvolvimento do rúmen, e o aumento do fornecimento de dieta líquida pode reduzir o consumo de concentrados pelos bezerros. No entanto, animais saudáveis possuem bom apetite e, em fase de crescimento, ingerem quantidades suficientes da dieta sólida que permitem o desenvolvimento ruminal (Drackley, 2005).
O fornecimento de maiores volumes de leite ou sucedâneos não causa diarreia; a ocorrência desta está relacionada com a baixa qualidade sanitária do leite, a baixa qualidade nutricional do sucedâneo e a presença de microrganismos no ambiente dos bezerros (Davis e Drackley, 1998; Diaz et al., 2001).
Após 14 dias de idade, os bezerros já são capazes de ingerir alimentos sólidos, mas, somente após o primeiro mês de vida, são capazes de ingerir quantidades suficientes de concentrados que irão começar a contribuir com apreciável quantidade de energia metabólica.
A nutrição na fase inicial da vida dos bezerros pode trazer efeitos a longo prazo na vida do animal, como melhora do desenvolvimento e funcionamento do sistema imunológico, aumento precoce do desenvolvimento mamário, alteração do funcionamento e desenvolvimento endócrino, maior deposição de tecidos magros e maior produção futura de leite (Van Amburgh, 2003).
Desta forma, agora tem sido preconizado oferecer aos bezerros o volume de seis litros de leite/dia até 30 dias de idade, ou o fornecimento de seis litros/dia até os 60 dias de idade (Drackley, 2008).
Se forem utilizados quatro litros de leite/dia, o fornecimento pode ser realizado uma ou duas vezes ao dia, sendo que a alimentação uma vez ao dia deve ser iniciada na segunda semana de vida. Uma das vantagens desse sistema de alimentação é que a ingestão de alimentos sólidos pelo bezerro é iniciada mais cedo, reduzindo os custos com mão de obra. Se forem utilizados seis litros de leite/dia, o fornecimento deve ser realizado duas vezes ao dia.
SUBSTITUTOS DO LEITE
Os substitutos do leite mais utilizados são: colostro, leite de transição, leite de descarte e sucedâneos do leite. A utilização do colostro e do leite de transição tem vantagens econômicas (produto sem valor comercial) e nutricionais (alto valor proteico e vitamínico), aumenta as defesas contra infecções no trato digestivo, reduz a morbidade e melhora o desempenho dos animais.
O colostro excedente deve ser fornecido nas seguintes diluições: duas partes de colostro e uma de água, ou uma parte de colostro e uma de água. O leite de descarte é o leite de vacas em tratamento com fármacos antimicrobianos.
Este produto representa economia para as fazendas (é considerado uma fonte de alimento sem custo, pois não pode ser comercializado) e reduz impactos sobre o ambiente, todavia são necessários alguns cuidados na sua administração: quando o leite é descartado pela ocorrência de mastite, além de resíduo de antimicrobianos, pode conter grande número de patógenos e, portanto, sua utilização deve ser evitada; quando o leite não tem aparência normal, sua utilização também deve ser evitada nos primeiros dias de vida dos bezerros e em ocasiões em que os animais estejam em situações de estresse (Davis e Drackley, 1998).
A variação nutricional diária do leite de descarte pode também reduzir as taxas de ganho de peso. Atualmente, o uso de leite de vacas em tratamento com fármacos antimicrobianos tem sido desencorajado nos EUA, Canadá e Europa, devido ao risco de ingestão de patógenos. A utilização de pasteurizadores nas grandes fazendas bem como de sucedâneos de leite tem sido recomendada como forma de reduzir a exposição dos bezerros a riscos sanitários.
Os sucedâneos do leite são uma combinação de produtos de origem vegetal e animal, destinados a substituir completamente o leite. Um bom sucedâneo deve ser de fácil preparo e administração, ser palatável, não sedimentar, ser nutricionalmente adequado, pobre em fibra (máximo de 3%), rico em proteína (20% ou mais) e energia 95%NDT, enriquecido com minerais e vitaminas e não provocar diarreias.
Deve ainda ter composição sugerida pelo NRC (2001) (Tabela 3). Os sucedâneos apresentam a vantagem de composição constante, o que minimiza mudanças bruscas no trato digestivo, facilidade de estocagem e possibilidade de controle de doenças que são transmitidas pelo leite.

Os bezerros possuem enzimas digestivas para digestão de proteínas do leite. Desta forma, a digestão de proteínas que não sejam do leite é limitada no início da vida do bezerro. Devido ao custo das proteínas lácteas, elas têm sido substituídas pelas proteínas do soro do leite, que não coagulam no abomaso, mas têm alta digestibilidade (94 a 97%).
Proteínas vegetais também são utilizadas nos sucedâneos, sendo as mais utilizadas a proteína da soja (concentrado proteico) e proteína do trigo modificada. A soja possui fatores antinutricionais, tais como: oligossacarídeos indigestíveis, proteínas antigênicas, inibidores de tripsina, e deve ser processada termicamente para eliminação destes fatores antinutricionais.
Sob condições normais, níveis de 10 a 25% de gordura parecem ser suficientes para suprir os ácidos graxos essenciais para bezerros leiteiros jovens. A quantidade de gordura utilizada no sucedâneo depende da digestibilidade, da taxa de crescimento desejada, das condições ambientais e do custo da gordura e proteína substitutivas do leite.
O fornecimento de altos níveis de gordura nos sucedâneos promove fonte segura de energia e induz à deposição de gordura na carcaça, mas não parece prover o animal de uma fonte de energia prontamente disponível para a deposição de ossos e músculos (Jaster et al., 1992; NRC, 1989). O aumento da quantidade de gordura no sucedâneo aumenta o ganho de peso, mas pode reduzir o consumo de concentrados.
A lactose é mais eficientemente usada como combustível oxidável para síntese de proteínas. Sob condições termoneutras, menor conteúdo de gordura favorece o crescimento tecidual e o consumo de concentrado (Davis e Drackley, 1998; Drackley, 2008).
Formulações de sucedâneos com alta densidade energética são empregadas em regiões de clima frio para suporte das perdas calóricas, uma vez que as exigências de energia para mantença (mas não as de proteína) são aumentadas em situações de estresse pelo frio, enquanto regiões quentes comportam bem a utilização de sucedâneos com menores níveis.
Baixas temperaturas e altas precipitações pluviométricas, somadas ao estresse, podem reduzir fortemente as taxas de crescimento desses animais. Estes fatores aumentam a necessidade de energia para manutenção da temperatura corporal, disponibilizando menos energia para o crescimento ou para o sistema imune (Quigley e Drewry, 1998).

Existem várias opções para aumentar o nível de gordura no sucedâneo lácteo, incluindo o sebo, uma gordura relativamente pouco aproveitada pelo animal, em razão da presença dos ácidos graxos saturados esteárico e palmítico, de menor digestibilidade.
Para melhorar sua digestibilidade, recomenda-se a inclusão de lecitina de soja (1 a 6% na matéria seca) e sua homogeneização. A lecitina de soja atua como emulsificante e fonte de fosfolipídeos. O óleo de coco também pode ser utilizado para melhorar a digestibilidade do sebo, pois fornece ácido graxo de cadeia curta (Roy, 1972).
Outra alternativa seria o uso da gordura suína, que apresenta em sua composição os ácidos graxos oleico (42%), palmítico (28%), esteárico (15%), linoleico (9%), palmitoleico (3%), linolênico (2%) e mirístico (1%) (Byers e Schelling, 1993).
A incorporação de gordura ao sucedâneo do leite deve ser feita de modo que as partículas de gordura não ultrapassem 3 a 4μ de diâmetro no sucedâneo reconstituído, sob pena de provocar distúrbios digestivos (diarreias) e alopecia durante as primeiras três semanas de vida.
A alopecia, caracterizada pela queda de pelos nas orelhas e no pescoço e, posteriormente, na perna e nas extremidades posteriores, pode ocorrer quando a dieta contém gordura mal-homogeneizada ou óleos de algodão, de soja ou de milho (Roy, 1972).
O sucedâneo do leite pode ser incorporado à dieta de bezerros a partir de quatro dias de idade, desde que seja composto por fonte proteica de excelente qualidade. A recomendação mais comum, no entanto, é que se forneçam quantidades gradualmente maiores a partir do oitavo dia de vida, numa proporção de 10 a 14% do seu peso ao nascimento.
DESENVOLVIMENTO DO RÚMEN
Ao nascimento, o estômago dos bezerros contém os mesmos compartimentos de um animal adulto, no entanto o retículo e o rúmen não estão física e metabolicamente completamente desenvolvidos. No neonato, o rúmen não apresenta o alto grau de queratinização, como nos animais adultos, e o abomaso constitui o compartimento funcional ativamente envolvido na digestão.
Com o início do consumo de alimentos sólidos, e consequente estabelecimento da fermentação, o rúmen desenvolve-se física e metabolicamente e passa a ter função importante para o animal (Brownlee, 1956; Anderson et al., 1987a; Coelho, 1999; Baldwin et al., 2004).
Os compartimentos do estômago crescem proporcionalmente ao crescimento do animal. Até duas semanas de idade, os bezerros se comportam como animais monogástricos, com estômago simples. O abomaso possui 60% da capacidade do estômago, o retículo e o rúmen 30% e o omaso 10%.
Por volta da quarta semana de vida, o retículo e o rúmen representam 58%, o omaso 12% e o abomaso 30% da capacidade estomacal. Na 12a semana de idade, o retículo-rúmen possui mais de 2/3 da capacidade dos estômagos, o omaso 10% e o abomaso somente 20%. À medida que os estômagos se desenvolvem, o bezerro torna-se ruminante (Church, 1998).
Durante muito tempo, pensou-se que, para desenvolver o retículo-rúmen, era necessário o fornecimento de alimentos que provocassem atrito no retículo-rúmen. No entanto, o estímulo primário para o desenvolvimento do epitélio é químico, observando-se que os ácidos graxos voláteis (AGV), particularmente o ácido butírico e o propiônico, são responsáveis pelo desenvolvimento epitelial (papilas).
As papilas são projeções do epitélio que aumentam a superfície do rúmen e a área de absorção de nutrientes. Os AGV são produtos da fermentação, pela microbiota do rúmen, de carboidratos e de frações de proteínas das dietas, e seu efeito sobre o desenvolvimento do epitélio é, em parte, atribuído à intensa metabolização durante a absorção, fornecendo energia para o crescimento do tecido epitelial e para a contração muscular (Coelho, 1999; Baldwin et al., 2004).
Bezerros neonatos alimentados apenas com leite durante os primeiros meses de vida apresentam limitado desenvolvimento do epitélio do rúmen (papilas), do tamanho e do desenvolvimento muscular. A ausência de substrato para fermentação no rúmen dificulta o estabelecimento da população microbiana e atrasa o desenvolvimento do rúmen (Tamate et al., 1962).
Desta forma, para promover o desenvolvimento do retículo-rúmen e permitir o desaleitamento precoce, é essencial o consumo precoce de dieta que estimule o desenvolvimento do epitélio (aumento da área de absorção) e da motilidade.
A movimentação do rúmen provoca a inoculação da digesta com microrganismos, o contato dos AGV e da amônia com o epitélio, para absorção, a ruminação, a salivação, a eructação, a passagem da digesta a outros compartimentos do estômago, o desenvolvimento da musculatura e do tamanho do rúmen e a manutenção da saúde do tecido epitelial.
O estímulo mecânico sobre as paredes do retículo-rúmen (efeito físico) é necessário para promover a movimentação do rúmen, o desenvolvimento das camadas musculares, o aumento do volume do rúmen e a manutenção da saúde do epitélio.
Desse modo, para o perfeito equilíbrio e desenvolvimento do retículo-rúmen, é necessária uma dieta que forneça substrato para produção de AGV (efeito químico, principalmente produção de butirato e propionato) e mantenha a movimentação (efeito físico) do retículo-rúmen (Anderson et al., 1987a; Coelho, 1999; Coverdale et al., 2004.; Lesmeister e Heinrichs, 2004).
Para fermentar os substratos (grãos e volumosos), a microbiota precisa permanecer em um ambiente aquoso, pois, sem água suficiente, os microrganismos não crescem e o desenvolvimento ruminal é atrasado.

Grande parte da água que entra no rúmen é proveniente da água ingerida. Desta forma, para o desenvolvimento precoce do retículo-rúmen, os bezerros devem ter acesso à água limpa e fresca desde o nascimento, pois o consumo de água aumenta o consumo de matéria seca e o ganho de peso, ocorrendo diminuição de 31% no consumo de matéria seca e de 38% no ganho de peso quando água não é oferecida aos bezerros (Anderson et al., 1987b; Kertz et al., 1984).
Assim, para o desenvolvimento do retículo-rúmen, algumas condições são necessárias: o estabelecimento da microbiota, a presença de líquido no retículorúmen, a presença de substrato, a movimentação para mistura do conteúdo destes órgãos e a capacidade de absorção pelos tecidos (desenvolvimento do epitélio).
Dos 30 aos 60 dias de idade, os bezerros passam por um grande desafio, que é a manutenção de um pH adequado no rúmen. A ingestão de alimentos sólidos, principalmente concentrados (os bezerros têm grande preferência por estes alimentos, em detrimento dos volumosos), atinge quantidades significativas entre a quarta e a oitava semana de vida (Tabela 4).

A intensa fermentação e a produção de AGV resultam em redução do pH ruminal. Além disso, os concentrados normalmente utilizados para bezerros são fornecidos na forma farelada, que não provoca estímulo físico sobre o retículo-rúmen para a movimentação e a ruminação (salivação, tamponamento), ou na forma peletizada, que não proporciona estímulos físicos, pois os alimentos são facilmente quebrados na boca do animal (Anderson et al., 1987a; Coelho, 1999; Lesmeister e Heinrichs, 2004).
A redução dos estímulos de movimentação do retículo-rúmen provoca diminuição na taxa de absorção dos AGV, como resultado da redução na concentração de AGV próximos às papilas ruminais, causada pelo acúmulo de concentrados entre as papilas e/ou pela menor exposição do conteúdo do rúmen às papilas e, ainda, pela menor saída da digesta e dos AGV do rúmen para absorção no omaso e no abomaso.
Esses fatores aumentam a susceptibilidade do animal à acidose, provocando também redução na disponibilidade de nutrientes para o animal (Anderson et al.,1987a; Coelho, 1999).
A intensa produção de ácidos pela fermentação e a ausência de estímulos físicos para a movimentação do retículo-rúmen e a ruminação promovem ambiente favorável à acidose ruminal. As variações diárias no consumo de matéria seca observadas nesta fase estão relacionadas aos efeitos da dieta na fermentação ruminal especialmente sobre o pH do conteúdo ruminal.
O controle da taxa de fermentação e da capacidade de tamponamento, por meio da manipulação da dieta, é necessário para a saúde do rúmen e a obtenção de altos e uniformes consumos de alimentos sólidos (Anderson et al., 1987a; Coelho, 1999).
A forma física da dieta, em particular o tamanho das partículas, influencia o consumo de alimentos, o ganho de peso e a saúde dos bezerros (Tabela 5). Quando se trata da saúde do rúmen de bezerros até a oitava semana de idade, o tamanho das partículas é mais importante que o teor de fibra da dieta.

Assim, o concentrado oferecido aos bezerros precisa ter alta granulometria ou textura grosseira para provocar a movimentação do retículo-rúmen, a ruminação, a salivação e a manutenção de pH adequado.
Um bom concentrado para bezerros deve ser palatável; deve ter níveis adequados de proteína 18% (sem ureia); nível de energia de 80% de NDT; valores de FDA <6% e >20% devem ser evitados; valores de FDN utilizados de 15 a 25% (valores maiores podem ser utilizados quando a fonte de FDN vem de casca de soja, polpa de beterraba, caroço de algodão ou aveia); deve ser constituído de alimentos de boa qualidade, como milho, farelo de soja, farelo de algodão, leite em pó etc.; deve ter textura grosseira e deve ainda apresentar níveis de vitaminas e minerais recomendados pelo NRC (2001).
DESALEITAMENTO
Os custos de criação diminuem significativamente quando se faz o desaleitamento do bezerro. O leite ou o sucedâneo são frequentemente mais caros que o concentrado ou o feno, e os gastos com mão de obra também são maiores quando os bezerros recebem dieta líquida.
O desaleitamento geralmente é realizado com base na idade do animal (mais comum aos 60 dias), quando o bezerro está ingerindo, por três dias consecutivos, 700g de concentrado ou quando atinge 90 a 100kg de peso vivo.
Entretanto, deve-se ressaltar que o desaleitamento causa redução no consumo de matéria seca e estresse. O déficit de energia e proteína pode causar balanço energético negativo se o consumo de concentrado não aumentar rapidamente. Além disso, a dieta líquida é uma experiência prazerosa para o bezerro, e o fim desta experiência ocasiona estresse no bezerro.
A passagem do tratamento individual para o manejo em grupo e as mudanças na dieta (oferecimento de outro concentrado e/ou feno) também provocam estresse nos bezerros. Desta forma, deve-se sempre, ao desaleitar os bezerros, criar boas condições sanitárias e aumentar a observação dos bezerros para minimizar o surgimento de doenças e/ou detectar precocemente as doenças.
Após o desaleitamento, os bezerros devem ser mantidos onde estavam sendo criados por pelo menos 10 dias, para minimizar o estresse provocado pelo desaleitamento e pelo aumento do consumo de alimentos sólidos. Para reduzir o estresse ocasionado pela mudança da vida individualizada para a coletiva, os animais devem sempre ser desaleitados em grupo e introduzidos juntos em um novo lote.
Alimentação após o desaleitamento
Primeiro lote coletivo (transição) – o período após o desaleitamento é o mais estressante para os bezerros, pois nele ocorre a segunda maior incidência de doenças, sendo necessário grande cuidado nutricional e sanitário. O número de bezerros neste lote não deve exceder a oito. O tempo de permanência dos animais neste lote deve ser de 30 a 60 dias.
Na alimentação, inicia-se o uso de volumosos, incluindo feno de alta qualidade, gramíneas verdes com alto teor de proteína e energia, silagem de milho ou sorgo e cana-de-açúcar (esta última deve ser dada no menor tamanho possível).
O concentrado deve ser o mesmo fornecido no bezerreiro (avaliar a necessidade de utilizar concentrados com coccidiostáticos). Os animais devem ter livre acesso ao concentrado, ao sal mineralizado e à água limpa e fresca. O espaço de cocho deve ser de 30cm/animal, e a área de sombra de 1m²/animal.
Nas fazendas onde os bezerros vão receber dieta total, é necessário fazer a adaptação dos animais a esta nova forma de oferecimento dos alimentos. Na primeira semana de adaptação, recomenda-se colocar dieta total à vontade na metade do cocho e concentrado à vontade na outra metade do cocho.
Na segunda semana: dieta total à vontade na metade do cocho e 3kg de concentrado na outra metade do cocho. A partir daí, a cada semana, a quantidade de concentrado deve ser reduzida em 1kg de concentrado/semana, e a dieta total deve continuar à vontade. Na quinta semana, deve ser oferecida apenas dieta total.
Segundo lote coletivo – o concentrado oferecido aos bezerros começa agora a mudar. Deve-se oferecer 1kg do concentrado oferecido na fase anterior e 1kg de concentrado para novilhas. Neste lote, o número de bezerros deve ser de, no máximo, 15 animais.
Os animais devem ter livre acesso ao volumoso, ao sal mineralizado e à água limpa e fresca. Nesse lote, o tempo de permanência é de 60 dias. O espaço de cocho deve ser de 30 cm/animal, e a área de sombra de 1m²/animal (Donovan, 1992).
Terceiro lote coletivo – manter o uso de concentrado para novilhas, pelo menos 2kg/animal/dia e de volumosos de alta qualidade. Se possível, deve ser mantido o mesmo número de animais do lote anterior.
Os animais devem ter livre acesso ao volumoso, ao sal mineralizado e à água limpa e fresca. Nesse lote, o tempo de permanência pode ser maior que 60 dias. O espaço de cocho deve ser de 40cm/animal, e a área de sombra de 1,5m²/animal (Donovan, 1992).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A saúde, o crescimento e a produtividade dependem das práticas de nutrição e manejo. Cada bezerra que nasce representa uma oportunidade de melhoramento genético e expansão do rebanho. Desta forma, o crescimento deve ser otimizado, e os problemas de saúde minimizados para que estes objetivos sejam alcançados.
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Fonte
GONÇALVES, Lúcio Carlos; BORGES, Iran; FERREIRA, Pedro Dias Sales. Alimentação de Gado de Leite. 1ª ed. Belo Horizonte – MG: FEPMVZ, 2009.