Pecuária

A Terminação de Bovinos em Pastagem

Daniel Vilar
Especialista
27 min de leitura
A Terminação de Bovinos em Pastagem
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A exploração econômica da bovinocultura de corte brasileira tem como base o uso da pastagem como o principal recurso alimentar (ANDRADE e PRADO, 2011). O Brasil possui aproximadamente uma área de 152 milhões de hectares de pastagens, dos quais cerca de 60 milhões de hectares se encontram na região Centro–Oeste e mais especificamente, 20 milhões de hectares estão presentes no estado de Mato Grosso (MAPA, 2013).

Dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA, 2013) mostram que as áreas de pastagens no Brasil diminuíram 8% nos últimos 36 anos, enquanto o número de bovinos dobrou, passando de 102 milhões para aproximadamente 204 milhões de animais. Segundo o MAPA, os fatores responsáveis pelo constante aumento de produção de carne no Brasil são os investimentos em rodovias, pesquisas, comunicação, energia elétrica, exportação e crédito agrícola, no entanto, a redução do ciclo de produção devido ao investimento do produtor em genética, nutrição e sanidade deve ser ressaltada.

De acordo com Paulino et al. (2000) a redução do ciclo de produção na pecuária de corte é possível desde que haja o aumento da capacidade de suporte das pastagens, o incremento das taxas de natalidade e a precocidade produtiva, que envolve rapidez de acabamento e pouca idade ao início da vida reprodutiva. No entanto, existe um grande desafio ao produtor: produzir diante do cenário brasileiro, reduzindo o ciclo de produção e melhorando a qualidade da carne, de maneira competitiva, rentável e sustentável.

Em condições tropicais, uma das limitações à máxima produção animal em pastejo é a estacionalidade de produção de matéria seca das gramíneas tropicais perenes, em que cerca de 80% da produção de biomassa é obtida no período das águas, quando essa produção é rápida e em curto espaço de tempo. Segundo Postiglioni (1987), cerca de 25% da produção do animal acumulada na primavera-verão-outono pode ser perdida no inverno. Isso ocorre devido a falta de chuva e alteração do fotoperíodo, resultando em baixa disponibilidade de forragem e redução de sua qualidade. De acordo com RESENDE et al. (2005), bovinos mantidos apenas em pastagem no período de outono-inverno são caracterizados como os famosos bois sanfonas, que perdem aproximadamente 20% do peso vivo nesse período e ganham peso durante a primavera e o verão, o que aumenta a idade de abate, prejudicando a qualidade da carne e a rentabilidade do sistema.

Considerando a necessidade do aumento da eficiência produtiva para viabilização comercial da atividade pecuária, se faz necessário o emprego de técnicas nutricionais objetivando contornar o problema da estacionalidade na produção e qualidade das pastagens, como também o emprego de manejos que respeitem a saúde e a biologia dos bovinos. Porém, um dos maiores entraves ainda para a intensificação da produção animal em pastagem é a ausência de programas de adubação, manejo coerentes para a máxima produção de forragem, uso de suplementos, capacitação da mão de obra e investimentos em estruturas simples, como cochos.

Manejo nutricional de bovinos mantidos em pastagem

O longo período de terminação de bovinos mantidos em pastagem recebendo apenas suplementação de minerais tem se mostrado cada dia menos eficiente, principalmente pelo baixo e demorado retorno econômico do capital investido. Sendo assim, se faz necessário reduzir a idade de abate dos bovinos mantidos em pastagem, e para tal o ganho de peso diário desses animais deve ser próximo do potencial genético deles, atingindo ganhos em peso acima de 0,8 kg/dia (FERNANDES et al., 2010).

Segundo PAULINO et al., (2000), a exploração racional dos bovinos em pastagens envolve estratégias que permitam a maximização da energia, a minimização do tempo de alimentação e a otimização do balanço nutricional. Os mesmos autores ainda destacam que a produção animal é função do consumo, valor nutritivo (composição química e digestibilidade dos nutrientes) e eficiência de utilização do alimento disponível.

O valor nutritivo de uma forragem é afetado não apenas pela estacionalidade da produção, mas também pela idade da planta. Forragens que deixam de ser pastejadas no momento correto envelhecem, ocorrendo aumento dos carboidratos estruturais em detrimento dos carboidratos solúveis, redução dos teores de proteína e da digestibilidade. Este fato é responsável pela redução na ingestão de matéria seca pelos animais devido à diminuição da taxa de passagem do alimento pelo trato digestivo do bovino (VAN SOEST, 1994).

Nesse contexto, a suplementação energética e/ou proteica das pastagens pode constituir-se em ferramenta auxiliar para melhorar o valor nutritivo da dieta e o desempenho individual dos animais, aumentar a taxa de lotação dos pastos, incrementando a produção total de carne por unidade de área, melhorar a qualidade da carcaça dos animais e a eficiência reprodutiva, como também favorecer a preparação dos animais que serão terminados em confinamento, encurtando o período dele (LUCHIARI FILHO, 1998; EUCLIDES e MEDEIROS, 2005; CORREA, 2006; COSTA, 2007).

Ressalta-se que o termo suplementação é muitas vezes usado inadequadamente, uma vez que o alimento fornecido pode compor toda a dieta do animal. Assim, suplemento deve ser considerado como um complemento da dieta, o qual supre os nutrientes deficientes na pastagem (REIS et al., 1997). Existem basicamente dois objetivos para a utilização de suplementos, sendo: suprir nutrientes limitantes à manutenção ou incrementar o ganho de peso vivo, tornando a exploração mais lucrativa (PESQUEIRA-SILVA et al., 2015). Adicionalmente, Reis et al. (1997) afirmam que o uso de suplementos além de corrigir a deficiência de nutrientes da forragem; aumenta a capacidade de suporte das pastagens; fornece aditivos, promotores de crescimento e/ou medicamentos como também auxilia no manejo das pastagens. Segundo Paulino (1999), o fornecimento de nutrientes via suplementação pode possibilitar desempenho diferenciado aos animais, desde a simples manutenção de peso, passando por ganhos moderados de 200 a 300 g/dia, até ganhos de 500 a 600 g/dia.

As principais alterações observadas quando se fornecem suplementos energético e/ou proteico para animais mantidos em pastagens é a ocorrência de três efeitos associativos: substitutivo, aditivo ou suplementar e combinado.

O efeito substitutivo é caracterizado pela diminuição do consumo de energia digestível oriunda da forragem, enquanto observa-se aumento no consumo de concentrado, mantendo assim constante o consumo total de energia digestível indicando que a ingestão do suplemento substituiu a de pasto. Segundo Minson (1990), o fornecimento de suplemento proteico-energético no período seco para bovinos pode substituir o consumo de forragem em até 64%. Revisão de publicações nacionais realizada por Malafaia et al. (2003), mostrou que o fornecimento de suplemento proteico-energético em quantidade superior a 0,2% do peso vivo tende a reduzir o consumo de forragem, principalmente quando o suplemento apresenta altos teores de carboidratos não fibrosos de rápida fermentação.

O efeito substitutivo da forragem pelo concentrado pode ter duas vantagens: uma de proporcionar aos animais nutrientes necessários para manutenção e produção em situações em que a disponibilidade de forragem está comprometida; a outra vantagem é o aumento da taxa de lotação. CORREA (2006) comparou o efeito do fornecimento de suplemento mineral com o fornecimento de suplementação concentrada nas quantidades de 0,3; 0,6 e 0,9% do peso corporal para bovinos mantidos em pastos de Brachiaria brizantha (cv Marandu) no período das águas, e verificou acréscimo linear no ganho de peso diário individual (0,595; 0,673; 0,810; 0,968 kg, respectivamente) e no ganho de peso por área (490; 683; 776; 1015 kg, respectivamente). Resumidamente, a suplementação em quantidade de 0,9% do peso vivo propiciou acréscimo de 35,5% na taxa de lotação dos pastos, 62,7% no ganho individual e de 107% no ganho/área. Entretanto, ZERVOUDAKIS et al. (2011) salientam que as estratégias de suplementação devem ser continuamente avaliadas quanto à sua duração, níveis de fornecimento e ingredientes utilizados, para que se possa atingir maior viabilidade econômica nesse sistema produtivo.

Já o efeito aditivo ou suplementar refere-se ao aumento do consumo total de energia digestível devido ao incremento no consumo do concentrado, podendo o consumo de forragem permanecer o mesmo ou aumentar. De acordo com o NRC (1984), o consumo de uma forragem com baixo nível de proteína é incrementado quando uma pequena quantidade de suplemento proteico for fornecida. Contudo, quando mais de um quilo de suplemento é ofertado, o consumo de forragem pode ser reduzido por substituição. De acordo com Horn e McCollum (1987), o consumo de suplemento em até 0,70% do peso vivo (PV) em concentrado não reduz o consumo de forragem. Resultados de estudos realizados em condições tropicais brasileiras mostraram que desde que se tenha disponibilidade de forragem ad libitum, o consumo de forragem na época da seca começa a diminuir quando os bovinos são suplementados com mais de 0,5% do peso vivo, contudo o mesmo não foi observado no período das águas (SILVA et al., 2010).

No efeito combinado, observam-se ambos os efeitos substitutivo e aditivo, ou seja, há acréscimo no consumo de forragem e ao mesmo tempo elevação no de concentrado, o que resulta em maior consumo de energia.

De maneira geral, todo programa de suplementação objetiva fornecer aos animais nutrientes que estão em déficit na dieta, e não substituir a forragem pelo suplemento. Todavia, o que normalmente ocorre é o efeito substitutivo, pois, o pecuarista se preocupa muito com o suplemento e pouco com a pastagem, que em muitos casos é a responsável pelo fornecimento da maior parte dos nutrientes disponíveis na dieta.

Um desafio constante é predizer com exatidão, o impacto que a suplementação exercerá no desempenho animal. Uma estratégia de suplementação adequada seria aquela destinada a maximizar o consumo e digestibilidade da forragem disponível com o menor custo possível (REIS et al., 1997). Para isso, é necessário conhecer intimamente as exigências dos animais e dos microrganismos do rúmen, o conteúdo de nutrientes da forragem e do suplemento, a proporção de proteína degradável e não degradável no rúmen e de energia digestível, a capacidade de consumo dos animais, e as possíveis interações que ocorrem entre o consumo e a digestibilidade da forragem e do suplemento (VAN SOEST, 1994).

O primeiro princípio na nutrição de ruminantes é suprir os requerimentos dos microrganismos do rúmen, principalmente por nitrogênio e enxofre. Está bem estabelecido que animais que precisam de mais proteína do que a produzida pelos microrganismos presentes no rúmen (proteína microbiana) devem ser suplementados com fontes de proteína não degradável no rúmen (PNDR), podendo ser de fonte verdadeira, como o farelo de algodão, ou não verdadeira (NNP – nitrogênio não proteico), como a ureia. Essa estratégia permite alcançar os níveis requeridos para a manutenção e/ou produção (POPPI e MCLENNAN, 1995).

A quantidade de proteína microbiana sintetizada no rúmen varia com a disponibilidade de nitrogênio liberado e da energia disponível para sua síntese. Para as forragens que contêm menos de 7% de proteína bruta (PB) ocorre limitação na síntese de proteína microbiana, possivelmente devido à deficiência de aminoácidos, de amônia e de energia para o microrganismo do rúmen, afetando negativamente a digestibilidade da parede celular e o consumo dos animais (VAN SOEST, 1994). No entanto valores entre 7,0 e 12,0% permitem atendimento do requerimento de manutenção e razoavelmente o de produção (POPPI e MCLENNAN, 1995).

MINSON (1990) e HUNTER (1991) sugerem que para que ocorra máxima eficiência na síntese de proteína microbiana, a dieta deve conter no mínimo de 7 a 8% de PB. Já estudo de POPPI e MCLENNAN (1995) mostrou que há perda de nitrogênio, que é excretado, quando a quantidade de PB na dieta de bovinos foi superior a 21%. Portanto, tanto a deficiência como o excesso de proteína na dieta podem reduzir o consumo; a deficiência, pelo não atendimento aos requerimentos dos microrganismos ruminais e o excesso, devido à toxidez pela liberação de amônia (HADDAD, 1984).

VALADARES et al., (1997), ao fornecerem dietas com diferentes teores proteicos (7; 9,5; 12 e 14,5%, na MS) a novilhos zebuínos, verificaram que o nível de 7% de PB diminuiu o consumo de matéria seca e matéria orgânica, provavelmente porque esse teor de proteína foi insuficiente para promover o crescimento microbiano adequado o que afetou a degradação da fibra no rúmen.

Tão importante quanto a quantidade de proteína presente na forragem é a disponibilidade de forragem aos animais. EUCLIDES ET AL., (1998) estudaram a disponibilidade de Brachiaria decumbens e encontraram que para não ocorrer limitação no consumo e proporcionar a seletividade da pastagem pelos bovinos, a disponibilidade mínima de forragem deve ser de 2.500 toneladas de matéria seca/ha. No entanto, SANTOS et al. (2004) evidenciaram que devesse ter cautela ao afirmar que o aumento na disponibilidade de matéria seca de forragem aumenta a oportunidade de seleção de pasto, pois pode ocorrer também grande acúmulo de material senescente, que por sua vez, dependendo da qualidade da forragem ingerida, limita o consumo de matéria seca por fatores relativos ao animal (controle físico ou fisiológico). Sendo assim, o sucesso da suplementação é dependente da quantidade e qualidade da forragem, uma vez que o consumo restrito de nutrientes é o principal fator que limita a produção animal (EUCLIDES, 2000).

Diante do exposto, devem-se considerar a disponibilidade de forragem e a quantidade de nutrientes (principalmente proteína) existentes nela durante as diferentes épocas do ano, para que então se trace um plano de suplementação energética e/ou proteica que permita a expressão do potencial máximo de produção dos bovinos.

Suplementação nas águas

As forragens tropicais disponíveis durante a maior parte do período das águas apresentam teores mínimos requeridos de PB, entretanto observa-se deficiência de energia para a plena utilização do nitrogênio para a síntese de proteína microbiana no rúmen.

Segundo EUCLIDES (2004), o período das águas é indiscutivelmente caracterizado pela maior disponibilidade das forragens, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos, o que permite aos bovinos ganhos de peso entre 600 e 800g/dia. Assim, a suplementação (em torno de 0,5% do peso vivo) nesta época do ano pode proporcionar que os animais atinjam seu potencial de ganho de peso, ou seja, permitir ganhos adicionais entre 150 e 250g/dia em relação aos animais sem suplementação, possibilitando redução na idade de abate e redução no ciclo de produção (PAULINO et al., 2002).

ZERVOUDAKIS et al., (2011) analisaram vários estudos sobre suplementação de bovinos no período das águas com disponibilidade de forragem maior que 4 toneladas de matéria seca/ha, e concluíram que mesmo quando a disponibilidade de forragem é superior ao valor mínimo necessário para não limitar o pastejo seletivo dos animais, há superioridade no desempenho dos animais suplementados, ou seja há necessidade de se fornecer aos bovinos maior aporte energético e proteico para que os animais consigam incrementar em seu ganho de peso cerca de 200g/dia, proporcionando redução no ciclo de produção.

Estudo realizado por FERNANDES et al., (2010) reforça a superioridade no desempenho de bovinos suplementados no período das águas, já que os animais que receberam 0,6% do peso vivo em suplemento apresentaram ganho de peso vivo médio diário superior aos que receberam apenas sal mineral, com valores de 1,06 kg/dia, e 0,77 kg/dia, respectivamente.

É ressaltado por ZERVOUDAKIS (2003) que a suplementação no período das águas pode proporcionar menores ganhos de pesos adicionais do que os apresentados com a suplementação na seca, no entanto, a suplementação no período das águas deve ter um enfoque diferenciado, considerando que fatores como precocidade produtiva, menor tempo de permanência dos animais nos pastos e maior giro de capital devem ser avaliados dentro do sistema produtivo como um todo, na busca de maior intensificação da bovinocultura de ciclo curto.

Suplementação na seca

Durante maior parte do período seco os teores de PB estão abaixo do requerimento mínimo, como também a energia se encontra principalmente na forma de carboidrato estrutural, que é de lenta degradação ruminal, sendo, portanto, indicada suplementação proteica e energética (MINSON, 1990; Hunter, 1991; Poppi e McLennan, 1995). Assim, quando no suplemento são fornecidas pequenas quantidades de energia e de nitrogênio prontamente solúveis, pode-se aumentar digestão da forragem de baixa qualidade e, em alguns casos, o seu consumo e o desempenho dos bovinos (Silva et al., 2010; Baroni et al., 2010; Mateus et al., 2011).

Malafaia et al. (2003) revisaram diversos trabalhos publicados no Brasil relativos à suplementação proteico-energética para animais criados exclusivamente à pasto, e observaram que a suplementação no período seco além de evitar a perda de peso dos animais, e que o fornecimento de suplemento nas quantidades de 1 e 3 g/kg do peso vivo, resulta em ganhos diários de 100 a 350 g/dia, respectivamente, o que possibilita um retorno sobre a despesa na ordem de 100%.

Ganhos de peso superiores foram encontrados por Detmann et al. (2004), ao terminar bovinos mestiços em pastagem com disponibilidade de forragem superior a 7,0 toneladas de matéria seca/ha e recebendo suplementos (1% do Peso Vivo) com diferentes níveis de proteína bruta, com valores de 684; 811; 983 e 800g/dia para os respectivos níveis de proteína bruta de 12, 16, 20 e 24%, enquanto os animais do grupo controle recebendo apenas mistura mineral apresentaram 227g de ganho de peso diário. Esses autores salientaram que o ganho médio diário observado para os animais submetidos ao tratamento controle (277 g/dia) apesar de ser maior que a média nacional, ainda está aquém do necessário para terminação de animais ainda no período seco do mesmo ano, o que pode ser desfavorável em sistemas que enfocam a pecuária de ciclo curto a pasto.

Avaliando trabalhos relativos à suplementação no período seco do ano onde a disponibilidade de forragem é maior que quatro toneladas de matéria seca/ha, Zervoudakis et al. (2011) mostraram que animais que receberam suplementos em quantidades inferiores a 0,5% do peso vivo apresentaram ganho de peso vivo médio de 309g/dia, variando de 99 a 630g/dia, enquanto os que receberam quantidade de suplemento maior que 0,5% do peso vivo a média foi de 653g/dia, com variação de 307 a 983g/dia.

Além de melhorar a taxa de lotação das pastagens, o ganho de peso individual e por área, a suplementação tem mostrado outros benefícios, como a obtenção de carcaças de melhor qualidade, como mostrou os resultados da pesquisa realizada por Santos et al. (2002), onde bovinos recebendo suplemento proteico-energético na quantidade de 1% do peso vivo comparados com os que receberam apenas suplemento mineral na época de seca apresentaram carcaças mais pesadas (257,0 vs 203,9 kg), com menor proporção de ossos (15,76 vs. 21,71%), maior relação músculo:osso (3,6 vs. 2,9) e melhor acabamento.

A quantidade de suplemento

A quantidade de suplemento a ser fornecido aos animais varia de acordo com os objetivos de cada propriedade, sendo necessário previamente planejar qual o ganho de peso médio esperado dos animais, atentar quanto a disponibilidade e qualidade da forragem e calcular a rentabilidade do sistema.

Segundo Paulino et al. (2008), a avaliação da viabilidade econômica deve levar em conta as particularidades de cada sistema. A disponibilidade ou não de suplementos a baixo custo, incluindo as intervenções apropriadas na logística de coleta de matéria prima local e ou distribuição do produto final para uso junto ao mercado consumidor, e o próprio custo de implantação, melhoramento e manutenção das pastagens podem ser bastante distintos para um ou outro produtor, o que pode viabilizar ou não o sistema. Os custos adicionais devem, ainda, serem confrontados com os custos de manutenção dos animais em mais um ou dois anos de recria, considerando o desembolso e o custo de oportunidade de uso da área destinada a esses animais. Portanto, a rentabilidade do sistema produtivo é local dependente.

Baroni et al (2010) ofereceu diferentes níveis de suplemento para bovinos Nelore terminados em pastagem durante o período seco. Os resultados mostraram que houve efeito linear crescente dos níveis de suplemento sobre o peso vivo final, o ganho de peso médio diário, peso de carcaça e a espessura de gordura subcutânea, ou seja, ao fornecer 0, 1, 2 ou 4 kg/animal/dia de suplemento o ganho médio diário foi de 0,249; 0,273; 0,320 e 0,526 kg, respectivamente; o peso médio das carcaças foi de 243,1; 246,5; 248,6 e 254,6 kg, respectivamente e a espessura de gordura foi em média de 1,88; 2,00; 2,12 e 2,12 mm, respectivamente.

Outros estudos confirmam que os bovinos apresentam crescente ganho de peso conforme o aumento de fornecimento de suplemento na época seca. Bonfim et al. (2001) mostraram que os bovinos ganharam 0,41 e 0,65 kg/dia quando receberam diariamente o suplemento nas quantidades de 2,27 e 4,5 kg, respectivamente. Valores semelhantes de ganho de peso diário (0,489 kg e 0,630 kg) foram encontrados por El-Memari et al. (2002) ao suplementarem diariamente os animais com 2,6 ou 5,2 kg, respectivamente.

Já Baião et al. (2004) suplementaram os animais com menor quantidade de suplemento, mas encontraram a mesma tendência de desempenho, sendo que os animais alimentados com 1,1kg de suplemento diariamente apresentaram ganho de peso vivo médio diário de 0,18kg, enquanto que os suplementados com 2,8 kg/dia ganharam 0,46 kg/dia. Os autores justificam o incremento no ganho de peso dos animais suplementados devido o acréscimo no consumo de nutrientes digestíveis totais e proteína bruta. Essa observação corrobora com Moore et al. (1999), que afirmaram que os bovinos apresentam melhor ganho de peso quando a suplementação proporciona consumo de proteína bruta maior que 0,05% do peso vivo.

Silva et al. (2010) testaram quatro níveis de suplementação com concentrado (0,3; 0,6 e 0,9% do peso vivo do animal) em comparação à suplementação com sal mineral utilizando bovinos Nelore mantidos em pastagem de Brachiaria no período da seca e concluíram que os níveis de suplementação elevaram a quantidade de carne produzida por hectare. No entanto, a curva de crescimento da receita é menos acentuada que a dos custos, o que resulta em achatamento do lucro de acordo com os níveis de suplementação estudados.

Os suplementos podem ser fornecidos em pequena quantidade quando o objetivo é suprir os nutrientes mais limitantes, balanceando a dieta para a mantença ou para pequeno ganho sob condição de pastagem pobre. Em sistemas que almejam a produção de carne de melhor qualidade, proveniente de novilhos jovens, os suplementos são fornecidos em quantidades equivalentes a até 0,8-1,0% do PV, especialmente se os animais são terminados durante a seca (Paulino, 1999). Segundo Santos et al. (2004) o fornecimento de 0,8-1,0% do PV em suplementos com 20% de PB na matéria natural pode resultar em GPD acima de 800 g/dia durante a estação seca/fria, mas desde que haja adequado manejo das pastagens.

Destaca-se que atualmente é crescente a adesão ao fornecimento de concentrado em maiores quantidades para bovinos mantidos em pastagem, principalmente no período seco, onde a inclusão de concentrado na dieta é próxima à das dietas de confinamento (20 g/kg de peso corporal em concentrado, ou ainda entre 1,5 a 2,2% do peso vivo). Esse fato decorre de três importantes aspectos inerentes à região centro oeste brasileira: aumento da utilização do sistema de integração de lavoura com a pecuária e uso de subprodutos da agricultura dessa região e melhoria na qualidade da carne, principalmente de bovinos não castrados, que apresentam maior taxa de crescimento e melhor conversão alimentar, mas produzem carcaça com menor cobertura de gordura (RESTLE et al., 2000; SILVA, 2000). Segundo Prohmann (2015), o semi-confinamento pode auxiliar no acabamento de gordura de bovinos inteiros, desde que o concentrado forneça energia suficiente para deposição de gordura mais precoce.

Dados apresentados por Prohmann (2015) mostraram que novilhos cruzados mantidos em pastagem de Tifton 85, sob taxa de lotação média de 9,3 UA/ha (chegando a 13 UA/ha durante o verão), ganharam diariamente em média 1,200 kg, alcançando a produção de 1.310 kg/ha em 109 dias. O autor ressalta que se a estiagem não tivesse sido severa na região (52 dias de seca) os resultados seriam ainda mais favoráveis.

Scheffer (2014) utilizou bovinos inteiros ou imunocastrados da raça Nelore para estudar a terminação de bovinos em pastagem de Brachiaria decumbens, com o fornecimento de concentrado na quantidade de aproximadamente 2% do peso vivo, no estado de Mato Grosso. Os resultados encontrados mostraram que os animais inteiros ou castrados (com peso vivo inicial médio de 484,60 kg) apresentaram ganho de peso vivo médio diário de 1,55kg e 1,28kg, peso da carcaça de 340,60 kg e 320,09 kg e rendimento de carcaça de 56,90% e 55,47%, respectivamente. A autora ainda ressalta que o pH das carcaças se manteve dentro do preconizado para uma carne de qualidade, com valor de 5,65 para os animais inteiros e 5,63 para os animais castrados, já a cobertura de gordura apresentou a média de 2,42 cm e 2,76 cm para os animais inteiros e castrados, respectivamente.

Existem ainda outros efeitos indiretos do uso de semi-confinamento com alta inclusão de concentrado, porém são de difícil mensuração, como o incremento na fertilidade do solo (Prohmann, 2015) e otimização do uso de maquinários e mão de obra, principalmente se esse sistema for empregado em conjunto com a agricultura.

Outros fatores que podem afetar o desempenho dos animais suplementados

O desempenho dos animais terminados em pastagem não está relacionado apenas a disponibilidade de alimentos, mas também está intimamente relacionado com a capacidade de os animais responderem a mesma, ou seja, se os animais possuem procedência genética, saúde e não passaram por severas restrições alimentares na recria.

Muitos produtores se preocupam em elevar o ganho de peso dos bovinos apenas na fase de terminação, desconsiderando o fato de que os animais bem recriados (apresentando próximo ao ganho de peso potencial desde a desmama) podem responder melhor à suplementação na fase de engorda. Peruchena (1999) sugeriu que novilhos em recria suplementados no primeiro período seco, apresentando ganho de peso diário entre 0,400 a 0,700 kg, mostraram melhor desempenho na fase de terminação que os não suplementados.

Estudo realizado por Euclides et al. (1998) comparou o desempenho de bovinos Nelore mantidos em pastagem apenas com acesso ao sal mineral ou com duas épocas de fornecimento de suplemento em quantidade de 0,8% do peso vivo, a saber: durante 75 dias no primeiro período seco e 85 dias no segundo (na recria e terminação) ou apenas durante 85 dias no segundo período seco (terminação). Os resultados mostraram que a suplementação nos dois períodos de seca antecipou o abate dos animais em mais de oito meses, e em seis meses quando fornecida apenas no segundo período.

Reforçando a importância do bom desempenho na recria sobre o desempenho dos bovinos na fase de terminação, Euclides et al. (2001) avaliaram diferentes sistemas de alimentação como alternativa de redução da idade de abate de bovinos recriados em pastagens de Brachiaria Decumbens, sendo os tratamentos: sem suplementação (A); suplementação (0,8% do peso vivo) somente no primeiro período seco (B); suplementação (0,9% do peso vivo) apenas na segunda seca (C); suplementação nos dois períodos secos (D); e suplementação no primeiro período seco e confinamento de 100 dias no segundo (F). Durante o primeiro período seco, os animais suplementados apresentaram maiores ganhos de peso diário que os não suplementados, 460 e 70 g, respectivamente. No segundo período seco, os animais confinados apresentaram maiores ganhos de peso diário (1.285 g), seguidos dos suplementados em pasto (580 g), enquanto os não suplementados perderam peso (-180 g). O peso de abate para todos os animais foi de 460 kg, e as idades de abate foram de 30,1; 28,0; 26,6; 24,2; e 22,0 meses, respectivamente, para os tratamentos A, B, C, D e E. Os autores mostraram também que houve aumento na capacidade de suporte das pastagens, sendo de 24% durante o primeiro período seco e de 30% durante o segundo. No entanto, os autores destacaram que antes do produtor optar pelo sistema que permite maior ganho de peso, ele precisa analisar cuidadosamente suas condições (como instalações, custos, valor da arroba no abate), munindo-se do máximo de informações para que possa decidir corretamente.

Outro elemento que também pode afetar a eficiência da suplementação é a frequência com que é fornecida aos animais. De acordo com Canesin et al. (2007) a necessidade de distribuição diária de suplemento eleva os custos operacionais das fazendas, fazendo com que pecuaristas e técnicos busquem opções para melhorar a operacionalidade do sistema, sem afetar o desempenho dos animais. Estudos como de Farmer et al. (2001) e Bohnert et al. (2002a) mostraram que os benefícios da suplementação proteica persistem mesmo quando os ruminantes ingerem o suplemento com intervalos maiores que um dia. Esses autores explicam que existe reciclagem da amônia absorvida no rúmen, o que garante a adequada fermentação entre os períodos de fornecimento do suplemento.

Nesse contexto, Canesin et al. (2007) e Canesin (2009) conduziram um estudo onde bovinos Nelore foram mantidos em pastagem de Brachiaria Brizantha (cv. Marandu) e submetidos a três estratégias de suplementação, sendo: suplementação diária (1% do peso vivo); suplementação em dias alternados, nos quais os animais recebiam a quantidade de suplemento referente a dois dias (2% do peso vivo); ou suplementação de segunda à sexta-feira, sendo que os animais recebiam em cinco dias a quantidade de suplemento que deveria ser fornecido em sete dias (1,4% do peso vivo). Os resultados evidenciaram que a redução na frequência de suplementação não afeta o desempenho animal.

Outro estudo realizado em condições brasileiras realizado por Paula et al. (2010) mostrou que o ganho de peso vivo médio diário de bovinos mantidos em pastagem e suplementados com a quantidade aproximada de 0,5% do peso vivo foi igual para as duas fontes de proteína verdadeira testadas (farelo de soja e farelo de algodão), que possibilitaram ganhos superiores a 500g. Entretanto, o ganho de peso vivo dos animais suplementados 3 vezes/semana foi superior ao obtido com suplementação diária, possivelmente em virtude da capacidade de animais ruminantes em reciclar nitrogênio e manter a digestão da fibra no rúmen entre os intervalos de suplementação de forma similar aos animais recebendo suplemento diariamente. Os autores ainda destacam que o fornecimento do farelo de algodão, aliado à suplementação de 3 vezes/ semana proporcionou os melhores resultados devido ao custo operacional e também da fonte proteica.

A redução na frequência da suplementação proteica tem se mostrado eficiente, pois não causa prejuízos à fermentação ruminal e permite ao produtor a oportunidade de economia de tempo, de mão de obra e de equipamentos associados à suplementação (Canesin et al., 2007, Canesin, 2009). No entanto o produtor deve se atentar a disponibilidade de forragem e cocho, como também deve ofertar aos animais no dia da suplementação uma quantidade em que já esteja adicionada a quantidade do dia em que não serão tratados.

Apesar dos vários avanços tecnológicos na produção de bovinos em pastagem, deve-se ressaltar ainda que, nas últimas décadas, os sistemas pastoris têm sido criticados pelas emissões de metano dos ruminantes em pastejo, sendo desconsiderado nos cálculos de balanço de carbono os benefícios da captura de carbono da atmosfera e sua estocagem no solo (Zervoudakis et al., 2011), como também a redução da produção de metano quando os bovinos são mantidos em pastagem recebendo suplementos proteico-energético (Berchielli et al., 2010). Segundo estimativa de Berchielli et al. (2010) a redução da idade de abate dos bovinos de 39 meses para 29 meses, decorrente principalmente do uso de suplementos, reduz a produção de metano de 112,5 kg/animal para 78,7 kg, ou seja, há decréscimo na produção de metano na ordem de 30%. Já segundo projeções de Martha et al. (2010) essa redução pode ser de até 50% quando se eleva, durante todo a vida de um bovino, o ganho de peso médio diário de um animal de 200g para 450g.

Assim, estratégias de intensificação na produção de carne bovina pela adoção de tecnologias com uso de adubação de pastagens, e/ou fornecimento de suplementos múltiplos para bovinos em pastagem proporciona sistemas de produção com menores emissões de metano/kg de equivalente carcaça produzido. Essa redução na emissão de metano está relacionada principalmente ao melhor aproveitamento dos alimentos e à redução na idade de abate dos animais produzidos em ciclos intensivos de produção (Zervoudakis et al., 2011).

Existem ainda outros aspectos importantes dentro da produção de bovinos em pastagem, relacionados ao bem-estar dos animais, que afetam diretamente o desempenho dos mesmos. Tais aspectos devem considerar o comportamento natural dos animais, o ambiente e manejo, como o transporte, a condução e adaptação dos animais, o estresse por calor, a sanidade e a formação dos lotes, que são comuns aos animais terminados em pastagem e confinados, e que já foram abordados anteriormente no texto.

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Fonte

DE OLIVEIRA, Amado Filho. Produção e Manejo de Bovinos de Corte. Cuiabá - MT: KCM Editora, 2015.

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