Pecuária

A tainha pode ter uma “impressão digital”

O resultado pode abrir novas possibilidades para a rastreabilidade, a autenticação e a valorização do pescado brasileiro.

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
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Uma pesquisa conduzida pela Embrapa e instituições parceiras identificou uma espécie de “impressão digital química” da tainha brasileira (Mugil liza). A técnica permite diferenciar a origem geográfica dos peixes a partir de pequenas moléculas presentes no músculo.

O resultado pode abrir novas possibilidades para a rastreabilidade, a autenticação e a valorização do pescado brasileiro. O estudo foi realizado por pesquisadores da Embrapa Agroindústria de Alimentos, Embrapa Instrumentação, USP e UFRRJ, com apoio da Faperj.

Ciência identifica a origem do pescado

Para chegar ao resultado, os pesquisadores utilizaram a espectroscopia por Ressonância Magnética Nuclear de Hidrogênio (RMN de ¹H), combinada com a metabolômica.

A RMN permite analisar a composição química de uma amostra com grande precisão. Já a metabolômica estuda os metabólitos, que são pequenas moléculas produzidas pelo organismo durante seu funcionamento normal.

Na prática, a combinação das duas técnicas permite observar um verdadeiro “perfil químico” do peixe.

Foram analisadas tainhas capturadas em três regiões: Lagoa de Araruama (RJ), Baía de Sepetiba (RJ) e litoral de Santa Catarina. Os pesquisadores identificaram 23 compostos naturais presentes no músculo dos peixes, entre eles lactato, creatina, taurina e diferentes aminoácidos.

As diferenças nas concentrações de compostos como lactato, histidina, treonina, fenilalanina e ornitina ajudaram a separar os grupos de peixes conforme sua origem.

O ambiente deixa marcas no peixe

Um dos resultados mais relevantes apareceu nas tainhas provenientes da Lagoa de Araruama.

A lagoa é considerada a maior lagoa hipersalina permanente do mundo e apresenta salinidade média de 52%, condição muito diferente daquela encontrada no mar convencional.

Esse ambiente extremo exige adaptações fisiológicas dos peixes, principalmente para controlar o equilíbrio de água e sais no organismo. Essas adaptações acabam deixando alterações detectáveis no metabolismo.

Segundo os pesquisadores, o perfil químico das tainhas da região apresentou características próprias associadas à elevada salinidade e às respostas fisiológicas dos animais.

O estudo também mostrou que fatores como o tamanho dos peixes e a época do ano tiveram pouca influência sobre o perfil metabólico geral. Isso reforça o potencial desses compostos como indicadores de origem geográfica.

Tecnologia pode combater fraudes

A descoberta não fica restrita ao laboratório. Uma das possíveis aplicações é ajudar a verificar se o pescado comercializado realmente possui a origem declarada.

Isso pode contribuir para combater fraudes, substituição de espécies e falsificação de procedência, além de fortalecer sistemas de fiscalização e rastreabilidade.

A tecnologia também poderá apoiar o pedido de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Denominação de Origem, para a tainha da Lagoa de Araruama junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Na prática, isso significa que uma característica específica do ambiente pode ser associada a uma característica química mensurável no próprio pescado.

E onde entra a inteligência artificial?

Os pesquisadores também utilizaram ferramentas de inteligência artificial para auxiliar na análise e organização dos dados obtidos.

A combinação entre RMN, metabolômica e inteligência artificial permite trabalhar com grande quantidade de informações químicas e identificar padrões que seriam difíceis de avaliar apenas visualmente.

Para a cadeia do pescado, o avanço representa uma possibilidade de tornar a identificação de origem mais objetiva e baseada em evidências químicas.

O que isso representa para o produtor?

A pesquisa mostra como as características do ambiente podem deixar uma “marca” mensurável nos alimentos produzidos.

Para o setor pesqueiro, tecnologias desse tipo podem contribuir para comprovar a procedência, aumentar a confiabilidade do produto e agregar valor a pescados associados a determinadas regiões.

O próximo passo é transformar esse conhecimento científico em ferramentas aplicáveis em sistemas de rastreabilidade, certificação e controle de qualidade. Para quem trabalha com pescado, acompanhar esse avanço pode ser importante, principalmente em mercados que valorizam cada vez mais origem comprovada, autenticidade e segurança alimentar.

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