A Agricultura Orgânica e Seus Ramos
O termo orgânico é empregado para designar um dos sistemas não convencionais de cultivo da terra, baseados em princípios ecológicos. A agricultura orgânica é um sistema de produção comprometido com a saúde, a ética e a cidadania do ser humano, visando contribuir para a preservação da vida e da natureza. Busca utilizar de forma racional os recursos naturais, empregando métodos de cultivos tradicionais e as mais recentes tecnologias ecológicas.

Fazem parte da agricultura orgânica, diversos movimentos ou processos que adotam esses princípios básicos (agroecológicos), que são: agriculturas alternativas, biológica, orgânica, natural, biodinâmica, yamaguishiana, permacultura, agroflorestais, etc. No mundo todo, quaisquer produtos obtidos através destes sistemas são conhecidos como alimentos orgânicos.

A seguir descrevemos os principais ramos da agricultura orgânica:

1.1 Agricultura Orgânica
O inglês Sir Albert Howard deu início a partir de 1920 a uma das mais difundidas correntes do movimento orgânico, a agricultura orgânica. Sir Howard trabalhou com pesquisas na Índia, durante aproximadamente 40 anos, procurando demonstrar a relação da saúde e da resistência humana às doenças com a estrutura orgânica do solo, publicando obras relevantes entre 1935 e 1940 e, por isso, é considerado o fundador da agricultura orgânica.
Um dos princípios básicos defendidos por Howard era o não uso de adubos artificiais e, particularmente, de adubos químicos minerais. Em suas obras destacava a importância do uso da matéria orgânica na melhoria da fertilidade e vida do solo. Desenvolveu através de observação do Hindus, o método de compostagem denominado Indor, metodologia utilizada até hoje nos processos de compostagem. Reconhecia que o fator principal - para a eliminação de pragas e doenças, melhoria dos rendimentos e qualidade dos produtos agrícolas - era a fertilidade natural do solo.
O aprimoramento do método de produção de Howard foi aprimorado pela pesquisadora inglesa Lady Eve Balfour, que transformou sua fazenda de Suffolk, na Inglaterra, em estação experimental. Em 1946, fundou uma entidade chamada Soil Association, onde realizou diversas atividades e publicações comparando a qualidade do solo em parcelas orgânicas, mistas e químicas. Seus estudos foram difundidos, reforçando a importância dos processos biológicos do solo, além da relação entre solo, planta, animal e a saúde do homem.
Outro seguidor de Howard foi Jerome Irving Rodale, final da década de 40 nos Estados Unidos, fundou um forte movimento em prol da agricultura orgânica, publicando posteriormente a revista Organic Gardening and Farm (OG&F).
Mais tarde, foi fundado o Rodale Institute que realiza pesquisa, extensão e ensino em agricultura orgânica até os dias de hoje.
1.2 Agricultura Biodinâmica
É desenvolvida a partir de 8 conferências do filósofo Austríaco Rudolf Steiner, proferidas a agricultores da Alemanha, em 1924 onde apresentou uma visão alternativa de agricultura baseada na ciência espiritual da antroposofia, lançando os fundamentos do que seria a agricultura biodinâmica. As ideias de Steiner foram difundidas para vários países do mundo, com a colaboração de outros pesquisadores.
A agricultura biodinâmica possui uma base comum com as demais formas de produção orgânica no que diz respeito a diversificação e integração das explorações vegetais, animais e florestais; adota esquemas de reciclagem de resíduos vegetais e animais, via compostagem, e o uso de nutrientes de baixa solubilidade e concentração.
A diferença da agricultura biodinâmica das demais correntes orgânicas é basicamente em dois pontos. O primeiro é o uso de preparados biodinâmicos, que são substâncias de origem mineral, vegetal e animal altamente diluídas, que potencializam forças naturais para vitalizar e estimular o crescimento das plantas ao serem aplicados no solo e sobre os vegetais. O segundo princípio é efetuar as operações agrícolas (plantio, poda, raleio e outros tratos culturais e colheita) de acordo com o calendário astral, com observações da posição da lua e posição dos planetas em relação as constelações.

1.3 Agricultura Biológica
Desenvolvido no início dos anos 30, pelo biologista e homem político Dr. HansMüller trabalhou na Suíça em estudos sobre fertilidade de solo e microbiologia, nascendo a agricultura organo - biológica, mais tarde conhecida como agricultura biológica, cujos objetivos iniciais eram basicamente socioeconômicos e políticos, ou seja, buscavam a autonomia do agricultor e a comercialização direta. Essas ideias se concretizaram muitos anos mais tarde, por volta da década de 1960, quando o médico austríaco Hans Peter Rusch difundiu este método.
Nessa época, as preocupações da corrente de agricultura biológica vinham de encontro às do movimento ecológico, ou seja, proteção do meio ambiente, qualidade biológica dos alimentos e desenvolvimento de fontes de energia renováveis.
Segundo Rusch, o mais importante era a integração das unidades de produção com o conjunto das atividades socioeconômicas regionais. Esse movimento fez numerosos adeptos, destacadamente, na França (Fundação Nature & Progrès), na Alemanha (Associação Bioland) e na Suíça (Cooperativas Müller).
Os princípios da agricultura biológica foram introduzidos na França, após a segunda guerra mundial, pelos consumidores e médicos inquietos com os efeitos dos alimentos sobre a saúde humana. A partir da década de 1960 até os dias atuais, o desenvolvimento da agricultura biológica ocorreu em várias etapas ligadas aos contextos socioeconômicos e aos movimentos de ideias das épocas correspondentes. Foi no início dos anos 60 que o agrônomo Jean Boucher e o médico Raoul Lemaire deram uma conotação comercial muito forte ao movimento, criando o “método Lemaire-Boucher”, que preconizava, entre outras coisas, a utilização de substâncias de origem marinha, que era comercializada pela sociedade formada entre ambos.
Destacam-se dentro do movimento da agricultura biológica, dois pesquisadores franceses, como Claude Aubert, que publicou L’Agriculture Biologique ou “A Agricultura Biológica”, em que destaca a importância de manter a saúde dos solos para melhorar a saúde das plantas (qualidade biológica do alimento) e, em consequência, melhorar a saúde do homem. O segundo personagem importante é Francis Chaboussou, que publicou em 1980, Les plantes malades des pesticides, traduzido para o português como “Plantas doentes pelo uso de agrotóxicos: A teoria da trofobiose”. Sua obra mostra que uma planta em bom estado nutricional se torna mais resistente ao ataque de pragas e doenças.
Outro ponto que o autor destaca é que o uso de agrotóxicos causa um desequilíbrio nutricional e metabólico à planta, deixando-a mais vulnerável e causando alterações na qualidade biológica do alimento.
1.4 Agricultura Natural
Outra corrente importante do movimento orgânico é a agricultura natural. Em meados da década de 1930, o filósofo japonês Mokiti Okada fundava uma religião baseada no princípio da purificação, hoje Igreja Messiânica, que tinha como um de seus alicerces a chamada agricultura natural.
O princípio da Agricultura Natural é o de que as atividades agrícolas devem potencializar os processos naturais, evitando perdas de energia no sistema. Suas idéias foram reforçadas e difundidas internacionalmente pelas pesquisas de Masanobu Fukuoka, que defendia a idéia de artificializar o menos possível a produção, mantendo o sistema agrícola o mais próximo possível dos sistemas naturais.
Algumas particularidades, diferenciam a agricultura natural dos outros modelos. A primeira delas diz respeito ao uso de microrganismos eficientes ou effective microrganisms, conhecidos como EM. Esses microrganismos são utilizados como inoculantes para o solo, planta e composto. Outra particularidade é a não utilização de dejetos animais nos compostos.
Argumenta-se que os dejetos animais aumentam o nível de nitratos na água potável, atraem insetos e proliferam parasitas.
1.5 Permacultura
Na Austrália, utilizando as idéias da agricultura natural, foram trabalhadas por Dr. Bill Mollison e deram origem a um novo método conhecido como permacultura que significa um sistema evolutivo integrado de espécies vegetais e animais perenes (de onde vem o nome) ou auto perpetuantes úteis ao homem.
1.6 Conclusão
Desta forma, as várias correntes citadas (biodinâmica, biológica, natural, permacultura, ecológica, agroecológica, e em alguns casos, a agricultura sustentável) são consideradas como uma forma de agricultura orgânica, desde que estejam de acordo com as normas técnicas para produção e comercialização, apesar das pequenas particularidades existentes.
Em síntese, podemos destacar que o ponto comum entre as diferentes correntes que formam a base da agricultura orgânica é a busca de um sistema de produção sustentável no tempo e no espaço, mediante o manejo e a proteção dos recursos naturais, sem a utilização de produtos químicos agressivos à saúde humana e ao meio ambiente, mantendo o incremento da fertilidade e a vida dos solos, a diversidade biológica e respeitando a integridade cultural dos agricultores.

Fonte
PENTEADO, Silvio Roberto. Agricultura Orgânica. Piracicaba - SP: USP/ESALQ, 2001.