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Cultivares e Manejo da Cana-de-açúcar

Daniel Vilar
Especialista
9 min de leitura
Cultivares e Manejo da Cana-de-açúcar
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Conceitos gerais sobre manejo varietal

A produtividade agrícola de uma variedade de cana-de-açúcar é a expressão fenotípica do caráter em questão e é composto por aquilo que é devido ao genótipo da planta somado ao efeito ambiental, mais a interação desses dois componentes. O manejo varietal em cana-de-açúcar é uma estratégia que procura explorar os ganhos gerados pela interação genótipo x ambiente (G x A) como “bônus”, ou seja, tem como objetivo alocar diferentes cultivares comerciais no ambiente, que proporcionem a melhor expressão produtiva relativa, no contexto considerado. Essa visão engloba um conhecimento especializado e multidisciplinar, sustentado por alguns elementos tácitos somados às informações geradas em um nicho específico.

Alguns estudos indicam que o potencial biológico de produção da cana-de-açúcar no primeiro ciclo (corte) é de aproximadamente 350 t ha-1 de colmos no período de 360 dias (LANDELL et al., 2010). A média atual de produtividade da cana-planta do estado de São Paulo está próxima de 115 t ha-1. Assim, observa-se que a produtividade atual, equivale a aproximadamente 33% do potencial biológico da cultura da cana-de-açúcar. Isto ocorre porque existem fatores abióticos e bióticos interagindo como “gargalos” de restrição. O manejo varietal pode otimizar a produtividade, elevando o potencial realizado.

Um dos principais fatores de restrição é o déficit hídrico que a cultura está submetida no seu ciclo de crescimento. Este déficit não é uniforme e varia em função do regime hídrico regional e da amplitude térmica, assim como a capacidade de armazenamento de água do solo, que pode amenizar ou tornar mais extremos estes déficits, e do ciclo de crescimento em questão. Cada um dos períodos de safra definidos para o Centro-Sul do Brasil impõe sobre a planta de cana-de-açúcar diferentes condições climáticas durante os estágios fenológicos.

A figura 1 indica os déficits hídricos médios de canaviais crescidos em diferentes períodos (outono, inverno e primavera). Observa-se que canaviais do ciclo de primavera sofrem um estresse acentuado, o que resulta em produtividades muito inferiores àquelas obtidas em solos de padrões semelhantes do ciclo de outono.

Na figura 2 são associados os ambientes de produção qualificados segundo conceitos pedológicos, com os três ciclos de desenvolvimento (outono, inverno e primavera). A esta associação desses dois fatores dá-se o nome de “Matriz de Ambientes Bidimensional” que define caselas a partir da intersecção de três níveis dos fatores ambientes e épocas. Esta caracterização permite estabelecer estratégias de alocação varietal quando se conhece o perfil de resposta das cultivares aos ambientes. Portanto, a “Matriz de Ambientes Bidimensional” de produção é composta por combinações de tipos de solos e épocas de colheita (LANDELL et al., 2003).

Um dos aspectos importantes a considerar para alocação varietal é o perfil de resposta da variedade. Esta informação é obtida em testes de estabilidade, envolvendo inúmeros ambientes de produção de potencial distintos. Mais recentemente, os programas brasileiros de melhoramento de cana-de-açúcar têm dado grande ênfase ao perfil responsivo destas variedades. Uma nova cultivar necessita ser caracterizada em relação ao seu desempenho em diversos ambientes de produção. A estimativa do comportamento de genótipos diante de variações ambientais pode ser determinada pela quantificação da interação G x A. O estudo da estabilidade fenotípica permite sintetizar o enorme volume de informações obtido em uma rede experimental, caracterizando a capacidade produtiva, a adaptação às variações ambientais e a estabilidade de novas cultivares.

Assim, para definir uma cultivar em relação ao seu perfil de resposta agronômica é necessário associar o conhecimento dos ambientes de produção e o desempenho individual do genótipo. Desta forma, uma cultivar pode ser caracterizada quanto à:

Capacidade produtiva: avaliada pela média de produção agrícola (TCH = tonelada de colmo por hectare) da cultivar, em um grande número de locais;

Responsividade: dada pela estimativa da estabilidade e adaptabilidade, que pode ser caracterizada, conforme será discutido adiante, a partir do desempenho nos vários ambientes de produção (locais).

O índice que indica a inclinação da reta de resposta de cada cultivar aos ambientes nos revela se determinada variedade é estável, rústica ou responsiva, conforme conceituação a seguir:

Variedades estáveis: É a variedade que responde a uma condição mais favorável de cultivo, mas que também tem bom desempenho em condições desfavoráveis de produção. O seu desempenho é bastante previsível, pois pode ser estimado pela variação do ambiente. Conhecida também como “variedade eclética”.

Variedades responsivas: É aquela que tem grande resposta a uma condição favorável de cultivo, mas que não se adapta a ambientes mais restritivos.

Variedades rústicas: É aquela que se adapta a ambientes mais restritivos, mas não apresenta boa resposta a uma condição favorável de cultivo.

A caracterização do perfil varietal associado ao conhecimento de solo nos permite estabelecer duas estratégias de alocação varietal, que podem ser adotadas isoladamente ou em conjunto:

a) Compensação de perdas: tem como objetivo atenuar os ambientes mais negativos, com a escolha de época de corte mais favorável ao acúmulo de biomassa. A figura 2 ilustra esta estratégia em que são destacadas as caselas ambientais com notas de 1 a 9. As caselas 1-3 são superiores para acúmulo de biomassa, portanto, para a produção de colmos (TCH); as 4-6 são intermediárias e as 7-9, restritivas. Os solos mais restritivos quando reservados para a colheita no outono ajudam a promover uma maior maturação, o que é bastante desejável para este período.

b) Alocação conforme perfil de resposta varietal: possibilita incorporar as altas respostas dos materiais responsivos, elevando a média agrícola. O uso de cultivares rústicas pode viabilizar ambientes desfavoráveis, como aqueles com elevado déficit hídrico, possibilitando a utilização das caselas 7, 8 e 9, figura 2 (LANDELL e BRESSIANI, 2008).

Outro aspecto que deve ser destacado refere-se à época de plantio. Na região onde o déficit é pronunciado no inverno, conhecida originalmente como “região do cerrado”, o plantio de outono/inverno tem protegido os canaviais de déficit no primeiro período de crescimento (até os 150 dias), e isto tem se traduzido em aumento de produtividade em cana-planta. A produtividade chega a alcançar valores expressivos, acima de 25%, quando comparamos canaviais plantados em janeiro-fevereiro com canaviais plantados em abril-julho.

Outro aspecto relevante é que as novas cultivares de cana-de-açúcar têm sido recomendadas com especificidade quanto aos diferentes ambientes de produção, com associação ao tipo de manejo agrícola e à época de corte no decorrer da safra. Essa especificidade permite maximizar a exploração do potencial genético das novas cultivares.

“Ambiência” e o manejo da “Matriz Tridimensional (3º Eixo em cana-de-açúcar)”

Há quase duas décadas, o Programa Cana IAC preconiza o uso da “matriz de produção bidimensional” que considera dois fatores: “épocas de colheita” e “ambientes de produção”, para fins de alocação de variedades e determinação de época de colheita. A partir de 2007, passamos a considerar um terceiro fator que é o ciclo da planta, considerando que o mesmo é determinante nas respostas da cultura a déficit hídrico e adaptação a situações restritivas do ambiente (LANDELL et al., 2010). Este terceiro fator, que é o ciclo da cultura, denominamos “Terceiro eixo” e o modelo passou a ser uma “Matriz Tridimensional”. O principal objetivo de implementar esse conceito é ter uma eficiente ferramenta para mitigar o déficit hídrico, considerando que quase 100% da nossa canavicultura é de sequeiro.

Assim, o principal resultado tem sido o aumento da produtividade agrícola como um todo, decorrente da menor “desconstrução” das produtividades dos ciclos que se seguem, o que resulta em maior longevidade do canavial. Em outras palavras, o principal resultado tem sido o aumento de produtividade agrícola e agroindustrial de todos os ciclos, trazendo como consequência maior longevidade dos canaviais, resultando assim em maior sustentabilidade econômica da atividade.

Para adotar a Matriz Tridimensional temos que associar uma série de conhecimentos, o que traz uma complexidade um pouco maior às decisões, mas de uma maneira simplificada, podemos dizer que a antecipação da colheita dos ciclos mais jovens (1º e 2º cortes) é uma prática que deve ser adotada de maneira disciplinada. Isso traz inúmeras consequências no perfil varietal adotado, assim como no uso das estratégias de maturação, como a associação de produtos maturadores em ambientes mais restritivos com a finalidade de promover uma maturação mais “radical” em variedades com perfil de maturação média.

Dentre as consequências positivas deste manejo podemos destacar:

1. aumento expressivo da população de colmos para os ciclos mais avançados;

2. aumento da produtividade agroindustrial nos cortes avançados promovendo assim maior longevidade dos canaviais;

3. aspectos secundários, mas não menos importantes são: (a) maior fechamento das entrelinhas, facilitando o manejo da matocompetição e (b) promove melhor rendimento na colheita.

Os resultados da implantação da Matriz Tridimensional têm sido potencializados ao longo de cinco anos, mas os primeiros resultados são palpáveis na produtividade dos primeiros cortes a partir do segundo ano de adoção (Tabela 1).

Teoricamente pode ser implementada por qualquer produtor da região Centro-Sul, mas os modelos foram desenvolvidos a partir de unidades que ficam em regiões com estresse hídrico mais pronunciado, portanto, precisam de uma melhor validação para regiões como Mato Grosso do Sul, Paraná e sul de São Paulo (Assis, Ourinhos, etc.).

Na tabela 2 é apresentado, de maneira sintética, as principais variedades de cana-de-açúcar em cultivo na atualidade, com indicação de ambiente de produção e de época de colheita.

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Fonte

XAVIER, Mauro Alexandre; LANDELL, Marcos Guimarães de Andrade; PIRES, Regina Célia de Matos; et al. Gemas brotadas de cana-de-açúcar: produção sustentável e utilização experimental na formação de áreas de multiplicação. Campinas - SP: Instituto Agronômico, 2020.

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