Agricultura

Sistema Radicular do Cafeeiro

Daniel Vilar
Especialista
9 min de leitura
Sistema Radicular do Cafeeiro
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Apesar de existirem relatos na literatura de que a maior robustez do café robusta esteja associada à maior extensão e eficiência de seu sistema radicular, tanto na absorção de água como de nutrientes, o sistema radicular do café conilon apresenta alta plasticidade em resposta a diversos fatores. Logo, sua morfologia, arquitetura, profundidade e distribuição no solo, assim como ocorre no café arábica, pode depender da idade da planta (BRAGANÇA, 2005), do tipo de irrigação e do manejo nutricional adotados (BARRETO et al., 2006), da relação entre fonte e dreno (ALVES et al., 2011), do método de formação de mudas, i.e., se propagadas vegetativamente ou a partir de sementes (JESUS; CARVALHO; SOARES, 2006; PARTELLI et al., 2006, 2014b; SILVA et al., 2010), das características químicas do solo (MOTA et al., 2006), da calagem em subsuperfície (RODRIGUES et al., 2001), das práticas culturais (RENA; GUIMARÃES, 2000; RENA; DaMATTA, 2002), da competição e das espécies de plantas daninhas (RONCHI; TERRA; SILVA, 2007), da densidade de plantio (CASSIDY; KUMAR, 1984; RONCHI et al., 2015b); e do material genético (ALFONSI et al., 2005; BRAGANÇA, 2005; PINHEIRO et al., 2005; SILVA et al., 2010; COVRE et al., 2013; RONCHI et al., 2015b).

Trabalhos recentes, realizados ao longo de vários anos no Município de Vila Valério, região norte do Espírito Santo produtora de café conilon, apontaram que, apesar de a produtividade de plantas propagadas por estacas ser maior que aquelas propagadas por sementes, ambas as formas de propagação originaram sistemas radiculares semelhantes (PARTELLI et al., 2006, 2014b). Portanto, o sistema radicular do café conilon, principalmente as raízes absorventes (menores que 1,0 mm de diâmetro), avaliado por meio da área, comprimento e volume de raízes por volume de solo, seja em plantas oriundas de propagação vegetativa ou seminífera, concentra-se na camada superficial do solo: de 40% a 50% até 0,1 m e de 60% a 65% até 0,2 m de profundidade (Figuras 1 e 2), com padrão marcante de redução, à medida que se aprofunda no perfil do solo (PARTELLI et al., 2006; 2014b). Essa redução é explicada, parcialmente, pela menor concentração de alguns macronutrientes em profundidade (PARTELLI et al., 2014b). Em todo o caso, na principal região produtora de café conilon do norte do Estado do Espírito Santo, em que predomina solo do tipo Latossolo Vermelho Amarelo distrófico (LVd11), com presença de camada adensada subsuperficialmente, o sistema radicular pode concentrar-se na camada de 0-0,45 m de profundidade, apesar de uma pequena quantidade de raízes conseguir penetrar a camada adensada (SILVA et al., dados não publicados) (Figura 1).

De certa forma, a estrutura e a distribuição das raízes do café conilon são semelhantes àquelas do café arábica (RENA, 1998; RENA; DaMATTA, 2002; RONCHI et al., 2015b). Entretanto, ao se avaliar o sistema radicular de uma lavoura de conilon, cultivada no espaçamento de 2,0 x 1,0 m, Partelli et al. (2014b) constataram que o comprimento e o volume de raízes por unidade de solo foram maiores na região do solo, sob a copa, voltada para a entrelinha (onde as adubações de solo eram feitas), em comparação aos valores medidos entre plantas na linha. De forma contrária, em café arábica, Ronchi et al. (2015b) mostraram que a 0,25 m do tronco e, sobretudo, entre plantas adjacentes na linha de plantio, para diferentes espaçamentos de cultivo, é a região do solo onde se concentra o sistema radicular do cafeeiro (terceira safra), provavelmente, em decorrência da presença do sistema de fertirrigação nessa posição. De qualquer forma, a distância efetiva do sistema radicular de C. canephora cv. Apoatã não ultrapassa 0,8 m do tronco, no sentido da entrelinha (BARRETO et al., 2006).

Mesmo diante do fato de que a irrigação permite a formação de mudas clonais com um sistema radicular mais vigoroso (Figura 3), é preciso considerar que a irrigação afeta o padrão de crescimento radicular, reduzindo a profundidade de penetração da raiz pseudopivotante e estimulando o desenvolvimento de raízes primárias e secundárias nas camadas mais superficiais do solo (RENA, 1998). Com efeito, em lavouras adultas de diferentes cultivares de café arábica, cultivadas sob fertirrigação no cerrado mineiro, a abundância de raízes por volume de solo é maior a 0,1 m que a 0,2 m ou 0,4 m de profundidade para vários arranjos de plantas na linha de cultivo (RONCHI et al., 2015b). Não obstante, esses mesmos autores verificaram que a redução no espaçamento, entre plantas, na linha promoveu aumento na massa de matéria seca, comprimento, volume e área superficial total de raízes por volume de solo, sem alterar o comprimento e a superfície específica de raízes e sem aprofundar o sistema radicular. Assim, os resultados obtidos em café arábica por Ronchi et al. (2015b) corroboram e sustentam os argumentos de Guarçoni M. (2011), de que o aumento na densidade de plantas em lavouras de café conilon não precisa necessariamente ser acompanhado de uma elevação proporcional na aplicação de fertilizantes por área. Isso porque a maior abundância ou distribuição quantitativa de raízes por volume de solo, em cafeeiros adensados, pode compensar um menor input de fertilizantes. Tomados em conjunto, esses resultados podem explicar, pelo menos em parte, as altas produtividades obtidas em lavouras de café conilon cultivadas em sistemas mais adensados.

Outro fator que pode afetar a qualidade do sistema radicular do café conilon e que, no passado, constituiu-se em grandes problemas à cafeicultura capixaba, é a formação de mudas a partir de estacas (clones) mantidas por longos períodos em tubetes. Nesse caso, verificam-se raízes mal-formadas e raquíticas (Figura 4). Essas mudas quando levadas ao campo, apresentam-se com raízes enoveladas, superficiais e deformadas (Figura 5). No longo prazo, observam-se redução da absorção de água e de nutrientes e morte de plantas, principalmente em anos de carga intensa (RENA, 1998).

O volume, a área superficial, o comprimento e a quantidade de matéria seca de raízes de café conilon podem variar conforme o clone utilizado. Nesse contexto, Pinheiro et al. (2005) verificaram que a produção de massa seca de raízes por planta de café conilon com dez meses de idade, cultivada sem restrição hídrica, em vasos de 120 L, foi de 0,176; 0,187; 0,351 e 0,268 kg para os clones 14, 46, 109A e 120, respectivamente. É importante ressaltar que maior quantidade de massa seca de raízes não está, necessariamente, associada a maiores profundidades do sistema radicular. Por exemplo, nesse trabalho de Pinheiro et al. (2005), a profundidade média foi de 0,75 m nos clones 14 e 120, e de aproximadamente 0,50 m nos clones 46 e 109A. Esses resultados foram confirmados posteriormente por Silva et al. (2010) para os clones 120 e 109A, também cultivados em vasos. Esse conhecimento sobre o sistema radicular é importante, pois numa situação de déficit hídrico, o retardamento da desidratação, associado à profundidade, e não à matéria seca per se do sistema radicular, pode garantir maior tolerância à seca a alguns materiais genéticos.

Em mudas clonais formadas em viveiro, Covre et al. (2013) constataram que todos os clones que compõem a cultivar de café conilon ‘Vitória Incaper 8142’ apresentaram sistemas radiculares semelhantes quando eles foram avaliados pelo diâmetro médio ponderado e pelo volume de raízes. Todavia, os clones V3, V8 e V10 destacaram-se dentre os demais quanto à área superficial de raízes. Constata-se, portanto, que variações morfológicas dos sistemas radiculares de diferentes clones de café conilon podem ou não ocorrer dependendo da variável utilizada para sua quantificação. Isso também ocorre para o café arábica, assim como marcante variação entre cultivares (RONCHI et al., 2015b). Bragança (2005) demonstrou em condições de campo que o sistema radicular do café conilon varia fortemente com sua idade. Nesse caso, a produção de biomassa seca do sistema radicular do cafeeiro conilon (clone 02) foi avaliada ao longo de 72 meses, após o transplantio, apresentando crescimento segundo o modelo logístico Y = 2,87/(1+26,13 e (-0,0835 t)), de forma que aos 12, 36 e 72 meses (t), o cafeeiro apresentou 0,27; 1,25 e 2,69 kg planta-1 de massa seca de raízes, respectivamente. Além desses resultados, Bragança (2005) verificou também que a taxa de crescimento absoluto do sistema radicular aumentou de 0,03 kg mês-1, no terceiro mês, até 0,18 kg mês-1 no 40º mês, diminuindo a seguir até alcançar 0,05 kg mês-1 no 72º mês, e que a taxa de crescimento relativo reduziu de 0,21 kg kg-1 mês-1, no terceiro e sexto mês, a 0,02 kg kg mês-1 no 72º mês, após o transplantio.

O sistema radicular do cafeeiro conilon também pode ser afetado pela carga pendente. Com efeito, em lavoura irrigada de café conilon (clone 02 – de maturação precoce), conduzida em livre crescimento, Bragança (2005) verificou que, num ano de superprodução (quarta safra – 200 sc. benef./ha, diferentemente dos anos anteriores, nos quais a produção foi regular e bem inferior), o sistema radicular do cafeeiro reduziu-se de 3,30 kg planta-1, em outubro, para 1,50 e 1,60 kg planta-1 em janeiro e abril, respectivamente. Nesse caso, o crescimento foi retomado durante o inverno, de forma que, em julho e outubro seguintes, aqueles valores atingiram 2,18 e 3,5 kg planta-1, respectivamente. Esses resultados reforçam as hipóteses de que, em anos de carga elevada, há o esgotamento da planta e o consequente comprometimento (morte) do sistema radicular, e de que há crescimento deste último durante o inverno, principalmente em lavoura irrigada. Em suma, em contraste ao observado na parte aérea, nos períodos secos e frios (inverno) ou secos e quentes (veranicos), acredita-se que o crescimento das raízes, principalmente daquelas de menor diâmetro e mais profundas, não cessa, uma vez que nas proximidades dessas raízes a temperatura do solo dificilmente atingirá níveis extremos (conquanto haja água disponível), se comparados à amplitude térmica a que a parte aérea está exposta. Portanto, a redução do crescimento da parte aérea parece preceder o crescimento do sistema radicular (RENA, 1998).

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Fonte

FERRÃO, Romário Gava; DA FONSECA, Aymbiré Francisco Almeida; FERRÃO, Maria Amélia Gava; DE MUNER, Lúcio Herzog. Café Conilon. 2ª ed. Vitória – ES: Incaper, 2017.

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