Propagação Comercial da Cana-de-açúcar e Fatores Que Afetam o Ciclo
Propagação Comercial da Cana-de-açúcar
O colmo é cortado em pedaços denominados toletes ou rebolos. O tolete contém dois a quatro nódios ou nós, denominado vulgarmente gemas ou olhadura. O seccionamento da muda em toletes com 3 gemas em média, visa quebrar a dominância apical exercida pela gema do ápice.
Resumidamente, o hormônio auxina, que é responsável pelo crescimento vegetativo, é produzido no ápice da planta e tem sua distribuição pela força da gravidade para o restante da planta. As gemas laterais também podem produzir, mas não o fazem, ficando em dormência, pois enquanto houver a produção no ápice, não haverá produção nas gemas laterais. Dá-se o nome a esse fenômeno de dominância apical.
A gema formará a parte aérea da nova planta e os primórdios radiculares darão origem às suas raízes. Dependendo da variedade, pode ocorrer o desenvolvimento simultâneo ou não da parte aérea e da subterrânea. Alguns autores relatam que a emergência da parte aérea antes do sistema radicular ocorre em condições de solo encharcado.
A Brotação dos Toletes
Após o plantio, ocorrendo condições ambientais favoráveis (principalmente de temperatura e umidade), iniciam-se atividades nos primórdios radiculares e no poro da gema, culminando com o desenvolvimento das raízes do tolete e com a emergência de um pequeno broto na superfície do solo, respectivamente.

Nessa fase do desenvolvimento inicial, a brotação é dependente das reservas nutricionais do tolete. A brotação é, pois, um processo que consome energia. A origem desta energia vem da degradação de substâncias de reserva do tolete. A planta utiliza-se de oxigênio para quebrar estes produtos (carboidratos, lipídeos e proteínas do tolete) e produzir a energia necessária, conforme a equação a seguir:
C6H12O6 + 6O2 à 6O2 + 12H2O + ENERGIA
Após 20 a 30 dias do plantio, observa-se a emergência dos brotos em campo. Nesse estádio as raízes dos toletes encontram-se bem desenvolvidas e aptas a absorver água e nutrientes do solo, enquanto o broto se apresenta com pequena espessura sobre o solo, adquirindo coloração verde (capacidade de realizar fotossíntese). Entretanto, tanto os brotos, como as raízes ainda dependem das reservas nutritivas armazenadas no tolete.
O broto recém emergido, agora denominado colmo primário, contém uma sucessão de nós e entrenós muito próximos entre si e continuará o seu crescimento em altura assumido pela gema apical. Simultaneamente, a partir da base do colmo primário, observa-se o desenvolvimento de novas raízes. As raízes do colmo primário juntamente com as raízes mais velhas e desenvolvidas do tolete, constituem o sistema primordial da futura touceira de cana-de-açúcar.
O Início do Perfilhamento
Depois de determinado estádio de desenvolvimento, as gemas localizadas na base do colmo primário se intumescem. Aproximadamente 20 a 30 dias após a brotação inicial do colmo primário, observam-se novos brotos emergidos. Como essas novas brotações (duas ou mais) originaram-se do broto ou colmo primário, denominam-se colmos secundários. Nesse estádio inicia-se o perfilhamento.

À medida que os colmos secundários se desenvolvem, novas raízes são formadas a partir de suas bases, e o sistema radicular da touceira vai aumentando.
Novamente, em determinado estádio de desenvolvimento, novas brotações surgem das gemas da base dos perfilhos secundários, dando origem aos perfilhos terciários. Esses perfilhos também contribuirão para o incremento do sistema radicular da touceira, pois novas raízes surgem dos primórdios radiculares localizados em suas bases.
Com o surgimento dos colmos terciários, a cana-de-açúcar não depende mais das substâncias de reserva do tolete. A touceira, em razão da quantidade de folhas existentes nos colmos secundários e primários, tem sua autossuficiência em alimento, através da fotossíntese.

Cabe destacar que a cultura da cana-de-açúcar possui a habilidade de utilizar o máximo de luz solar para a fotossíntese. Cada entrenó produz uma nova folha em cerca de dez dias, e uma folha mais velha morre, deixando um número constante de oito a nove folhas por colmo. A maior porção de luz incidente é interceptada pelas seis folhas localizadas no ápice.
O perfilhamento persiste com a brotação de gemas localizadas nos colmos anteriores originando sucessivos perfilhos, que podem chegar a 4, 5 ou mais perfilhos.
De 90 e 120 dias após o plantio, aproximadamente 100% do sistema radicular concentra-se nos primeiros 30 cm de solo. As raízes originárias do tolete não existem mais.
O Perfilhamento Intenso
A fase de perfilhamento intenso da touceira se dá quando é atingido o máximo da produção de perfilhos, chegando, em certas variedades, a produzir 25 ou mais colmos por touceira.
A partir do ponto de máximo perfilhamento, a competição entre os perfilhos pelos fatores de crescimento (luz, espaço, água e nutrientes) acentua-se, de maneira que se constatam a diminuição e paralisação do perfilhamento, além da morte dos perfilhos mais novos.
Nessa fase, o sistema radicular encontra-se bem desenvolvido, notando-se raízes cordão em plena formação e crescimento, desenvolvendo-se em direção às camadas mais profundas do solo, desde que este não apresente impedimentos físicos, químicos ou biológicos.
Maturação
A partir do final do perfilhamento, os colmos mais desenvolvidos continuam o seu crescimento em altura e espessura. Inicia-se um processo de acúmulo de sacarose nos entrenós da base dos colmos mais velhos, como resultado da produção excedente de alimento, a sacarose.
À medida que vão amadurecendo, os colmos que sobreviveram à forte competição da fase de perfilhamento, continuam o seu crescimento e desenvolvimento, acumulando cada vez mais sacarose em seus internódios. Ao atingir o seu tamanho final, constituem-se em colmos industrializáveis, passando a acumular mais intensamente a sacarose produzida pela fotossíntese.
A intensidade do acúmulo de sacarose é fortemente influenciada pelas condições ambientais desfavoráveis ao crescimento e desenvolvimento vegetativo (temperaturas mais baixas, períodos de seca moderados e carência de nitrogênio). Nessa fase da cultura, de 11 a 20 meses após o plantio (conforme época e variedade), observa-se plena maturação dos colmos.
As touceiras em idade de corte caracterizam-se por apresentarem colmos uniformes em tamanho, diâmetro e coloração, com 16 a 22 entrenós por colmo (conforme época de plantio e variedade). Cerca de 70% do sistema radicular, tipicamente fibroso, encontram-se nos primeiros 50 cm de solo. Nota-se a presença de raízes cordões bem desenvolvidos, que atingem profundidades acima de 1,5 m.

Durante um intervalo de tempo, a planta conserva o seu ponto máximo de maturação com valor quase inalterado. Esse intervalo é denominado de PUI (período útil de industrialização).
A Cana-soca ou Soqueiras
Após o corte (mecânico ou manual) da cana-planta, permanecem no solo as socas ou soqueiras de cana-de-açúcar. Os colmos industrializáveis devem ser cortados o mais próximo possível da superfície do solo, restando as suas bases, que permanecem também ligadas ao sistema radicular formado pela cana-planta.
Com o corte da parte aérea da cana-de-açúcar, há perda de boa parte do sistema radicular da antiga planta. Durante aproximadamente 90 dias após o corte, o sistema radicular ainda é responsável pela absorção de água e nutrientes que vão para as gemas da base da soqueira.
O corte da cana-de-açúcar possibilita a renovação da cultura, não só da parte aérea, mas também gradativamente do seu sistema radicular, principalmente influenciado pela umidade do solo e temperatura. O sistema radicular, apesar de mais volumoso e profundo do que na cana-planta, apresenta algo em torno de 60% das suas raízes a 30 cm de profundidade.
De 20 a 30 dias após o corte, observa-se intensa brotação das soqueiras. O ciclo da cana-soca dura aproximadamente 12 meses, e apresenta as seguintes fases: perfilhamento, acúmulo inicial de sacarose e maturação.
Fatores que Afetam o Ciclo da Cana-de-açúcar
Do preparo do solo à colheita, há uma série de fatores que podem afetar os estádios da cana-de-açúcar.
A brotação, enraizamento e emergência da cana-planta é uma característica genética. No entanto, na mesma variedade, a brotação se altera de acordo com a idade da muda, diferença de idade da gema, grau de umidade do tolete, concentração de açúcares (glicose, frutose e sacarose) e nutrientes minerais. Há variedades que apresentam baixa brotação a partir do tolete, mas mostram ótimos resultados na brotação da soca; o inverso também ocorre.
Para os fatores ambientais a temperatura e a umidade são variáveis críticas. Esta fase inicial exige temperaturas altas (30°C) e boa umidade para que o processo ocorra rapidamente. Excesso ou falta de água trarão problemas nesta fase do ciclo. Doenças ou pragas até mesmo plantas daninhas podem resultar em falhas no estabelecimento inicial da cultura. A textura e estrutura do solo estão diretamente relacionadas com a sua umidade e a aeração.
O manejo empregado pelo homem pode aumentar ou reduzir a brotação, o enraizamento e a emergência da cana-de-açúcar. Nesse sentido, toletes tratados termicamente e mudas bem nutridas produzidas em viveiros idôneos garantem parte da saúde da cultura.
O tempo entre o corte e o plantio da muda, bem como a profundidade do sulco de plantio e a quantidade de terra usada para cobrir o tolete, além da presença ou ausência de palha sobre o solo são outros fatores que devem ser manejados para otimizar o estabelecimento da cultura. Hoje, há no mercado produtos que visam estimular este estabelecimento inicial em campo.
Há grande relação da produtividade da cana com a brotação (dos toletes e das soqueiras) e o perfilhamento. Há variedades com alta e baixa capacidade de perfilhar. No entanto, há relação entre o perfilhamento, o vigor das raízes e a boa brotação de socas. A maneira como ocorre o perfilhamento também é característica genética.
A baixa luminosidade provocada no auge do perfilhamento e ou excesso de plantas daninhas de grande porte reduzem drasticamente a emissão de novos perfilhos. Os perfilhos que sobrevivem à fase de grande competição por fatores limitantes do meio terão seu crescimento acelerado, culminando com a formação de colmos industrializáveis. Para o crescimento vegetativo, a temperatura entre 25 e 30°C é considerada a mais favorável à cana-de-açúcar por vários autores.
Embora a cana sinta os efeitos do excesso e da deficiência hídrica, na fase de perfilhamento e crescimento dos colmos ela apresenta mais resistência a esses extremos do que na fase de brotação e emergência.
Outro fator importante é o vento. Dependendo da sua velocidade, da variedade, da idade do canavial e do espaçamento utilizado, as consequências do vento podem ser graves para o crescimento, para a maturação e colheita. Poderão ocorrer faixas cloróticas (faixas de cor amarelo-esverdeado) nas folhas (vento frio), o dilaceramento das lâminas foliares e o aumento da transpiração nas folhas.
A presença de pragas pode prejudicar o perfilhamento. Por outro lado, doenças como a ferrugem (fungo Puccinia melano), fatores relacionados com a planta, o ambiente e o manejo afetam o florescimento da cana-de-açúcar.
O produtor, em função do manejo adotado, pode impor condições favoráveis ou desfavoráveis ao perfilhamento, fazendo uso de adubação, controle de plantas daninhas, observando o melhor espaçamento e a melhor época de plantio e/ou colheita da cana-planta ou da soca.
Resumo
O colmo, em pedaços que contenham de 2 a 4 nós, são plantados. Inicia-se assim a brotação, nas condições favoráveis.
Depois de determinado estádio de desenvolvimento, dá-se início o perfilhamento.
Após o final do perfilhamento, os colmos já desenvolvidos continuam seu crescimento, acumulando cada vez mais sacarose, até o final do amadurecimento, tornando-se maduros e industrializáveis. Esse ciclo dura aproximadamente 12 meses.
Alguns fatores afetam o ciclo da cana-de-açúcar, como: a escolha das variedades, a umidade, a temperatura, as pragas, o manejo, a luminosidade, as plantas daninhas e o vento.
Se você tem interesse em saber mais sobre a Cultura da Cana-de-açúcar, te convido a conhecer a plataforma da AgricOnline. Ao fazer a sua assinatura, você tem acesso ilimitado a todos os cursos da plataforma. São cursos que vão desde produção vegetal, produção animal, mercado e carreira.
Ao término de cada curso, você tem direito ao certificado com a carga horária de cada curso, clique no link para conhecer.

Ou clique no link:
https://go.agriconline.com.br/pass/?sck=portal
Fonte
DA SILVA, João Paulo Nunes; DA SILVA, Maria Regina Nunes. Noções da Cultura da Cana-de-Açúcar. 1ª ed. Inhumas – GO: IFG, 2012.