Agricultura

Polinização em Cultivo Protegido

Daniel Vilar
Especialista
4 min de leitura
Polinização em Cultivo Protegido
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O cultivo protegido, que engloba estufas, casas de vegetação e telados, é uma prática agrícola que visa otimizar a produção e proteger as culturas de condições climáticas adversas e pragas. No entanto, ao isolar as plantas do ambiente externo, o cultivo protegido elimina ou reduz drasticamente a presença de agentes polinizadores naturais, como o vento e os insetos. Para culturas que dependem da polinização para a formação de frutos e sementes, como o tomateiro (Solanum lycopersicum), o melão e diversas hortaliças, a ausência de polinizadores se torna um fator limitante para a produtividade e qualidade.

A polinização em cultivo protegido é realizada por meio de métodos que podem ser classificados em manuais/mecânicos e biológicos.

Métodos de Polinização em Ambiente Protegido

A necessidade de garantir a fecundação das flores em ambientes confinados levou ao desenvolvimento e adoção de diferentes técnicas, conforme detalhado na Tabela 1.

MétodoDescriçãoVantagensDesvantagens
Manual/Mecânico (Vibração)Agitação manual das flores ou das hastes de tutoramento (e.g., com um bastão) ou uso de equipamentos que produzem fluxo de ar ou vibração (e.g., vibradores elétricos).Baixo custo inicial; controle total sobre o momento da polinização.Mão de obra intensiva; resultados inferiores em qualidade e produtividade em comparação com a polinização por abelhas.
Biológico (Uso de Polinizadores)Introdução de colônias de insetos polinizadores (abelhas ou abelhões) no ambiente protegido.Maior eficiência na polinização; aumento da qualidade (peso, massa seca, número de sementes) e produtividade dos frutos.Custo de aquisição e manejo das colônias; necessidade de adaptação das espécies ao ambiente confinado (temperatura, luz).

Para culturas como o tomateiro, que possuem anteras poricidas e exigem a vibração da flor para a liberação do pólen (polinização vibratória ou buzz pollination), a agitação manual ou mecânica é a solução mais comum na ausência de polinizadores.

O Papel da Pesquisa Agrícola Brasileira (Embrapa, Incaper, IAC)

A pesquisa agrícola brasileira, notadamente a Embrapa, tem se concentrado na busca por soluções biológicas que sejam economicamente vantajosas e ecologicamente adequadas ao contexto nacional.

Uso de Abelhas Nativas sem Ferrão (Meliponinae)

Enquanto em países da Europa e América do Norte o uso de abelhões (Bombus spp.) é uma prática consolidada para a polinização em estufas, a introdução dessas espécies exóticas no Brasil não é recomendada devido aos riscos ambientais. Diante disso, o foco da pesquisa se voltou para as abelhas nativas sem ferrão (Meliponinae), que apresentam potencial para o manejo em ambientes protegidos.

A Embrapa desenvolveu uma metodologia de seleção de espécies de abelhas nativas com características favoráveis para a polinização em cultivo protegido, considerando critérios como: características morfológicas e comportamentais, distribuição geográfica, histórico de domesticação e adaptação a ambientes confinados.

Resultados Promissores:

  • Tomateiro: Estudos realizados com o tomateiro em ambiente protegido demonstraram que a polinização pela abelha Mandaçaia (Melipona quadrifasciata) foi superior à polinização manual. As flores polinizadas por esta espécie produziram frutos mais pesados, com maior massa seca e número de sementes, além de maior diâmetro e altura.
  • Outras Espécies: Outras espécies de abelhas sem ferrão, como Melipona bicolor, Frieseomelitta varia, Nannotrigona testaceicornis e Partamona helleri, também foram objeto de estudo, indicando a diversidade de opções para diferentes culturas e condições.

Desafios e Adaptação

O sucesso da polinização biológica em cultivo protegido depende da superação de desafios relacionados ao ambiente confinado:

  1. Luminosidade: As abelhas são sensíveis à incidência de luz solar e aos raios ultravioleta para a orientação do voo. O tipo de filme plástico ou tela utilizado na estufa pode afetar o comportamento de forrageamento.
  2. Temperatura: A temperatura dentro das estufas é frequentemente mais alta do que no exterior, o que pode influenciar o comportamento das abelhas e a sobrevivência da colônia .
  3. Manejo: É necessário desenvolver tecnologias de manejo e criação in vitro para garantir a disponibilidade de um grande número de indivíduos para o serviço de polinização.

Em resumo, a polinização em cultivo protegido no Brasil está em transição, evoluindo dos métodos manuais e mecânicos para a adoção de soluções biológicas eficientes, com as abelhas nativas sem ferrão, especialmente as do gênero Melipona, emergindo como a alternativa mais promissora e sustentável, conforme as pesquisas da Embrapa.

Referências

Embrapa. Metodologia de Seleção de Abelhas sem Ferrão para Polinização em Cultivos Protegidos. Documentos 354, 2016. URL: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1064076/1/documento354.pdf

Koppert. Polinização em estufa com abelhas. URL: https://www.koppert.pt/polinizacao/polinizacao-por-abelhoes/polinizacao-de-culturas-em-estufa/

Hidrogood. Uso de agentes polinizadores na produção de tomates em hidroponia. URL: https://hidrogood.com.br/artigos/hidroponia/hidrogood-news-agentes-polinizadores-no-tomateiro-em-hidroponia/

Embrapa. Abelhas-sem-ferrão ajudam na polinização de hortaliças em estufas. Notícia, 2023. URL: https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/84526728/abelhas-sem-ferrao-ajudam-na-polinizacao-de-hortalicas-em-estufas.

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