Agricultura

Parâmetros de Qualidade da Cana-de-açúcar

Daniel Vilar
Especialista
6 min de leitura
Parâmetros de Qualidade da Cana-de-açúcar
Compartilhar 𝕏 f WA in

Qualidade da cana-de-açúcar

Antes, a qualidade da cana-de-açúcar era determinada exclusivamente pela POL (sacarose aparente).

Atualmente, há uma definição mais completa, que engloba as características físico-químicas e microbiológicas dessa matéria-prima, que podem afetar, significativamente, a recuperação do açúcar na fábrica e a qualidade do produto final.

Dois tipos de fatores afetam a qualidade da matéria-prima destinada à indústria:

• Fatores intrínsecos – relacionados à composição da cana (teores de sacarose, açúcares redutores, fibras, compostos fenólicos, amido, ácido aconítico e minerais), que são afetados de acordo com a variedade da cana, variações de clima (temperatura, umidade relativa do ar, chuva), solo e tratos culturais.

• Fatores extrínsecos – relacionados a materiais estranhos ao colmo (terra, pedra, restos de cultura, plantas invasoras) ou compostos produzidos por microrganismos devido à sua ação sobre os açúcares do colmo.

Para avaliar corretamente a qualidade da matéria-prima é preciso considerar dois aspectos – a riqueza da cana em açúcares e o potencial de recuperação dos açúcares da cana.  

A Figura 8.1 ilustra a coleta de amostras de cana para avaliação da sua qualidade.

Existe uma série de indicadores que permitem avaliar tanto a riqueza da cana como a qualidade dela para a recuperação dos açúcares.

Os principais fatores relacionados à qualidade da cana-de-açúcar são POL (sacarose aparente), pureza, ATR (açúcares redutores totais) na cana, teor de açúcares redutores, percentagem de fibra e tempo de queima e corte.

Seguem as definições desses indicadores:

POL – teor de sacarose aparente na cana. Para a indústria canavieira, quanto mais elevados os teores de sacarose, melhor.

Pureza – é determinada pela relação POL/Brix x 100. Quanto maior a pureza da cana, melhor a qualidade da matéria-prima para se recuperar açúcar. Todas as substâncias que apresentam atividade óptica podem interferir na POL, como açúcares redutores (glicose e frutose), polissacarídeos e algumas proteínas.

ATR – indicador que representa a quantidade total de açúcares da cana (sacarose, glicose e frutose). O ATR é determinado pela relação POL/0,95 mais o teor de açúcares redutores. A concentração de açúcares na cana varia, em geral, dentro da faixa de 13 a 17,5%. Entretanto, é importante lembrar que canas muito ricas e com baixa percentagem de fibras estão mais sujeitas a danos físicos e o ataque de pragas e microrganismos. Os estudos mostram que nas primeiras 14 horas de deterioração da cana, 93% das perdas de sacarose foram devidas à ação de microrganismos, 5,7% por reações enzimáticas e 1,3% por reações químicas, resultantes da acidez.

Açúcares redutores – é a quantidade de glicose e de frutose presentes na cana, que afetam diretamente sua pureza, já que refletem em menor eficiência na recuperação da sacarose pela fábrica.

Porcentagem da fibra da cana – reflete na eficiência da extração da moenda, ou seja, quanto mais alta a fibra da cana, menor será a eficiência de extração. Por outro lado, é necessário considerar que variedades de cana com baixos teores de fibra são mais suscetíveis a danos mecânicos ocasionados no corte e no transporte, o que favorece a contaminação e as perdas na indústria. Quando a cana está com a fibra baixa, ela também acama e quebra com o vento, o que a faz perder mais açúcar na água de lavagem.

Tempo de queima/corte – é o tempo entre a queima do canavial e a sua moagem na indústria (no caso da colheita manual), ou o tempo entre o corte mecanizado e a moagem. Quanto menor o tempo entre a queima/corte da cana e a moagem, menor será o efeito de atividades microbianas nos colmos e melhor será a qualidade da matéria-prima entregue à indústria. Além de afetar a eficiência dos processos de produção de açúcar e álcool, o tempo de queima/corte também afeta a qualidade dos produtos finais e o desempenho dos processos.

Outros fatores que afetam a qualidade da matéria-prima são:

• temperatura ambiente;

• frequência e quantidade de chuvas;

• umidade relativa do ar;

• quantidade de terra na cana;

• contaminação da cana por bactérias, fungos e leveduras;

• teor de álcool no caldo da cana;

• acidez do caldo, ocasionado por microrganismos;

• concentração de dextrana, composto formado a partir da hidrólise da sacarose por bactérias e associada, portanto, à deterioração da cana;

• concentração de amido na cana;

• pragas e doenças;

• índice de Honig-Bogstra, que é um indicador da performance da decantação do caldo;

• quantidade de palhiço;

• quantidade de ácido aconítico no caldo.

Importância da qualidade da cana para a eficiência industrial

Nos últimos anos, pesquisas sobre a qualidade da matéria-prima e trabalhos em parceria com usinas e destilarias possibilitaram a descoberta de novos indicadores.

A partir das análises de correlação e regressão desses indicadores, tem sido possível dimensionar o impacto da qualidade da matéria-prima sobre o rendimento industrial, sobre as perdas, insumos e qualidade do açúcar produzido.

Baseadas em números, as usinas podem fixar metas e tomar decisões em busca da melhoria dos resultados, tanto para a área agrícola, como para a industrial.

Sem indicadores e números que orientem ambas, não é possível esperar ganhos reais em desempenho, rendimento e qualidade.

Se o objetivo é obter desempenhos elevados e produtos de qualidade, essas duas áreas precisam interagir, diuturnamente.

Resumo

A qualidade da cana-de-açúcar engloba as características físico-químicas e microbiológicas, podendo afetar a matéria-prima, e, por consequência, a recuperação do açúcar na fábrica, afetando assim a qualidade do produto final.

Dois tipos de fatores afetam a qualidade da cana-de-açúcar: os que são relacionados à composição da cana e os que são relacionados a materiais estranhos ao colmo.

Para avaliar corretamente a qualidade da matéria-prima é preciso considerar dois aspectos: a riqueza da cana em açúcares e o potencial de recuperação dos açúcares da cana.

A partir das análises de correlação e regressão desses indicadores, tem sido possível dimensionar o impacto da qualidade da matéria-prima sobre o rendimento industrial, importantes para a busca constante da melhor eficiência da indústria.

FAÇA A SUA ASSINATURA

Ou clique no link:

https://go.agriconline.com.br/pass/?sck=portal

Fonte

DA SILVA, João Paulo Nunes; DA SILVA, Maria Regina Nunes. Noções da Cultura da Cana-de-Açúcar. 1ª ed. Inhumas – GO: IFG, 2012.

Mais de Agricultura

Ver todas →

Boletim Agriconline

O agronegócio na sua caixa de entrada, todo dia às 6h.

Cotações, clima, mercado e as principais notícias do campo — em 5 minutos de leitura.

Enviaremos um e-mail pra você confirmar. Sem spam — descadastre quando quiser.