Adubação Foliar: Solubilidade, Absorção e Eficiência
A adubação via foliar é especialmente útil para micronutrientes, pois permite correção rápida de deficiências nutricionais. Os fertilizantes foliares podem ser divididos em:
- Fontes solúveis: sais metálicos (p.ex. sulfatos, cloretos, nitratos) e complexos quelatados (EDTA, aminoácidos etc.) – fornecem nutrientes prontamente disponíveis para absorção pela folha.
- Fontes pouco solúveis: óxidos e carbonatos – liberam nutrientes mais lentamente, pois dependem da dissolução no filme aquoso da superfície foliar.
- Complexos orgânicos (lignosulfonatos): derivados da indústria da celulose, com solubilidade variável e alto risco de incompatibilidades em calda (devido a ligações químicas instáveis).
- Quelatos sintéticos: moléculas cíclicas (p.ex. EDTA) que neutralizam a carga do nutriente, facilitando penetração e translocação foliares.
Fontes insolúveis (óxidos/carbonatos) requerem pH ácido para se dissolver.
Por isso, recomenda-se preparar a calda pouco antes da aplicação e evitar misturar produtos à base de óxidos/carbonatos em meio ácido, sob risco de solubilizar o nutriente e formar precipitados (reduzindo o efeito residual).
Veja também: Adubação Foliar: Nutrientes, Misturas e Análise
Solubilidade x absorção foliar
A solubilidade da fonte é crítica para a absorção via folha: o nutriente só penetra quando está em solução líquida. Em estudos comparativos, fontes solúveis registraram absorção muito superior às pouco solúveis.
Por exemplo, um experimento aplicou gotas de sulfato de zinco (ZnSO₄, altamente solúvel) e óxido de zinco (ZnO, pouco solúvel) em folhas de soja. Nos primeiros dias, o Zn proveniente de ZnSO₄ espalhou-se pela folha, enquanto o Zn de ZnO permaneceu restrito ao ponto de aplicação.

A quantificação revelou que a folha tratada com ZnSO₄ acumulou dezenas de vezes mais Zn do que a tratada com ZnO. Em 6–24 horas, a absorção foliar de Zn do sulfato foi até 92 vezes maior do que a do óxido nanoparticulado.. Este gráfico ilustra o dado:

Além da solubilidade, outros fatores afetam a absorção foliar do nutriente:
- Tamanho de partícula: a cutícula e estômatos são porosos apenas em escala nanométrica (∼2,4 nm via poros aquosos; ∼43 nm via estômatos).Fertilizantes em suspensão concentrada (SC) de óxidos/carbonatos costumam ter partículas >100 nm, logo muito acima do limite de absorção foliar. Estudos mostraram que essas partículas grandes têm absorção praticamente nula nas folhas.
- Carga elétrica: folhas carregam carga negativa, portanto formas neutras ou ânions penetram mais fácil que cátions positivos. Quelatos (EDTA) neutralizam a carga do micronutriente, aumentando penetração e translocação em comparação a sais livres.
- pH e adjuvantes: o pH da solução deposita pode favorecer ou não a dissociação do nutriente. Fórmulas foliares modernas incorporam surfactantes e umectantes que diminuem o ponto de deliquescência, retardando a secagem da gota na folha. Isso prolonga a janela de absorção; por exemplo, tensioativos usados com Mn-EDTA e Zn-EDTA melhoraram muito a absorção em condições de alta umidade.
Ponto de deliquescência e eflorescência
As propriedades higroscópicas dos sais determinam sua persistência na folha. O ponto de deliquescência (PD) é a umidade relativa (UR) acima da qual o sal absorve vapor d’água e se dissolve, ficando disponível para absorção foliar.
Quanto menor o PD, mais tempo o sal permanece em solução sob alta UR. Em contrapartida, o ponto de eflorescência (PEF) é a UR abaixo da qual o sal hidratado perde água e recristaliza-se na forma sólida.
Cada sal tem PD e PEF próprios – por exemplo, o sulfato de amônio tem PD ≈75% e PEF ≈35% de UR.
Se a UR do ar ficar abaixo de 35%, o sal se desprende de água intensamente e vira pó, interrompendo a absorção.
Esses pontos influenciam a eficiência foliar: em clima úmido (UR alta), sal com PD alto se mantém em solução por menos tempo e absorve pouco. Já em clima seco (UR baixa), solução evapora rápido e o sal pode cristalizar (eflorescência) antes de ser absorvido.. Por isso, formulações foliares frequentemente incluem aditivos que reduzem o PD e aumentam a umidade do filme aquoso sobre a folhar.

Produtos em suspensão concentrada (óxidos e carbonatos)
No Brasil, a Instrução Normativa nº 39/2018 permite o registro de fertilizantes foliares na forma de suspensão concentrada (SC) contendo nutrientes insolúveis (óxidos, carbonatos).
Esses produtos apresentam altíssima concentração do nutriente e alta densidade; porém, como visto, suas partículas precisam ser micronizadas. Algumas empresas investem em “microtecnologia” para obter micropartículas de óxidos/carbonatos, prometendo liberação gradual sem fitotoxicidade.
Na prática, mesmo micronizadas, as partículas médias de SC ainda ficam em torno de 100–200 nm, ou maiores, o que limita fortemente sua penetração cuticular. Ou seja, embora legíveis, fertilizantes SC de óxidos e carbonatos tendem a ter absorção foliar muito baixa devido ao grande tamanho das partículas.
Compatibilidade e recomendações práticas
Para formular caldas eficientes, deve-se atentar à compatibilidade de ingredientes. Um estudo de Boas Práticas (IPNI) mostra que fontes de manganês baseadas em óxido ou carbonato (p.ex. MnO, MnCO₃) são compatíveis em tanque, enquanto fontes solúveis como sulfato e cloreto não são.
Em misturas, sulfato de Mn+cloreto de Mn com glifosato provocaram precipitação e reduziram a absorção do herbicida de ~70% para ~25%.
Em geral, fertilizantes foliares formulados com óxidos/carbonatos não causam obstrução na calda, enquanto sais solúveis podem reagir e formar grumos.
Outras recomendações:
- Preparação da calda: misturar o fertilizante foliar somente na hora do uso. Não deixe solução preparada com antecedência, para evitar degradação do ativo.
- Ordem de mistura: adicione primeiro ingredientes secos ou concentrados, depois adjuvantes (tensoativos/hidratantes) e, por fim, produtos ácidos. Nunca misture óxidos/carbonatos diretamente com ácido, para não precipitarem.
- Temperatura da água: águas muito frias reduzem a solubilidade; se possível, usar água em temperatura ambiente. Adjuvantes também ajudam na distribuição e retenção da calda sobre as folhas.
Fontes:
Princípios científicos da nutrição foliar
Estudos de absorção de micronutrientes foliares e
dados de formulações comerciais foram utilizados para esta compilação.
Aspectos fisiológicos segundo Taiz & Zeiger
Segundo Taiz & Zeiger (1994), os micronutrientes participam de processos metabólicos cruciais:
- Zinco (Zn²⁺): co-fator em diversas enzimas como RNA/DNA‑polimerases, dehidrogenases, isomerases e envolvido na biossíntese de clorofila e Trp (precursor do AIA – auxina).
- Ferro (Fe): essencial na síntese e manutenção da clorofila, componente de ferredoxinas, envolvido na redução de nitrato e sulfato e nas reações fotossintéticas e respiratórias. Atua como transportador de elétrons nos sistemas enzimáticos das plantas.
- Manganês (Mn): envolvido no sistema de evolução do oxigênio da fotossíntese, no funcionamento de membranas e na ativação de enzimas chave no metabolismo energético e nitrogenado da planta.
- Cobre (Cu): envolvido na lignificação celular, na fotossíntese, na respiração e na resistência a doenças.
Absorção foliar (Taiz & Zeiger):
- As folhas absorvem nutrientes por poros minúsculos na cutícula próximos a estômatos e tricomas, com carga negativa, favorecendo cátions pequenos ou moléculas neutras como a ureia, mas dificultando sais como nitrato/amônio devido à carga e tamanho celular limitado (< 1 nm).
- A taxa de absorção foliar é geralmente muito baixa, varia conforme espécie, fase de desenvolvimento e espessura da cutícula; folhas mais velhas absorvem menos devido ao vazamento celular e menor mobilidade interna dos nutrientes em folhas senescentes.
- Alta concentração externa é necessária para algum transporte efetivo, e a mobilidade dentro da planta é limitada: os nutrientes foliares tendem a permanecer próximos ao ponto de aplicação, viajam pouco para outras partes da planta, exceto meristemas fortes (frutos ou novos brotos).
- A aplicação foliar serve mais como suplemento de rápida correção, não substitui a nutrição radicular como fonte primária.
Considerações práticas e recomendações
Aplicação foliar ideal: fase vegetativa para micronutrientes, com uso de surfactantes e alta concentração eficiente (em torno de 0,1–0,2 % de micronutriente).
Restrições de mobilidade interna: mesmo com NutriSync, mobilidade depende da demanda da planta e fase fenológica—tem mais impacto em brotações novas ou ponto de colheita.
Adequação ao tipo de planta e clima: folhas jovens e condições de alta umidade favorecem melhor absorção; cuticulas mais grossas limitam grau de penetração.
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