Efeitos da Adubação Verde nos Agroecosistemas
Disponibilidade de nutrientes para as culturas
O nitrogênio é o nutriente mais estudado em relação aos efeitos da adubação verde nas culturas vegetais.
O cultivo de leguminosas herbáceas torna possível a disponibilização de N aos agroecossistemas pelo processo de fixação biológica, o que reduz ou elimina a necessidade de aplicação de fertilizantes minerais nitrogenados.
Elevadas quantidades de N são acumuladas na parte aérea de leguminosas, o que se reflete em maiores teores desse nutriente no solo, quando os resíduos vegetais são incorporados ou deixados em cobertura na superfície do terreno.
Outro efeito benéfico trazido por essa prática relaciona-se à reciclagem de nutrientes. Parte dos nutrientes acumulados nas leguminosas é provavelmente absorvida pelas raízes desses adubos verdes em camadas profundas do solo, sofrendo posterior liberação com a decomposição dos resíduos após o corte.
Esse processo de reciclagem de nutrientes é favorecido pela escolha de leguminosas com maior potencial de penetração de suas raízes no solo.
Além do fornecimento de nitrogênio fixado biologicamente e da reciclagem de nutrientes, a adição dos resíduos vegetais de leguminosas herbáceas e outros adubos verdes ao solo afeta a disponibilidade de nutrientes por outros mecanismos.
O incremento do teor de matéria orgânica do solo pode reduzir a retenção de P (fósforo) na superfície de alguns minerais de argila, aumentando a disponibilidade desse nutriente para as plantas.
A decomposição dos resíduos vegetais de adubos verdes permite ainda a liberação de compostos orgânicos que afetam a mobilidade de nutrientes ao longo do perfil do solo.
Verificou-se, por exemplo, que os resíduos de aveia preta (Avena strigosa), manejados em solos que receberam calagem, transportam Ca (cálcio) para a subsuperfície, ao passo que os resíduos de nabo forrageiro (Raphanus sativus) associam a capacidade de mobilização de Ca com a de imobilização do Al (alumínio).
A utilização de espécies vegetais com essas características mostra-se particularmente interessante em sistemas de plantio direto, que não permitem realizar a incorporação do calcário aplicado na superfície do terreno.

Cobertura do solo
A erosão constitui um dos principais problemas da agricultura tropical, provocando decréscimos na produtividade vegetal.
A exposição do solo às chuvas pode causar o encrostamento de sua camada superficial, o que aumenta a velocidade de escoamento da enxurrada e as perdas de solo e água.
A erosão contribui ainda para a destruição do potencial biológico das terras, num processo conhecido como desertificação.
Por meio da manutenção de cobertura do solo, é possível amenizar o escoamento da água das chuvas na superfície do terreno, reduzindo perdas de solo e água.
Dentre os diversos tipos de cobertura do solo que auxiliam no controle da erosão, merecem destaque os adubos verdes.
O controle da erosão realizado pelos adubos verdes encontra-se relacionado ao fato de que essa prática agrícola eleva os teores de matéria orgânica do solo, melhorando suas propriedades físicas.
Dentre as propriedades físicas do solo, afetadas pelo aumento dos teores de matéria orgânica, destacam-se: estabilidade de agregados, densidade do solo e infiltração de água.
Os constituintes da matéria orgânica influenciam a agregação do solo, atuando como agentes ligantes, juntamente com os minerais de argila.
Esse efeito permite reduzir a densidade do solo, mediante a decomposição dos resíduos, que libera compostos orgânicos capazes de afetar favoravelmente a porosidade do solo.
Em virtude do aumento de porosidade e agregação do solo, a tendência de uma área protegida por cobertura vegetal é possuir maior infiltração de água.
Organismos edáficos benéficos
A adubação verde é capaz de causar impactos positivos sobre os diversos componentes da fauna do solo, alterando a densidade das populações e a diversidade de espécies.
Além do fato de os resíduos vegetais servirem como fonte de energia e nutrientes, a manutenção da cobertura vegetal cria ambientes que favorecem os organismos do solo.
Isso é particularmente importante para a agricultura, pois esses organismos aumentam a reciclagem de nutrientes, o que permite melhor aproveitamento dos fertilizantes aplicados ao solo.
Dentre os organismos do solo favorecidos pela adubação verde, destacam-se os rizóbios. Esses microrganismos associam-se às raízes de leguminosas num processo simbiótico, promovendo a fixação biológica de nitrogênio atmosférico.
O nitrogênio fixado é transferido para as leguminosas, ao passo que os carboidratos produzidos por essas plantas são fornecidos às bactérias e servem como fonte de energia.
O cultivo com leguminosas é uma das formas mais eficientes de acrescentar esse nutriente aos agroecossistemas.
A quantidade de nitrogênio fixado varia de acordo com a espécie vegetal utilizada como adubo verde e com as condições edafoclimáticas, podendo chegar a mais de 100 kg de N por hectare (Tabela 1).

A inoculação das sementes de leguminosas favorece a fixação de nitrogênio, ao passo que o uso de fertilizantes minerais nitrogenados ou de alguns agrotóxicos junto com as sementes inoculadas inibe esse processo.
Além das bactérias fixadoras de nitrogênio, o cultivo com leguminosas herbáceas afeta a população de fungos micorrízicos arbusculares (MA) no solo.
Esses fungos são capazes de formar simbiose com a maioria das espécies cultivadas, trazendo como vantagens o aumento da absorção de água e nutrientes, a agregação de partículas do solo e a resistência a determinados patógenos.
Uma das principais limitações à aplicação de fungos micorrízicos arbusculares em agroecossistemas está na dificuldade de obtenção de grandes quantidades de inoculante desses microrganismos.
Assim, torna-se importante a adoção de práticas de manejo do solo capazes de favorecer a população de fungos MA nativos.
O précultivo com leguminosas como crotalária (Crotalaria juncea), feijão-de-porco (Canavalia ensiformis) e mucuna-preta (Mucuna aterrima) permite o aumento do número de propágulos infectivos dos fungos MA nativos do solo.

Fitopatógenos
As leguminosas herbáceas empregadas como adubos verdes têm apresentado efeitos positivos no controle de doenças radiculares.
Entre os fitopatógenos que podem ser controlados pelos adubos verdes, merecem destaque os nematoides. Pesquisas comprovaram a eficiência de leguminosas do gênero Crotalaria no controle de Meloidogyne spp.
De acordo com tais resultados, o consórcio entre quiabo e Crotalaria juncea mostra-se capaz de reduzir a incidência de nematoides, em comparação com o monocultivo.
No entanto, deve-se estar atento para o fato de que outras leguminosas, como o labe-labe (Lablab purpureum), podem funcionar como multiplicadoras das populações de nematoides do solo.
Plantas invasoras
A agricultura influencia fortemente a população de ervas invasoras, sendo que, de maneira geral, a realização de monoculturas tende a favorecer a ocorrência dessas plantas.
Esse processo pode ocasionar reduções na produtividade agrícola, em decorrência da competição entre plantas invasoras e culturas de interesse econômico.
Embora o método mais utilizado atualmente para o controle de plantas invasoras seja a aplicação de produtos químicos sintéticos (herbicidas), a adubação verde tem-se revelado uma alternativa viável ao uso desses produtos, sendo capaz de reduzir os riscos de contaminação ambiental.
Os efeitos de alguns adubos verdes sobre as plantas invasoras estão associados à liberação de substâncias alelopáticas durante a decomposição dos resíduos vegetais ou à maior eficiência na competição com invasoras por recursos como água, luz e nutrientes.
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Fonte
ESPINDOLA, José Antonio Azevedo; GUERRA, José Guilherme Marinho; DE-POLLI, Helvécio; DE ALMEIDA, Dejair Lopes; ABBOUD, Antônio Carlos de Souza. Efeitos da Adubação Verde nos Agroecosistemas. 1ª ed. Brasília – DF: Embrapa, 2005.