Agricultura

Doenças no Alface Causadas por Vírus

Daniel Vilar
Especialista
26 min de leitura
Doenças no Alface Causadas por Vírus
Compartilhar 𝕏 f WA in

Introdução

Dentre os fitopatógenos descritos em alface, os vírus merecem destaque, sendo já relatadas, em diferentes regiões produtoras do mundo, as seguintes espécies: Alfalfa mosaic virus (AMV, Alfamovirus); Arabis mosaic vírus (ArMV, Comovirus); Beet western yellows (BWYV, Luteovirus); Beet yellow stunt virus (BYSV, Closterovirus); Bidens mottle virus (BiMoV, Potyvirus); Bidens mosaic virus (BiMV, Potyvirus); Broad bean wilt virus (BBWV, Fabavirus); Cucumber mosaic virus (CMV, Cucumovirus); Dandelion yellow mosaic virus (DYMV, Sequivirus); Lettuce big-vein associated virus (LBVaV, Varicosavirus); Mirafiori lettuce big-vein virus (MLBVV, Ophiovirus); Lettuce chlorosis virus (LCCV, Closterovirus); Lettuce infectious yellows vírus (LIYV, Closterovirus); Lettuce mosaic virus (LMV, Potyvirus); Lettuce mottle virus (LeMoV, um possível Sequivirus); Lettuce necrotic yellow vírus (LNYV, Cytorhabdovirus); Lettuce speckles mottle (LSMV, Umbravirus); Sonchus yellow net virus (SYNV, Nucleorhabdovirus); Sowthistle yellow vein virus (SYVV, Nucleorhabdovirus); Tobacco rattle virus (TRV, Tobravirus); Tobacco ringspot virus (TRSV, Nepovirus); Tobacco streak virus (TSV, Ilarvirus); Tomato spotted wilt virus (TSWV, Tospovirus); Tomato chlorotic spot virus (TCSV, Tospovirus) e Turnip mosaic virus (TuMV, Potyvirus).

No estado de São Paulo, por ser o maior produtor nacional e, consequentemente, possuir extensas áreas de produção intensiva de alface, são recorrentes os relatos de epidemias de viroses. Os relatos de elevados índices de viroses no campo são influenciados pelas oscilações das condições climáticas, que interferem diretamente sobre os vetores específicos de cada espécie de vírus. Nos últimos anos, principalmente no período da primavera, observa-se uma predominância da ocorrência do LMV sobre as demais espécies de vírus. Porém, infecções mistas de LMV com outras espécies como o LeMoV, BiMV ou TCSV também são recorrentes. No inverno, os relatos de infecções simples ou mistas de LBVaV e MLBVV são comuns, principalmente nas regiões em que as temperaturas médias diárias são mais baixas.

Neste artigo serão abordadas as principais espécies de vírus que infectam a alface no Brasil, bem como a sua classificação, descrição dos principais sintomas e, sobretudo, as interações vírus-vetor-hospedeiro e ambiente e sua implicação na adoção de estratégias de manejo e controle.

Principais doenças virais

MOSAICO DA ALFACE- Lettuce mosaic virus (LMV)

No Brasil, a virose causada pela espécie Lettuce mosaic virus – LMV (família Potyviridae, gênero Potyvirus) é a principal responsável pela indução do sintoma de mosaico e deformação foliar em alface (Fig. 1), podendo causar perdas significativas da produção, caso não sejam adotadas medidas adequadas para a sua contenção. A partícula do LMV apresenta morfologia alongada flexuosa com cerca de 750 nm x 13 nm, e genoma constituído por uma única molécula de RNA fita simples, que contém as informações necessárias para a síntese das proteínas virais, replicação (multiplicação) e montagem das partículas virais nas células infectadas. As proteínas sintetizadas pelo vírus, juntamente com proteínas da planta hospedeira, também serão responsáveis pelo seu movimento célula a célula (transporte do vírus a curtas distâncias), e movimento sistêmico via vasos condutores (floema), que faz com que o vírus circule e atinja todos os tecidos da planta hospedeira. Além disso, as interações do vírus com a planta hospedeira, associadas aos fatores ambientais, serão determinantes na indução e severidade dos sintomas , na inibição da resposta de defesa da planta hospedeira, na transmissão via semente e na transmissão por afídeos vetores (pulgões).

DISTRIBUIÇÃO

O LMV, em alface, foi descrito pela primeira vez na Florida (EUA), em 1921. No Brasil, o seu primeiro relato data de 1945. Apresenta, atualmente, distribuição mundial, sendo relatado na Europa (Alemanha, Áustria, Dinamarca, França, Holanda, Hungria, Inglaterra, Itália, Portugal e Suíça), Américas (Argentina, Brasil, Chile, EUA, México e Uruguai), Índias Ocidentais (Bermudas), África (Gana, Serra Leoa, Tanzânia e Zimbabwe), Ásia (China, Japão, Síria) e Oceania (Austrália, Nova Zelândia e Tasmânia).

DISSEMINAÇÃO E TRANSMISSÃO

O LMV ocorre em praticamente todas as áreas produtoras de alface do mundo, devido principalmente à sua capacidade de infectar sementes. O intercâmbio internacional de germoplasma de forma não regulamentada ou a não interceptação do LMV, pelos sistemas de vigilância fitossanitária em carregamentos de sementes importadas, propiciam a sua disseminação. Consequentemente, a introdução de mudas de alface provenientes de sementes infectadas pode viabilizar a introdução do LMV no campo, sendo, em seguida, eficientemente transmitido por afídeos (Aphidoidae: Aphididae). É importante lembrar que a transmissão do LMV, por afídeos, é realizada de maneira não circulativa, não persistente, durante as picadas de prova, momento em que os afídeos, no início do processo de alimentação, fazem o reconhecimento da planta hospedeira. As partículas virais fixam-se na ponta do estilete dos afídeos e não circulam no corpo do inseto. Esta característica da alimentação dos afídeos propiciará que tanto o período de aquisição e subsequente inoculação da partícula viral, bem como a perda da eficiência de transmissão do vírus, ocorram em curtos períodos de tempo, que podem variar de segundos a minutos. Biologicamente não há a necessidade de que o afídeo virulífero colonize a planta de alface para que ocorra a transmissão. O LMV pode ser transmitido por inúmeras espécies de afídeos, sendo já relatadas como vetores: Acyrthosiphon pelargonii, A. pisum, A. scariolo, Aphis fafragulae, A. gossypii, A. sambuci, Aulacorthum barri, A. pelargonii, A. scariolae, A. solani, Brachyacaudus tragopogonis, Ceroshipha gossypii, Dactynotus sonchi, Dysaulacorthum pseudosolanii, Hyperomyzus lactucae, Macrosiphum gei, M. euphorbiae, M. solanifolli, Myzus hiracii, M. persicae,Pemphigus bursarius, Uroleucon ambrosiae e U. sonchi. Muitas vezes, estas espécies somente visitam a alface e realizam a transmissão do LMV durante as picadas de prova. Neste caso, os afídeos são considerados vetores do LMV e não se caracterizam como pragas, pois não causam danos diretos à cultura.

EPIDEMIOLOGIA

A disseminação generalizada, favorecida pela capacidade de infectar sementes, e a eficiente dispersão no campo por afídeos vetores confirmam a complexidade da epidemiologia do LMV. Assim, alguns fatores que favorecem a frequência e distribuição do LMV em áreas cultivadas devem ser considerados. Quanto à transmissão via sementes, deve-se considerar que, atualmente, as duas fontes de resistência utilizadas para o LMV são provenientes de dois genes recessivos denominados mol1 e mol2. Estes genes estão presentes na maioria das variedades comerciais de alface produzidas no Brasil, sendo mol1 originário da cultivar ‘Galega de Invierno’ e mol2 de um acesso selvagem de L. sativa. No entanto, o LMV possui características biológicas e moleculares divergentes que permitem a sua separação em subgrupos denominados LMV-Common e LMV-Most. Os isolados de LMV-Common não são capazes de quebrar a resistência conferida pelos genes mol1 e mol2, sendo transmitidos em baixa porcentagem a partir de sementes, além de induzirem sintomas menos severos de mosaico em variedades de alface que não contêm genes de resistência. Os isolados do subgrupo LMV-Most contornam a resistência dos genes mol1 e mol2, são transmitidos em alta porcentagem a partir de sementes e induzem sintomas de mosaico severo e necrose das folhas. Este fator está intimamente relacionado com a dispersão do LMV, pois, caso as mudas de alface introduzidas no campo sejam provenientes de um lote de sementes infectadas por um isolado LMV-Most, a pressão de inoculo será maior e, consequentemente, a transmissão por afídeos será mais efetiva acarretando prejuízos à produção. Esta forma de dispersão “de dentro para fora” pode ser evitada com a utilização de sementes com certificação fitossanitária (livres de vírus). Porém, os dois subgrupos de LMV também podem ser introduzidos nos cultivos de alface por afídeos vetores. Neste caso, a dispersão é denominada “de fora para dentro”, tendo como possíveis fontes de inoculo primário: (a) áreas vizinhas com plantios de alface cujas variedades não possuam genes de resistência ou estejam infectadas por um isolado do LMV-Most; e/ou (b) plantas invasoras (vegetação espontânea) que atuam como reservatórios naturais do LMV. Estas observações epidemiológicas permitirão o entendimento da doença e fornecerão subsídios para a adoção de práticas adequadas de manejo da cultura e controle da doença.

OUTROS Potyvirus CAUSADORES DE MOSAICO EM ALFACE

Além do LMV, outros potyvírus podem infectar a alface como o BiMoV, BiMV e TuMV. Destes, somente o BiMV foi relatado no Brasil. O TuMV é um vírus importante em áreas produtoras de alface em regiões de clima temperado situadas na Ásia, Europa e América do Norte. Porém, é importante destacar que, no Brasil, este vírus é muito comum em Brassicaceae (couve, couve-flor, brócolis, couve-chinesa, etc.).

O BiMV, espécie tentativa de Potyvirus, foi relatado somente no Brasil causando sintoma de mosaico em alface, sendo a sua primeira descrição realizada em plantas invasoras de Bidens pilosa (picão-preto). Devido à sua baixa ocorrência, com um único surto relatado em 2004, na região centro-sul do estado de São Paulo, esta virose é considerada de importância secundária, sendo muitas vezes confundida com o LMV.

As seguintes características do BiMV devem ser consideradas:

  • Por ser uma espécie de potyvírus, apresenta a maioria das propriedades biológicas e moleculares similares ao descrito para o LMV, porém difere em sua sequência de nucleotídeos, que pode ter influência nas interações vírus-planta hospedeira e vírus-vetor;
  • Não é transmitido por sementes;
  • Até o momento, não há genes específicos de resistência descritos em alface. Todas as cultivares de alface já avaliadas experimentalmente com isolados do BiMV comportaram-se como suscetíveis, com exceção da cultivar ‘Gizele’ que possui uma relativa tolerância;
  • A transmissão no campo é realizada de modo não persistente pelas seguintes espécies de afídeos: M. persicae, Aphis coreopsidis e Dactynotus sp.

COMPLEXO DO VIRA-CABEÇA- Tospovirus

Pertencente à família Bunyaviridae, os membros do gênero Tospovirus apresentam partículas arredondadas, com diâmetro entre 70 e 100 nm, envoltas por uma membrana lipídica (oriunda da célula hospedeira) constituída por projeções de glicoproteínas (de origem viral). Seu genoma é constituído por três segmentos de RNA fita simples responsáveis por codificar as proteínas virais, associadas com as funções de replicação do genoma viral, envoltório das partículas (formação dos nucleocapsídeos) movimento na planta hospedeira, transmissão pelos insetos (tripés) vetores, indução de sintomas e contra-ataque aos sistemas de defesa da planta hospedeira. Em alface, os sintomas são evidentes nas folhas jovens centrais e internas que se apresentam atrofiadas e com mau desenvolvimento (nanismo). São observadas manchas e anéis cloróticos e necróticos nas folhas, que evoluem para necrose severa generalizada, que propiciará infecções secundárias por bactérias, levando, muitas vezes, à morte da planta (Fig. 2). Porém, a severidade dos sintomas irá variar de acordo com a idade da planta e o período em que ocorreu a infecção, uma vez que plantas jovens em condições de temperaturas elevadas são mais propensas a desenvolver sintomas mais drásticos. A espécie ou isolado de Tospovirus envolvido na infecção também pode estar relacionado à severidade de sintomas.

DISTRIBUIÇÃO

Os tospovírus encontram-se disseminados tanto em regiões tropicais e subtropicais como temperadas, ocasionando danos e prejuízos a diversas culturas de importância econômica, principalmente olerícolas pertencentes às famílias Asteraceae e Solanaceae. No Brasil, a primeira descrição da suscetibilidade da alface a um isolado de Tospovirus ocorreu na década de 1940, quando então o TSWV era considerado o único membro do grupo da doença denominada “spotted wilt”. No decorrer dos anos, com o advento de técnicas sorológicas e moleculares, foi proposta a criação do gênero Tospovirus, composto por diferentes espécies. Atualmente, de acordo com o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus, são aceitas onze espécies definitivas e 15 espécies tentativas de Tospovirus que infectam diversas plantas cultivadas ou não.

DISSEMINAÇÃO E TRANSMISSÃO

Os tospovírus são considerados cosmopolitas com distribuição nos cinco continentes, além de serem capazes de infectar um grande número de espécies de plantas cultivadas e também da vegetação espontânea. No Brasil, em alface, já foram relatadas as seguintes espécies: Tomato spotted wilt virus (TSWV), Tomato chlorotic spot virus (TCSV) e Groundnut ringspot virus (GRSV). Em levantamentos realizados nas áreas produtoras de alface do estado de São Paulo, foi constatada, nas últimas décadas, a prevalência do TCSV seguido do TSWV, com ocorrências esporádicas do GRSV. É importante ressaltar que o TCSV também já foi descrito no cinturão verde de São Paulo infectando plantas de alface cultivadas em sistemas protegidos de hidroponia. Entretanto, no estado de Pernambuco, o GRSV é o tospovírus prevalente em alface. É importante mencionar que Impatiens necrotic spot virus (INSV), espécie de tospovírus que não ocorre no Brasil e considerada Praga Quarentenária A1, também já foi relatada infectando a alface e causando prejuízos importantes na América do Norte e Europa. A transmissão e dispersão dos tospovírus no campo são realizadas exclusivamente por 14 espécies tripes (Thysanoptera: Thripidae), sendo que sete dessas espécies ocorrem no Brasil: Frankliniella occidentalis, F. schultzei, F. fusca, F. zucchini, F. gemina, Thrips Tabelaaci e T. palmi. As interações tospovírus-tripes apresentam particularidades quando comparadas com os outros tipos de transmissão de vírus por insetos. As partículas de tospovírus, ao serem ingeridas (aquisição) durante o processo de alimentação, seguirão o seu fluxo normal. Porém, ao atingirem o trato digestório, deverão transpassar a membrana da parede e atingir a hemolinfa (fluído característico dos insetos). Consequentemente, as partículas virais circularão no interior do corpo do tripés que, por sua vez, transpassarão a membrana das glândulas salivares, quando então poderá ser realizada a inoculação das partículas virais (transmissão). Durante este processo, as partículas virais adquiridas também se multiplicarão nas células do vetor, o que permite denominar este tipo de transmissão como circulativa persistente propagativa. Outro fator importante a ser considerado é que um tripés adulto somente será um vetor de tospovírus se a aquisição da partícula viral ocorrer durante o primeiro estágio larval. No entanto, há uma fase de latência e somente a partir do segundo estágio larval de desenvolvimento é que se iniciará a transmissão, que perdurará até o final do ciclo de vida do tripés. Os tripés adultos podem adquirir tospovírus, porém as partículas serão degradadas no trato digestório o que os tornam não virulíferos.

EPIDEMIOLOGIA

No Brasil, além do número de espécies de tripés descritas como vetores, outro fator a ser considerado para o estabelecimento e manutenção dos tospovírus no campo é a elevada variedade de espécies de interesse econômico e a diversidade de plantas da vegetação espontânea suscetíveis aos tospovírus e que compartilham as áreas de cultivo (Tabela 1). Esta condição contribui não somente para a manutenção de altas populações de tripés, como também propicia a manutenção da fonte de inoculo de tospovírus no campo.

Da mesma forma que se observa uma complexidade na interação entre tospovírus-tripes, na transmissão também são constatados níveis distintos de especificidade entre as espécies de tospovírus e seus tripés vetores (Tabela 2).

Diante da elevada especificidade na transmissão, evidencia-se que a prevalência de uma espécie de tospovírus pode ser regionalizada devido à prevalência de uma ou mais espécies de tripés vetores. Fato observado comparando-se os levantamentos realizados na cultura da alface nos estados de São Paulo e Pernambuco. Assim, F. occidentalis e F. schultzei podem ser consideradas as principais espécies vetoras de tospovírus, no Brasil. No caso da alface, F. schultzeitem possui grande importância por apresentar forte associação com o cultivo desta olerícola. Outro fator a ser considerado é a preferência de F. occidentalis por plantas de alface infectadas por tospovírus. Além disso, a cultura pode influenciar na densidade populacional de uma determinada espécie de tripes que, por sua vez, transmitirá especificamente uma única espécie de tospovírus. Caso observado na transmissão do Zucchini lethal chlorosis vírus (ZLCV) por F. zucchini, em plantações de abobrinha.

SÍNDROME DO ESPESSAMENTO DAS NERVURAS - Varicosavirus e Ophiovirus

A síndrome do espessamento das nervuras é o relato mais recente de uma nova virose em alface no Brasil. A causa da doença é relacionada à associação de duas espécies de vírus pertencentes a gêneros distintos: o Lettuce big-vein associated varicosavirus (LBVaV), espécie tipo do gênero Varicosavirus e o Mirafiori lettuce big-vein virus (MLBVV), espécie pertencente ao gênero Ophiovirus. O LBVaV apresenta partículas alongadas em forma de bastonetes com cerca de 320 a 360 nm e genoma constituído por uma fita simples de RNA. Por sua vez, o MLBVV possui partícula filamentosa com conformação retorcida (provavelmente enroladas internamente) com comprimento estimado em 760 nm e genoma de RNA fita simples. O sintoma característico, observado em alface, é o espessamento das nervuras que se tornam cloróticas e translúcidas, depreciando o produto final para o consumo (Fig. 3). Nas primeiras descrições da doença, os sintomas eram atribuídos somente à infecção pelo LBVaV. Atualmente, é de conhecimento que plantas de alface infectadas pelo LBVaV apresentem-se assintomáticas, sendo que o sintoma característico, que deu o nome à doença, refere-se à infecção pelo MLBVV. Porém, a associação dos dois vírus pode potencializar os sintomas (efeito sinérgico), causando maiores prejuízos. Um fator importante a ser considerado é que os sintomas são mais evidentes e comumente observados durante o inverno, quando a média da temperatura diária não ultrapassa 20°C, condição frequente nos cultivos de alface em regiões de clima temperado em que essa virose foi originalmente descrita.

DISTRIBUIÇÃO

A primeira descrição da síndrome do espessamento das nervuras, como sendo causada pelo complexo LBVaV e MLBVV, ocorreu em plantações de alface na Itália e França. Atualmente, há relatos de sua ocorrência em outros países do continente europeu, Estados Unidos, Japão e Chile. No Brasil, as primeiras observações do sintoma de espessamento das nervuras, em alface, foram relatadas no cinturão verde de São Paulo no final da década de 1990. Porém, a identificação do LBVaV e MLBVV, como os agentes causais dessa virose, ocorreu no início da década de 2000 em amostras provenientes de regiões produtoras dos estados de São Paulo e Paraná. A importância deste fato é que este foi o primeiro relato dessa virose em condições subtropicais, pois até então, havia somente a sua descrição em condições de clima temperado.

EPIDEMIOLOGIA

Tanto o LBVaV quanto o MLBVV são transmitidos pelo fungo Olpidium brassicae, sendo esta transmissão muito estudada nos países europeus, Estados Unidos e Japão. O. brassicae é um patógeno zoospórico presente no solo, que possui em seu ciclo de vida esporos flagelados (estágio móvel – monoflagelado ou biflagelado) que, na presença de água (chuva, orvalho ou irrigação), nadam por minutos ou horas até localizarem a raiz de uma planta hospedeira. É neste período que ocorrerá a aquisição e transmissão do LBVaV e MLBVV. Quanto ao potencial de reservatórios naturais destes vírus, no Brasil, até o momento, só há o relato de Sonchus oleraceus (serralha-lisa) como hospedeira natural do LBVaV. No entanto, na Europa, S. oleraceus se caracteriza como a principal hospedeira natural do LBVaV e MLBVV e também do fungo vetor, sendo a responsável direta pela manutenção e dispersão da virose em plantações de alface. Os sintomas induzidos em plantas de S. oleraceus são semelhantes aos observados em alface. Plantas de alface também são potenciais reservatórios, uma vez que não há variedades tolerantes ou resistentes de alface disponíveis. Em nossas condições climáticas é observada a presença dos dois vírus em todos os períodos do ano. Porém, durante as estações mais quentes (verão), os sintomas não são evidenciados.

MOSQUEADO DA ALFACE - Lettuce mottle virus (LeMoV)

A primeira constatação do LeMoV, em alface, ocorreu no cinturão verde do Distrito Federal no início da década de 1980. Os últimos relatos, no Brasil, foram isolados e pontuais em áreas de cultivo de alface situadas no estado de São Paulo. O LeMoV é uma provável espécie do gênero Sequivirus, família Secoviridae. Esta proposta se baseia em suas características morfológicas (partículas isométricas com cerca de 30 nm de diâmetro), relacionamento sorológico e identidade molecular similares ao Dandelion yellow mosaic vírus (DaYMV), um sequivírus que infecta alface na Europa. O sintoma característico de mosqueado é semelhante ao induzido por estirpes mais brandas do LMV, o que muitas vezes leva a um diagnóstico equivocado no campo. No entanto, infecções mistas com o LMV também já foram relatadas.

DISTRIBUIÇÃO

O LeMoV, até o presente momento, foi relatado somente em áreas produtoras de alface localizadas no Brasil e Chile.

EPIDEMIOLOGIA

O LeMoV parece ser restrito às espécies de plantas pertencentes à família Asteraceae. Não é transmitido por sementes e estudos de sua epidemiologia ainda são inexistentes. Em ensaios experimentais, a espécie de afídeo Hyperomyzus lactucae revelou-se como potencial vetor, sendo a transmissão realizada de maneira semipersistente, ou seja, a aquisição do vírus ocorre em minutos e a transmissão pode perdurar por algumas horas. Estudos preliminares indicam as variedades de alface ‘Vanguard 75’ e ‘Elisa’ como tolerantes ao LeMoV.

PANORAMA DE OUTROS VÍRUS JÁ RELATADOS NO BRASIL: CONSIDERAÇÕES GERAIS

Levantamentos realizados, principalmente em regiões produtoras do estado de São Paulo, indicaram que, atualmente, a diversidade de espécies de vírus em alface é bastante reduzida. Este fato está diretamente relacionado à regionalização das culturas e, principalmente, devido ao abandono progressivo, a partir da década de 1980, da prática do cultivo da alface junto a áreas destinadas à produção de flores. Esta linha de raciocínio é lógica, uma vez que programas de melhoramento de espécies ornamentais são direcionados para a produção de variedades comerciais que visam à beleza, cor e tamanho das flores e folhagens, e não à introdução de genes que confiram resistência às doenças. Isso faz com que o cultivo intensivo de plantas ornamentais seja um risco em potencial para atuar como fonte de vírus que acometem os segmentos da olericultura e fruticultura.

Assim, no Brasil, vírus importantes como o Cucumber mosaic vírus (CMV), que comumente é relatado em vários segmentos da olericultura (pimentão, pimenta e abobrinha) e de plantas ornamentais (alamanda, alstroeméria, vinca, crisântemo, comelina, orquídea, lírio, bico-de-papagaio, lisiantos, palma de Santa Rita, gloxínia, maria-sem-vergonha e sálvia), atualmente não tem sido observado em alface. O CMV possui relativa importância em áreas produtoras de alface situadas em regiões de clima temperado, como em alguns países da Europa e em numerosas áreas produtoras dos Estados Unidos. O primeiro relato do CMV, em alface, ocorreu na Nova Zelândia, em 1961. Este vírus pertencente à família Bromoviridae, gênero Cucumovirus, apresenta partículas isométricas com 30 nm de diâmetro e genoma constituído de RNA fita simples. É um vírus cosmopolita que infecta mais de 1.000 espécies de plantas em 100 famílias botânicas. É transmitido por cerca de 60 espécies de afídeos de maneira não persistente. Em alface, os sintomas induzidos pelo CMV se caracterizam por mosaico moderado, distorção foliar, necrose seguida de atrofia e mau desenvolvimento da planta, incluindo a não formação de cabeça, o que afeta diretamente a produção.

No início da década de 1980, amostras de folhas de alface com sintomas de manchas cloróticas e clareamento das nervuras, quando analisadas evidenciaram que o agente causal da doença se tratava de um vírus do gênero Cytorhabdovirus, possivelmente a espécie Lettuce necrotic yellow vírus (LNYV). Porém, os relatos foram sazonais e esse vírus não foi mais registrado em alface. Estudos complementares de identificação e caracterização não foram realizados e, atualmente, não há dados sobre a ocorrência desta virose em alface no Brasil.

Medidas de controle

Para atender a demanda e exigências do mercado consumidor, inúmeros programas de melhoramento desenvolvem incessantes trabalhos para a identificação e incorporação de genes específicos que confiram às variedades de alface uma série de características desejáveis como: novidade, aparência, adaptação climática (tropicalização) e, sobretudo, resistência a fitopatógenos, em especial aos vírus.

Devido à variabilidade dos vírus que acometem a alface, os programas de melhoramento visam incorporar genes que apresentem resistência múltipla e que não comprometam outros genes, preservando as demais características agronômicas desejáveis. Esses genes de resistência são selecionados por meio de métodos genealógicos a partir de cruzamentos biparentais entre tipos, cultivares e até mesmo de espécies selvagens de alface. Diante deste fato, é importante mencionar que as cultivares de alface resistentes a vírus, e disponíveis atualmente para produção em larga escala, são basicamente originárias de cruzamentos interespecíficos entre tipos e cultivares de L. sativa com espécies selvagens de L. serriola, L. saligna e L. virosa (alface-brava).

Dentre os genes específicos utilizados para o controle de vírus, o mais estudado é o mo1, cujos alelos mol1 e mol2 conferem tolerância ou resistência ao LMV patotipo II (commom), mas não para o LMV patotipo IV (most), cuja agressividade é evidenciada pela indução de sintoma de mosaico mais severo e, em casos extremos, pode causar necrose e morte das plantas infectadas. Para os demais vírus descritos em alface, a maioria dos programas de melhoramento relata apenas o grau de tolerância ou resistência obtido a partir de cruzamentos biparentais.

Na ausência ou indisponibilidade de variedades tolerantes ou resistentes, algumas medidas profiláticas e de manejo devem ser adotadas para assegurar a sanidade da cultura da alface, sendo que essas medidas variam de acordo com o vírus. É importante destacar que algumas medidas gerais de controle podem ser aplicadas para diferentes vírus, como no caso do LMV e BiMV (Potyvirus) e LeMoV (Sequivirus). Neste caso, a única ressalva se faz aos cuidados relativos à fitossanidade das sementes, pois tanto o BiMV quanto o LeMoV não são transmitidos por sementes.

A seguir, foram relacionadas as principais medidas de controle para os principais vírus que infectam a alface:

Lettuce mosaic virus (LMV) – Potyvirus

a) Utilizar sementes comerciais com certificação fitossanitária (livres de vírus) para impedir a introdução do LMV em áreas de produção;

b) Priorizar a utilização de variedades com genes de resistência ao LMV;

c) Realizar a semeadura e produção de mudas em condições protegidas como estufas revestidas com tela antiafídeos;

d) Quando a semeadura for realizada na propriedade, estabelecer um local distante da área de produção para a execução desta atividade. Antes de realizar o plantio no campo de produção, recomenda-se que seja feita uma inspeção visual eliminando as mudas que apresentem mau desenvolvimento, e folhas com deformação, manchas cloróticas ou mosaico. Caso as mudas sejam adquiridas de um viveirista, seguir a mesma conduta;

e) Práticas agrícolas como a eliminação de plantas de alface que permanecem nos canteiros após a colheita é de grande importância, pois podem atuar como reservatórios do LMV no campo. Em caso de canteiros descobertos, aconselha-se incorporá-las ao solo, e em canteiros em que se utiliza mulching (cultivo protegido com a utilização de plástico para cobertura do canteiro) é recomendado o arranquio e destruição da planta (queima ou enterrio);

f) A eliminação de plantas invasoras entre os canteiros ou nas bordas da área de produção é uma medida aconselhada. Neste caso, é recomendado ter uma maior atenção às plantas invasoras da família Asteraceae, pertencentes a mesma família da alface. Esta prática é indicada, pois estas plantas podem atuar como reservatórios naturais do LMV e também são responsáveis por manter altos índices populacionais de afídeos no campo. Nas áreas de produção de alface do estado de São Paulo, as seguintes espécies de asteráceas invasoras já foram relatadas como reservatórios do LMV: Bidens pilosa (picão-peto), B. sulphurea (cósmo-amarelo), Erigeron bonariensis (rabo-de-foguete), Sonchus asper (serralha-de-espinho) e S. oleraceus (serralha-lisa);

g) O controle dos afídeos com a aplicação de inseticidas não é prática recomendada, além de ser considerado antieconômico para o produtor. Esta afirmação se baseia no fato de que a transmissão do LMV é efetuada durante as picadas de prova, ou seja, ocorre antes da ação do inseticida sobre o afídeo. A utilização de armadilhas adesivas amarelas para o monitoramento das revoadas de afídeos, principalmente nos períodos de temperaturas amenas e de baixa precipitação, é uma prática recomendada. Essa conduta permitirá ao produtor ter uma previsão do início das grandes revoadas de afídeos no campo, podendo-se, nesse caso, realizar pulverizações preventivas para a contenção da dispersão do LMV.

Tomato spotted wilt virus (TSWV), Tomato chlorotic spot virus (TCSV) e Groundnut ringspot virus (GRSV) – Tospovirus

a) Produção de mudas em condições protegidas (estufas ou telados), que não permitam a entrada de tripés vetores, e que estejam distantes das áreas de produção intensiva de alface. Como os tospovírus não são transmitidos por sementes, a utilização de sementes certificadas é aconselhada para manter o vigor e padrão da produção;

b) A utilização de variedades resistentes ainda é uma incógnita, uma vez que não há genes efetivos de resistência às espécies de tospovírus que infectam a alface. Genes de resistência ao TSWV foram descritos nas cultivares de alface ‘Tinto’ e ‘PI 342517’ (‘Ancora’). Porém, ainda não há evidências de sua efetiva proteção;

c) Eliminação e destruição de plantas velhas de alface (hospedeiras facultativas), que permanecem em canteiros desativados após a colheita, e que atuam como fontes de manutenção de inoculo de tospovírus nas áreas cultivadas;

d) Controle das plantas invasoras presentes nas áreas de produção, principalmente aquelas espécies pertencentes às famílias Asteraceae e Solanaceae;

e) O manejo preventivo da população dos tripés com a aplicação de inseticidas específicos antes e durante o período de plantio é recomendado, lembrando que os tospovírus são transmitidos de maneira persistente propagativa. Esta recomendação de controle surtirá efeito desde a primeira fase larval do tripés, quando ocorre a aquisição da partícula viral, até a fase adulta quando ocorre a transmissão.

Lettuce big-vein associated virus (LBVaV) e Mirafiori lettuce big-vein virus (MLBVV) - Varicosavirus e Ophiovirus

a) Produzir mudas em substrato comercial esterilizado para impedir a infecção prematura e introdução do fungo vetor e do LBVaV e MLBVV no campo;

b) Quando possível, lançar mão do controle químico do fungo vetor (O. brassicae), utilizando fungicidas registrados;

c) Conciliar a prática de solarização dos canteiros para diminuir a concentração ou eliminar o fungo vetor;

d) Controlar o volume de água utilizada na irrigação para evitar a dispersão da forma móvel do fungo vetor;

e) Eliminar e destruir plantas invasoras presentes nos canteiros, principalmente S. oleraceus;

f) Como não há variedades tolerantes ou resistentes, recomenda-se eliminar as plantas de alface rejeitadas durante o período de colheita, pois elas podem ser hospedeiras facultativas, garantindo a manutenção da fonte de inoculo dos vírus no campo.

FAÇA A SUA ASSINATURA

Ou clique no link:

https://go.agriconline.com.br/pass/?sck=portal

Fonte

COLARICCIO, Addolorata; CHAVES, Alexandre Levi Rodrigues. Aspectos Fitossanitários da Cultura da Alface. 1ª ed. São Paulo - SP: Instituto Biológico, 2017.

Mais de Agricultura

Ver todas →

Boletim Agriconline

O agronegócio na sua caixa de entrada, todo dia às 6h.

Cotações, clima, mercado e as principais notícias do campo — em 5 minutos de leitura.

Enviaremos um e-mail pra você confirmar. Sem spam — descadastre quando quiser.