Agricultura

Descobrindo as Cores do Solo na Prática

Daniel Vilar
Especialista
7 min de leitura
Descobrindo as Cores do Solo na Prática
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Por meio do exame da cor, podem-se fazer inferências sobre o teor de matéria orgânica, a tipificação de óxidos de ferro predominantes na fração argila e a classe de drenagem do solo. Porém, a cor do solo fornece informação apenas qualitativa, ou seja, não permite avaliações quantitativas. Por exemplo, a presença de um horizonte subsuperficial de coloração vermelha indica boa drenagem e a ocorrência de hematita na fração argila, porém não revela a quantidade deste óxido.

A identificação da cor é uma ferramenta bastante útil para a separação inicial dos horizontes de um perfil, daí a importância de sua padronização. A cor também é utilizada como atributo diferencial entre tipos de horizonte A e para alguns horizontes subsuperficiais (B e C).

Os principais corantes da matriz do solo são a matéria orgânica e os óxidos de ferro. A matéria orgânica confere coloração escura ao solo (preto, bruno-escuro, cinzento escuro). Os óxidos de ferro apresentam colorações diferentes em função de seu grau de oxidação ou hidratação:

  • Vermelho: quando em condições de oxidação e não hidratados (hematita) (Figura 01); e
  • Amarelo: quando em condições de oxidação e hidratados (goethita) (Figura 02).

Vale ressaltar que, em solos mal drenados e em condições de hidromorfismo, quando há o domínio do ferro na forma reduzida (Fe2+), a cor do solo é acinzentada ou adquire matiz neutro (Figura 03). Esta morfologia não é devida a cor do elemento ferro, que se encontra em forma solúvel (Fe2+), mas sim pela cor de outros materiais de solo, que ocorrem na matriz do solo e apresentam as seguintes colorações:

  • Quartzo: branco opaco ou hialina
  • Caolinita: branca
  • Montmorilonita: cinza metálico
  • Precipitados de sais solúveis: branca

A caracterização da cor do solo, ou dos seus horizontes, segue padrão mundial que representa o grau de intensidade de três componentes da cor: matiz, valor e croma; conforme especificações constantes na Carta de Cores Munsell para Solos (Munsell Soil Color Charts).

O matiz refere-se à faixa de espectro solar dominante refletida pelo solo (vermelho, amarelo, azul, verde e púrpura). Encontra-se especificado no canto superior de cada página da Carta de Munsell e é representado por uma ou duas letras maiúsculas referentes às iniciais das cores acima assinaladas (R – red; Y – yellow; B – blue; G – green; P – purple), precedida(s) de números que variam em intervalos definidos de 0 a 10 (2,5; 5; 7,5; 10; não se especificando o zero) (Figura 04).

O valor refere-se à tonalidade ou ao brilho da cor. É especificado na escala vertical da página e varia de zero (preto absoluto) a 10 (branco absoluto). Os valores intermediários (1 a 9) representam colorações acinzentadas provenientes da mistura de branco com preto. As páginas da Carta de Munsell aplicadas para descrever a cor do solo, normalmente, se iniciam com valor 2 que aumenta até 8.

O croma diz respeito à pureza relativa ou saturação da cor e representa a quantidade de valor que está interferindo no matiz. Varia de zero (cores neutras e acinzentadas) a 20. Zero indica 0 ‘partes’ de matiz misturado com 20 partes de valor, ou seja, só o valor compõe a cor; o número 20 representa uma mistura de 20 partes de matiz e zero ‘partes’ de valor, portanto, tem-se uma cor de matiz mais puro. Os valores intermediários de 1 a 19 representam misturas adicionais entre matiz e valor. Por exemplo: croma3 significa que se tem 3 partes de matiz misturadas com 17 partes de valor. Na Carta de Munsell, o croma é indicado na escala horizontal e inicia-se por 0 ou 1 e, para solos, ocorrem variações de 0 a 8.

Para solos absolutamente acromáticos (cinza claro, branco ou preto) com valor zero de croma e ausência da expressão do matiz, usa-se a letra N (“neutral”) para substituir a designação do matiz. Por exemplo, se a cor de determinada amostra, posta em comparação com as cores da escala de Munsell, for cinzenta com valor 5, sua notação será N5/.

Na Carta de Cores Munsell para Solos existem diversas páginas e cada uma representa um matiz, em escala variável do vermelho (5R) ao amarelo (5Y). O componente valor aumenta de baixo para cima na página, e o croma da esquerda para direita. A sequência de páginas é a seguinte:

Em cada uma das páginas, encontram-se cores com o mesmo matiz, mas que variam em função do valor e do croma (Figura 05).

Na determinação da cor surgem várias dificuldades, entre elas a seleção da página contendo o matiz correspondente a cor do solo e dúvidas na determinação de cores que se situam entre duas páginas ou entre valores e cromas, não sendo rara a necessidade de interpolação. Nesses casos, deve-se restringir ao máximo para os números que indicam o valor e croma. Quando for essencial interpolar o matiz, usar números inteiros e não o resultado da divisão exata se este for um número decimal (Ex.: 4YR e não 3,75 para interpolar entre 2,5 e 5YR).

Alguns horizontes podem estar mesclados e apresentarem mais que uma cor. Este padrão recebe o nome de mosqueado (Figura 06), se existe uma cor dominante (cor de fundo), ou seja, que ocorre em mais de 50% do horizonte, ou do contrário o padrão é variegado. A notação é feita do seguinte modo: cor de fundo e cor ou cores das manchas existentes, e arranjamento do mosqueado. Ex.: Bruno-claro acinzentado (10YR 6/4, úmido) com mosqueado pouco médio e proeminente amarelo-brunado (10YR 6/6).

O padrão variegado refere-se à presença no horizonte de várias cores, sem que haja predomínio perceptível de determinada cor; ele será descrito como apresentando coloração variegada. Ex.: coloração variegada, composta de vermelho (2,5YR 4/6, úmido), bruno (10YR 5/3, úmido).

1. Material para Análise da Cor do Solo

Amostra de solo indeformada (torrão), Carta de Cores de Munsell e recipiente plástico (pisset ou equivalente) com água.

2. Método de Determinação da Cor do Solo

A cor do solo é determinada por um processo comparativo com os padrões de cores na Carta de Munsell. Como padrão para determinar a cor do solo, toma-se uma amostra indeformada naturalmente úmida ou umedecida. Entretanto, para determinação no horizonte A, torna-se necessário avaliar também a cor de amostra seca. Quando utilizada amostra deformada, este estado deve ser informado. É importante expressar o estado de umidade em que se fez a observação, pois o valor e o croma, principalmente, podem variar em função da quantidade de água na amostra.

Alguns cuidados devem ser observados por ocasião da determinação da cor. No caso de torrão de solo, deve-se quebrar o mesmo e examinar a cor na sua superfície interna, evitando-se a interferência (espelhamento) dos instrumentos de coleta. A cor deve ser sempre observada com iluminação natural e a sombra. Para determinar a cor, seguir a sequência:

a) Tomar a amostra que se deseja conhecer a cor e folhear a carta à procura da página de matiz mais próximo ao da amostra;

b) Obtido o matiz, determina-se em seguida, o valor e o croma, comparando a cor da amostra com as constantes daquela página. Para isso, coloca-se a amostra sob ou sobre a página e procura-se o padrão de cor mais próximo;

c) O valor correspondente à cor escolhida é lido na margem esquerda da página (y), e o croma, na margem inferior (x);

d) Na página adjacente à que contêm os padrões de cores, é determinado o nome da cor em inglês. A designação da cor em português é feita de acordo com tradução padronizada pela SBCS, no Manual de Descrição e Coleta de Solo no Campo (Santos et al., 2015) ou no Manual Técnico de Pedologia (IBGE, 2015) (Tabela 01);

e) Fazer o registro da cor, segundo a notação de Munsell, obedecendo a seguinte ordem: Nome da cor (matiz valor/croma). O estado de umidade (úmido e seco), em que se encontrava a amostra no momento da determinação, é usado apenas nos horizontes superficiais (A e AB), nos demais, sempre a cor sempre será determinada em amostras úmidas.

Ex.: Ap - Bruno-amarelado-escuro (10 YR 3/4, úmido).

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Fonte

PEREIRA, Marcus Gervasio; RAVELLI, Alexandre Neto; DOS ANJOS, Lucia Helena Cunha; CEDDIA, Marcos Bacis; SCHULTZ, Nivaldo. Práticas de Morfologia e Física do Solo. Seropédica – RJ: UFRRJ, 2020.

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