Controle de Plantas Daninhas na Cultura do Alface
1. Introdução
A alface pode ser cultivada em diversos sistemas de plantio: convencional, direto e por hidroponia. Em todos estes sistemas ocorre a convivência com as plantas daninhas.
De forma geral, as principais plantas daninhas associadas à cultura da alface são:
2.1. Monocotiledôneas
Folhas estreitas
Poaceae: capim-arroz (Echinochloa sp.), capim-colchão (Digitaria sanguinalis), capim-carrapicho (Cenchrus echinatus), capim-marmelada (Brachiaria plantaginea), capim-colchão (Digitaria horizontalis), capim-pé-de-galinha (Eleusine indica), capim-braquiária (Brachiaria decumbens)
Commelinaceae: trapoeraba (Commelina benghalensis), trapoerabinha (Murdania nudiflora)
Cyperacea: tiririca (Cyperus rotundus)

2.2. Dicotiledôneas
Folhas largas (Latifoliadas)
Asteraceae: mentrasto (Ageratum conyzoides), picão-preto (Bidens pilosa), falsa-serralha (Eleusine indica), picão-branco (Galinsoga parviflora), serralha (Sonchus olraceus), botão-de-ouro (Siegesbeckia orientalis), macela (Gnaphallium spicatum), losna-branca (Parthenium hysterophorus)
Amaranthaceae: caruru (Amaranthus retroflexus)
Brassicaceae: mentruz (Lepidium virginicum), mastruço (Coronopus didymus)
Convouvulaceae: corda-de-viola (Ipomoea triloba)
Fabaceae: fedegoso (Senna obtusifolia)
Malvaceae: guanxuma (Sida sp.)
Portulacaceae: beldroega (Portulaca oleraceae)
Rubiaceae: poaia-branca (Richardia bransiliensis)
Solanaceae: maria-pretinha (Solanum americanum)
A cultura da alface, assim como outras olerícolas, é exigente em solos com altos níveis nutricionais e prefere solos com altos teores de matéria orgânica. Esta condição favorece a incidência de uma alta densidade populacional das plantas daninhas que, em relação à cultura, apresentam grande capacidade competitiva.
Há relatos da perda de 100% na produção da cultura de alface vegetando com uma infestação de 65 a 135 plantas daninhas por m2. A cultura mantida “no limpo” por três semanas é tempo suficiente para não prejudicar significativamente a produção.
Em ensaios de campo realizados no Brasil, um com plantio de inverno e outro no início da primavera, foi registrado nos canteiros de alface uma grande competição das plantas daninhas dicotiledôneas anuais: nabiça (Raphanus raphanistrum L.), picão-branco (G. parviflora Cav.), caruru (Amaranthus hybridus L.) e picão-preto (B. pilosa L.).
Estas análises permitiram constatar uma densidade de 1.394 e 986 plantas daninhas por m2, para as épocas de plantio de inverno e primavera, respectivamente.
Diante destes dados, foi possível determinar o período em que se deve manter a cultura livre das plantas daninhas após o transplante das mudas (período crítico de interferência), sendo uma semana para o plantio de inverno e duas semanas para os cultivos de primavera.
Desta forma, estes períodos de controle foram suficientes para preservar a produção da cultura de alface.
Porém, em outros trabalhos de ecologia, avaliando a interferência das plantas daninhas sobre o desenvolvimento da alface, foi observado que o período crítico de interferência foi de 21 dias, após o transplante das mudas.
Outro fator prejudicial diretamente relacionado à presença de plantas daninhas na cultura da alface é a alelopatia. Este efeito já foi demostrado com a aplicação de extratos de folhas de tiririca (C. rotundus L.) em canteiros de alface.
Também já foi comprovado que extratos aquosos de tubérculos da tiririca afetam a germinação e desenvolvimento inicial das plântulas de alface.
Além de prejudicar diretamente a cultura da alface pela competição por água, nutrientes e alelopatia, as plantas daninhas também podem afetar indiretamente atuando como reservatórios de nematoides, doenças ou abrigos de insetos-praga.
Desta forma, o controle das plantas daninhas é primordial para o sucesso econômico da cultura da alface.
3. Medidas de controle
Didaticamente, o controle das plantas daninhas pode ser dividido em quatro métodos: preventivo, cultural, capinas e químico.
Objetivando a redução de custos e a minimização do risco de contaminação ambiental e, assim, maximizar o controle das plantas daninhas, as ações destes métodos devem ser tomadas de forma planejada e conjunta (manejo integrado).

3.1. Método preventivo
O objetivo deste método é adotar ações que impeçam a entrada de novas comunidades florísticas na área de plantio, introduzidas devido aos diversos tratos culturais pertinentes à cultura.
A realização da lavagem criteriosa dos implementos e tratores, retirando a terra aderida, é uma maneira de evitar contaminação das áreas de plantio.
Outro cuidado necessário preconizado no método preventivo refere-se à aquisição de sementes ou mudas de boa qualidade e também no transplante das mudas na área de plantio.
As sementes ou mudas devem ser adquirida de fornecedores que atestem a sua procedência fitossanitária evitando, assim, propágulos de plantas daninhas exóticas à área de plantio.
3.2. Método cultural
Define-se como método cultural no controle das plantas daninhas qualquer mudança, incremento ou redução de algum manejo na lavoura, que exerça algum tipo de pressão negativa na população, acarretando no controle da comunidade florística já instalada na área agrícola.
Muitas dessas práticas colaboram para a diminuição do banco de sementes (propágulos) existentes no solo, reduzindo desta forma a população das plantas daninhas.
• Uma técnica de controle cultural é realizar um preparo de solo prévio, dando condições para a germinação do primeiro fluxo de emergência das plantas daninhas, eliminando-as com arações e gradagens realizadas para o preparo do solo e transplante das mudas de alface.
• Utilizar, no plantio, o menor espaçamento possível recomendado mediante as práticas agronômicas. Dar preferência às cultivares de crescimento rápido, assim haverá um sombreamento precoce das entre linhas de cultivo, controlando a emergência das plantas daninhas.
• Na cultura da alface é comum o uso de cobertura dos canteiros (mulching), que pode ser de origem vegetal (palha, serrapilheira de áreas de reflorestamento, serragem casca de arroz ou café), ou sintética (filmes ou lonas plásticas). Na utilização de coberturas de origem vegetal, ela deve ser isenta de propágulos de plantas daninhas. Assim, algumas medidas devem ser tomadas para desinfestar a cobertura morta, e isto pode ser realizado por fumigação ou exposição a altas temperaturas (calor).
• Quando se utiliza cobertura sintética é indicado não instalar o cultivo em área com presença de tiririca (Cyperus rrotundus L.), pois ela fura a cobertura plástica, permitido a entrada de luz e propiciando a germinação de novas plantas daninhas.
• A utilização de munching de origem vegetal, além de preservar a estrutura física e fertilidade do solo, também controla a germinação e disseminação da flora daninha. Neste caso, é indicada a utilização de palha de arroz ou café e até mesmo serragem.
• Evitar o plantio de mudas em áreas que possuem plantas daninhas de reprodução assexuada e de difícil controle, principalmente na época das chuvas. Como exemplos, podem ser citadas a tiririca e a grama-seda (Cynodon dactylon). O preparo de solo também favorecerá a separação mecânica e a individualização de rizomas e tubérculos promovendo a infestação do campo. Neste rompimento mecânico ocorrerá a quebra de dormência e germinação desses órgãos propagativos, multiplicando em várias vezes a população original.
• O plantio direto também pode ser adaptado e utilizado na cultura de alface. Para tanto, há a necessidade de realizar primeiramente a dessecação da vegetação de cobertura para, posteriormente, preparar o sulco para plantio das mudas. Esta prática de plantio ainda é pouco utilizada, porém muito eficiente no controle de plantas daninhas.
• Em áreas com infestação de tiririca, o método de controle recomendado é realizar o plantio na época seca, arar e gradear a área por várias vezes. Esta prática irá isolar os rizomas que ligam os tubérculos, expondo-os à radiação solar e, assim, por desidratação causará a morte desses propágulos.
Uso de capinas
Na cultura da alface, as capinas manuais ou mecanizadas são realizadas, respectivamente, com uso de enxadas e cultivador mecanizado, sendo que esta última técnica possui o inconveniente de não eliminar as plantas daninhas na linha de plantio.
Quando a muda de alface é transplantada em canteiros com cobertura plástica, cujos furos para o preparo das covas são grandes, é recomendada a eliminação manual das plantas daninhas que germinam junto das mudas.
Método Químico - Herbicidas
Os herbicidas são compostos químicos usados para eliminar plantas indesejáveis na cultura (invasoras ou daninhas).
Devem ser utilizados de acordo com as diluições recomendadas pelo fabricante e aplicados diretamente sobre a vegetação para que ocorra a absorção foliar (tratamento de pós-emergência).
Também podem ser aplicados no solo para que sejam assimilados pela planta daninha após a germinação da semente e antes que ocorra a germinação e emergência (tratamento de pré-emergência).
À exceção do sistema de cultivo orgânico, em que é proibido o uso desses insumos, a utilização dos herbicidas como método para o controle das plantas daninhas é muito relevante para o desenvolvimento da cultura da alface.
Devido a sua praticidade de uso, aliada à sua alta eficiência no manejo das plantas daninhas, o uso de herbicidas tende a sobrepujar aos demais métodos de controle.
Em muitos casos, devido à sua praticidade, esse é o único método utilizado, sendo esta prática um erro no âmbito agronômico.
Ao desprezar o emprego dos outros métodos de controle de plantas daninhas, constata-se uma queda na eficiência e no potencial de controle dos herbicidas o que acarreta no aumento de aplicações e dosagens para atingir um ótimo desempenho. Este fato não é desejável no ponto de vista ambiental, agronômico e econômico.
Na utilização do método químico, sempre é recomendado obter a sua máxima eficiência e minimizar o seu impacto ambiental.
Para atingir este objetivo, na escolha de qualquer herbicida para ser aplicado no programa de manejo integrado, vários fatores devem ser analisados, dentre os quais podem ser destacados:
• Época de plantio: utilizar herbicidas menos solúveis na época das chuvas, isto favorece (geralmente) a sua permanência na camada arável do solo e evita a sua lixiviação para as camadas mais profundas do solo;

• Recensear as plantas daninhas presentes na área de plantio. Escolher o herbicida cujo espectro de ação coincida com as espécies predominantes de plantas daninhas na área onde será implantada a cultura da alface;
• Avaliar o sistema de plantio como um todo, levando em consideração a cultura sucedânea à cultura da alface. Na escolha do herbicida a ser utilizado na cultura da alface, verificar se ele pode causar injúria (fitotoxicidade) para a cultura em sucessão;
• Sempre realizar a rotação de herbicidas que possuam ações diferentes, isto é muito importante para evitar o surgimento de plantas daninhas resistentes, problema que vem se agravando atualmente.
Para o controle das plantas daninhas na cultura da alface, atualmente no Brasil, há o registrado junto à ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de três ingredientes ativos comercializados que estão presentes em quatro marcas comerciais.
Esta pequena quantidade de produtos registrados é um fator limitante para o uso dos herbicidas na cultura da alface. Esta é uma realidade para a olericultura em geral, o que muitas vezes induz o agricultor a utilizar produtos não registrados para a cultura, o que não é correto.
Hoje em dia, há estudos no MAPA que visam à extensão do emprego de outros ingredientes ativos registrados para outras culturas e que possam ser aplicados de forma segura na cultura da alface.
Estes estudos estão sendo conduzidos em função de pesquisas realizadas nos aspectos agronômicos de eficiência e praticabilidade de uso, toxicologia e impacto ambiental (Portaria nº 84/94).
Cabe salientar, mais uma vez, que o uso de herbicidas deve fazer parte de um programa de manejo integrado no controle das plantas daninhas cuja indicação de uso é de responsabilidade de um engenheiro agrônomo devidamente habilitado.
Algumas características referentes ao uso dos ingredientes ativos registrados para o controle de plantas daninhas na cultura da alface no Brasil e sua respectiva identificação comercial e observações relevantes de uso estão disponíveis na Tabela 1.

A ordem dos produtos, por ingrediente ativo, não representa qualquer tipo de preferência de uso. As observações apresentadas na Tabela 1 são apenas indicações gerais, que deverão ser ratificadas ou retificadas após criteriosa análise realizada por um engenheiro agrônomo habilitado e responsável pela implantação de programas de manejo integrado.
Na escolha de um determinado herbicida, é de grande importância possuir uma visão agroecológica criteriosa, e que tenha como objetivo alcançar uma produção favorável para que o agricultor possa obter lucro.
Nesta dualidade, a escolha de qual herbicida a ser utilizado, além da dosagem e número de aplicações, é imprescindível buscar a dicotomia de máxima eficiência e mínimo impacto ambiental.
Finalizando, para obter o controle das plantas daninhas em uma área destinada à cultura da alface, é necessário ter em mente uma unidade produtora que seja planejada e bem conduzida e de responsabilidade técnica de um engenheiro agrônomo com autonomia de escolher, dentre os diversos métodos de controle, aqueles que serão mais apropriados para um programa de manejo integrado das plantas daninhas.
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Fonte
COLARICCIO, Addolorata; CHAVES, Alexandre Levi Rodrigues. Aspectos Fitossanitários da Cultura da Alface. 1ª ed. São Paulo - SP: Instituto Biológico, 2017.