Agricultura

Classes de Solo e Irrigação

Daniel Vilar
Especialista
12 min de leitura
Classes de Solo e Irrigação
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Os Latossolos têm geralmente profundidades maiores de que todos os demais solos; estão nas posições mais estáveis da paisagem (relevo plano), enquanto os Litólicos, quase sempre associados aos afloramentos de rocha, ocupam posições muito instáveis (de relevo acidentado). Os solos com B textural constituem um grupo muito heterogêneo, mas com espessura, em geral, intermediária entre Latossolos e Cambissolos.

Latossolos

Os Latossolos ocorrem tipicamente nos chapadões, em relevo plano, e normalmente apresentam baixa fertilidade natural e excelentes condições para mecanização. Mesmo sendo muito argilosos (nos Latossolos, o teor de argila varia muito pouco conforme a profundidade), podem apresentar uma grande permeabilidade, graças à estrutura granular muito pequena e muito bem expressa.

Os Latossolos apresentam boa conformação mesmo sob relevo um pouco mais acidentado do que o comum (plano e suave ondulado). Essa conformação faz a água das chuvas escorrer sob a forma de uma lâmina uniforme, não localizada, o que é de grande importância para o armazenamento de água e a resistência à erosão.

A grande permeabilidade e a profundidade aliadas a essa boa conformação conferem ao solo uma alta taxa de infiltração, fazendo desse solo uma grande caixa de armazenamento de água. Tal fato explica o aproveitamento da água pelas raízes a grande profundidade, proporcionando à planta umidade suficiente durante praticamente todo o ano.

Esses solos podem ter mais de 80 % de argila até o limite da classe textura franco-arenosa. As classes texturais areia e areia franca já passam a pertencer à classe dos Neossolos Quartzarênicos, nos quais a predominância quase total da fração areia implica um sistema extremamente aberto, e a capacidade de retenção de água, mesmo a altas tensões, é muito reduzida.

O tipo especial no arranjo das partículas de argila nos Latossolos pode também influir sobre a disponibilidade de água. Isto é, quando se trata de Latossolos, não há muita diferença de disponibilidade de água entre os solos quando se varia a textura, desde que a areia seja predominantemente mais fina.

Em alguns Latossolos mais argilosos, há um aumento no teor de argila e de silte em profundidade, tornando o sistema mais fechado e aumentando a sua capacidade de retenção de umidade.

Noutros, a distribuição granulo- métrica (proporção de argila e areia fina, como 20 % e 70 %, respectivamente) leva a criar uma grande predisposição ao encrostamento do solo em uso, principalmente com culturas expositoras. A irrigação poderá agravar esse processo.

Cambissolos

Ocorrem principalmente nas áreas mais acidentadas, associados geograficamente com os Litossolos. Por este aspecto, os Cambissolos tendem a apresentar maiores teores de silte, pouca espessura do solum, isto é, dos horizontes A e B, tendência ao encrostamento, portanto, constituindo-se num grande desafio no que se refere ao seu uso (RESENDE, 1985).

Tudo isso em conjunto sugere que tais solos devem ser considerados como marginais para irrigação, até que se tenham maiores informações de pesquisa sobre o uso e manejo deles.

Em regiões mais secas e em depósitos aluviais antigos, há ocorrência de Cambissolos em relevo plano, os quais já têm maior probabilidade de sucesso com culturas irrigadas. Mesmo aí, a baixa permeabilidade, os teores de silte elevados e a grande tendência ao encrostamento são dignos de registro.

Neossolos Litólicos

São rasos, possuindo, em geral, uma fina camada de material terroso sobre a rocha. Normalmente estão associados a muitos afloramentos de rocha.

Os sistemas de solos Litólicos são, portanto, altamente instáveis, o que, em associação aos afloramentos de rocha, sugerem que, por ora, apenas os sistemas de irrigação por aspersão e localizada mereçam atenção.

Solos com B Textural

Ao contrário dos solos comentados até agora, os solos com B textural caracterizam-se por uma grande diferença no teor de argila, que aumenta conforme a profundidade. O horizonte A é menos argiloso que o horizonte B. Isso quase sempre significa uma mudança (diminuição) na permeabilidade, conforme a profundidade.

O conjunto de solos B textural é tão heterogêneo que não permite sintetizar comentários relativos à irrigação. Há necessidade de fazer subdivisões.

Planossolos

Esta subdivisão corresponde a solos que apresentam algumas evidências de drenagem deficiente. Os solos dessa subdivisão podem ser ordenados de acordo com a saturação de sódio (Fig. 7).

O aumento relativo do teor de sódio torna o solo um ambiente inóspito para a maioria das culturas.

O Planossolo típico (Hidromórfico Cinzento) é apropriado ao cultivo de arroz irrigado, podendo, com sistemas eficientes de drenagem, ser cultivado com milho, soja e pastagem. Nos Planossolos que ocupam relevo mais plano e cotas baixas, deve ser considerado o risco eventual de inundações em épocas chuvosas (KLAMT at al., 1985).

Os Planossolos com horizonte A espesso e arenosos apresentam limitações para uso com lavouras irrigadas por inundação ou infiltração, por requererem maior consumo de água.

No levantamento de reconhecimento dos solos do Rio Grande do Sul, representando aproximadamente 5 % da área mapeada, foi registrado o Brunizem Hidromórfico (BRASIL, 1973), solo que apresenta horizonte B textural ou B incipiente. É de difícil manejo por conta da presença de argilo-minerais expansivos; mas o arroz irrigado apresenta alta produtividade nesses solos (KLAMT et al., 1985).

Solos Hidromórficos

Ocupam, geralmente, as partes de depressão da paisagem. Em condições de lençol freático elevado, a irrigação por superfície deve ser preferida (SCALOPPI, 1986). Segundo Finkel e Nir (1959).

Somente se houvesse um sistema de drenagem subterrânea efetivo e um controle rigoroso do volume de água aplicada, é que se justificaria a irrigação superficial. Há, no entanto, solos hidromórficos de surgente (formados nas cabeceiras das veredas-várzeas ou em clareiras de vegetação rasteira, com palmáceas) que apresentam declives acentuados.

Os solos hidromórficos gleizados, de coloração cinza e esbranquiçada, possuem permeabilidade muito baixa. Ao longo dos canais de drenagem, é comum a ocorrência de desbarrancamento, que é criado pelo desnível entre o fundo do canal e a superfície do terreno.

Como o conjunto dos solos hidromórficos é bastante diversificado, serão feitos comentários sobre alguns tipos, isoladamente ou em conjunto.

Gleissolos

São solos minerais que apresentam um horizonte A espesso e escuro (antigo Glei Húmico) sobre horizonte geralmente gleizado. A textura é média (menos de 35 % de argila e mais de 15 % de areia, excluídas as classes texturais areia e areia franca) ou argilosa (35 % a 60 % de argila) a muito argilosa (> 60 % de argila) em todos os horizontes, apresentando ausência de gradiente textural, o que os diferenciam dos Planossolos.

Se um solo parecido Aluvial (sucessão de camadas estratificadas) apresentar cores acinzentadas nos primeiros 60 cm de profundidade, ele será considerado como um Solo Hidromórfico.

São solos apropriados ao cultivo de arroz irrigado. Se drenados, podem ser utilizados com pastagem, hortaliças, milho, feijão, cana-de-açúcar e outras.

Como sugestões básicas de manejo, sugere-se a drenagem artificial das partes mais alagadas e a correção da fertilidade por meio de calagens e adubações, conforme as recomendações baseadas na análise de solo, observados os aspectos econômicos.

O Gleissolo Tiomórfico apresenta compostos de enxofre e mosqueados (comumente alaranjados) de jarosita. Após drenagem artificial e conseqüente oxidaçào, torna-se bastante ácido - pH em H2O (1:1) < 3,5 -, o que o torna impróprio a qualquer uso agrícola. Esse tipo de solo exala mau cheiro.

Organossolos

Diferem dos demais solos de várzea por apresentarem horizonte turfoso, contendo teor de carbono orgânico acima de {19 + 0,15 x (% argila)}. Por exemplo, se possuir 60 % de argila, deverá ter mais de 18 % de carbono orgânico, maior que 50 % nos primeiros 80 cm de profundidade. São as "turfas", que se incendeiam com facilidade.

Essa classe abrange solos geralmente pobres (alguns podem ser ricos na camada mais superficial), ácidos e com elevada relação C/N. Tanto a espessura da camada de material orgânico e seu estágio de decomposição, como a composição química, a mineralógica e a textura do substrato podem variar bastante.

O grau de subsidência, o armazenamento da água, a densidade do solo e o espaço poroso, entre outros, são muito afetados pelo teor de fibras do material. São características de grande ajuda na identificação desses solos: seu aspecto orgânico e a sensação turfosa ao tato, além da impressão que passam, ao se caminhar sobre eles, de estarem flutuando sobre a água (sensação de colchão d'água) (KLAMT et al., 1985).

Tais solos, quando drenados e cultivados, estão sujeitos a mudanças significativas e contínuas nas suas características e propriedades. Em caso de substrato arenoso e raso, tiomorfismo (quantidades elevadas de sulfetos e/ou sulfatos), alta salinidade, teores muitíssimo elevados de carbono orgânico (> 38 %), posição inadequada à drenagem por gravidade e locais de impacto sobre o ecossistema local, os solos orgânicos devem ser evitados para fins agrícolas (SIMPÓSIO NACIONAL DE SOLOS ORGÂNICOS, 1984).

Quando esses solos têm condições adequadas ao uso agrícola, podem ser aproveitados para o cultivo de hortaliças.

Esses solos exigem muitos cuidados no uso e na preservação. Os drenos devem ter talude inclinado, para evitar o desbarrancamento. A drenagem não deve ser profunda, para diminuir a taxa de subsidência (rebaixamento da superfície) e a desidratação irreversível da camada superficial. Por essa razão, seria conveniente fazer a irrigação por superfície (CURI et al., 1988) ou por aspersão (SIMPÓSIO NACIONAL DE SOLOS ORGÂNICOS, 1984), observadas as viabilidades econômica e operacional.

Plintossolos

A presença do horizonte plíntico (horizonte contendo mosqueados vermelhos, amarelos, macios quando úmidos, mas que endurecem irreversivelmente quando secam, formando nódulos duros), dentro dos primeiros 40 cm, é tida como a principal característica distintiva desse tipo de solo (EMBRAPA, 1982). Apresenta restrições temporárias à percolação da água ou oscilação do lençol freático.

Deve ser utilizado preferivelmente com arroz irrigado ou pastagens, em virtude da possibilidade de endurecimento irreversível da plintita quando esse solo sofre ressecamento no horizonte B, o que vai limitar a profundidade desses solos para o desenvolvimento do sistema radicular (KLAMT et al., 1985).

Vale ressaltar que nem todo Plintossolo é hidromórfico.

Vertissolos

São solos com alto teor de argila - 2:1 expansiva (argila do grupo das esmectitas) têm alta fertilidade, mas apresentam problemas relacionados com suas propriedades físicas (ressecamento e fendilhamento no período seco e expansão no período chuvoso). São indicados para pastagens e cultivos de arroz irrigado. Quando bem drenados, podem ser utilizados com outras culturas.

Apenas parte da classe dos Vertissolos é hidromórfica.

Solos Halomórficos

Encontram-se em depressões onde pode ocorrer excesso de sais, que são trazidos, pela enxurrada, das elevações circunvizinhas, ou pelo lençol freático. Muitas vezes o local é rico em sais por causa de depósitos marinhos. Nessas depressões, com excesso de água (pelo menos temporários) e de sais, são formados os solos Salinos.

A drenagem deficiente, observada em áreas irrigadas, pode ser o principal fator responsável pela salinizaçáo de solos originalmente náo- salinos (SCALOPPI; BRITO, 1986). Também o excesso de fertilizantes, de corretivos, de herbicidas e de inseticidas pode contribuir para isso.

A remoção dos sais solúveis provocada pela lixiviaçáo, utilizando-se água não-salina, favorece a germinação de sementes e o desenvolvimento radicular, tornando os solos normais. A tolerância da cultura ao excesso de sais é também um fator crítico.

Geralmente, o feijoeiro, o rabanete, as rosáceas, os citros, o morango e o abacateiro são enquadradas como culturas sensíveis; a maioria dos cereais e das culturas olerícolas, como figueira, videira e meloeiro, são consideradas tolerantes; e as de cevada, beterraba açucareira, algodão, capim-rhodes, capim-bermuda, aspargo, espinafre, muito tolerantes.

Neossolos Flúvicos

Se os solos hidromórficos estão associados a depressões, os aluviais, por sua vez, encontram-se em posição um pouco mais elevada - calha do rio - (Fig. 8).

Os solos aluviais são caracteristicamente muito variáveis a pequenas distâncias, tanto na horizontal quanto na vertical. A disposição de camadas (depositadas durante as inundações nas margens dos rios e lagoas – camadas estratificadas), de textura arenosa e textura mais fina, pode ter muita influência sobre o regime hídrico do solo.

Sob esse aspecto, uma das melhores combinações ocorre quando, a uma parte mais superficial, espessa e arenosa, seguem-se lâminas de textura mais fina. A água da chuva ou da irrigação infiltra-se com facilidade, mas é impedida de deixar, em grande parte, o sistema, pela baixa permeabilidade de um lado e pela baixa capilaridade de outro.

Na maioria dos casos, a fertilidade natural, aliada ao relevo plano ou quase plano, em que se encontram os solos dessa classe, praticamente não havendo problemas para o emprego de maquinaria agrícola, confere a esses solos condições adequadas para uma utilização agrícola intensiva, com as mais diversas culturas anuais, destacando-se milho, feijão, arroz e algodão. Podem, no entanto, apresentar limitações quanto à fertilidade e ao excesso de umidade, variando esta última limitação conforme a estação do ano.

Nas partes mais úmidas, onde os riscos de inundação são mais freqüen- tes, deve ser feita a drenagem. Também recomenda-se, quando for o caso, a correção da fertilidade, por meio de calagens e adubações, tendo por base a análise de solo.

Rotação de culturas e sistemas variados de preparo do solo (gradagem, plantio direto, lavração profunda, cultivo mínimo, etc.) são importantes quando se tem em mente a manutenção das condições físicas satisfatórias desses solos.

Para superar a elevada variabilidade segundo as características físicas, químicas, mineralógicas e morfológicas dos solos Neossolos Flúvicos, os sistemas de irrigação por aspersão convencional, localizada e subsuperficial parecem ser as melhores alternativas (SCALOPPI, 1986).

Por meio de simples modificações operacionais, ou mesmo dimensionais, esses sistemas podem atender a eventuais variações de características de armazenamento e movimentação de água no perímetro irrigado, o que, sem sombra de dúvida, seria mais difícil de se conseguir nos sistemas por superfície, ou em alguns equipamentos mecanizados por aspersão, como o pivô central, o deslocamento linear e o autopropelido.

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Fonte

DE ALBURQUERQUE, Paulo Emílio Pereira; DURÃES, Frederico Ozanan Machado. Uso e Manejo de Irrigação. 1ª ed. Brasília - DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2008.

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