Agricultura

Chuvas comprometem qualidade do café arábica gourmet no Brasil

Queda de frutos e problemas na secagem reduzem oferta de grãos especiais e elevam prêmios no mercado físico

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
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Conseguir os melhores grãos de café arábica pode ficar mais difícil para torrefadoras premium e consumidores exigentes. Uma onda de fortes chuvas atingiu as lavouras do Brasil, maior produtor mundial, atrasando a colheita e comprometendo a qualidade em importantes regiões produtoras.

De acordo com a Bloomberg, as chuvas não apenas derrubaram grande quantidade de frutos maduros dos cafeeiros, como também expuseram as cerejas caídas ao solo encharcado, aumentando o risco de contaminação por fungos e resultando em sabores indesejáveis de mofo e bolor. O problema afeta diretamente os cobiçados grãos usados nas melhores combinações vendidas por marcas como Starbucks, Lavazza e Illycaffè.

O impacto das chuvas em números

No Cerrado Mineiro, uma das principais regiões produtoras de arábica do país, os agricultores mal haviam começado a colheita quando as chuvas de junho derrubaram frutas maduras. Segundo Simão de Lima, CEO da cooperativa Expocacer, que representa mais de 800 produtores na região, em média 20% dos frutos da safra foram derrubados pelas chuvas tropicais – ante cerca de 5% a 7% em um ano típico.

O problema não parou por aí. Uma segunda onda de chuvas, em julho, atingiu o café que já estava sendo seco, obrigando alguns produtores a reiniciar o processo de secagem e comprometendo ainda mais a qualidade. Em algumas partes do cinturão cafeeiro brasileiro, as chuvas atingiram de 250% a 500% dos níveis normais em junho e julho, com algumas áreas recebendo até oito vezes o volume habitual, segundo a empresa de meteorologia Vaisala.

Consequências para o mercado

O impacto das chuvas já afetou os preços. Os futuros do café arábica subiram cerca de 35% desde junho, revertendo grande parte das quedas acumuladas neste ano. No mercado físico, cafés finos brasileiros são negociados com prêmios de até 15 centavos de dólar por libra-peso sobre os futuros de Nova York.

O problema de qualidade também significa que haverá menos café disponível para recompor os estoques nos armazéns certificados pela Intercontinental Exchange (ICE) nos EUA e na Europa, que balizam os contratos de referência e se aproximam do menor nível deste século.

Normalmente, os grãos que atendem aos critérios da ICE representam de 30% a 35% da produção. Com a queda incomum dos frutos neste ano, o percentual pode ficar mais próximo de 10% a 15%, estima Lima.

Exemplo prático para o consumidor e o produtor

Para o consumidor, a notícia significa que a xícara de café premium pode ficar mais cara ou mais difícil de encontrar. As grandes torrefadoras têm alternativas – como repassar custos mais altos aos preços no varejo ou combinar cafés de diferentes regiões – mas os apreciadores de um bom arábica podem sentir os efeitos.

Para o produtor brasileiro, o cenário traz um alerta: mesmo com uma safra abundante projetada (o USDA estima um excedente global de 10 milhões de sacas, o maior em seis anos), a qualidade é um fator que pode limitar os ganhos. O desafio agora é gerenciar a colheita e a secagem para minimizar as perdas de qualidade.

🔧 Orientações para o produtor de café:

1. Monitore o clima de perto: com eventos climáticos extremos se tornando mais frequentes, ter acesso a previsões meteorológicas precisas e planejar a colheita com antecedência é essencial para reduzir perdas.

2. Invista em infraestrutura de secagem: ter estruturas cobertas para secagem pode evitar que os grãos sejam molhados novamente por chuvas inesperadas, preservando a qualidade.

3. Gerencie o ponto de colheita: colher os frutos no momento ideal reduz o risco de queda excessiva e contaminação.

4. Diversifique estratégias de venda: com a demanda por cafés de qualidade se mantendo forte, produtores com grãos de boa qualidade podem conseguir prêmios atrativos no mercado. Avalie a possibilidade de segmentar as vendas.

5. Fique atento ao mercado de certificação: grãos que atendem aos critérios da ICE têm demanda garantida. Manter a qualidade é essencial para acessar esse canal.

O cenário é um lembrete de que, no agronegócio, o clima continua sendo um dos fatores mais determinantes – e imprevisíveis – para a rentabilidade da safra. Estar preparado é a melhor defesa.

Fonte: Bloomberg.

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