Agricultura

Adubação verde ganha espaço no campo

Daniel Scotá
Especialista
5 min de leitura
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Melhorar a fertilidade do solo, reduzir gastos com fertilizantes e aumentar a sustentabilidade da produção. Esses são alguns dos benefícios que vêm impulsionando o uso da adubação verde nas propriedades rurais brasileiras.

Conceito e Importância Estratégica

Adubação verde é o cultivo de plantas com o objetivo específico de melhorar a fertilidade do solo e as condições para o cultivo subsequente. Ao contrário dos adubos sólidos transportados externamente, a adubação verde representa a produção "in loco" de biomassa e nutrientes, com custos operacionais reduzidos e múltiplos benefícios ecossistêmicos.

A palhada e a cobertura morta de solo são estratégias complementares que mantêm os resíduos vegetais na superfície, sem incorporação, protegendo o solo e liberando nutrientes gradualmente via decomposição superficial.

Leguminosas: Fixação Biológica de Nitrogênio

As leguminosas representam a estratégia mais eficiente e econômica de aporte de nitrogênio ao solo via adubação verde. A simbiose entre as raízes das leguminosas e bactérias do gênero Rhizobium, Bradyrhizobium e Mesorhizobium, mediada por nódulos radiculares, permite a fixação biológica de N₂ atmosférico (FBN), convertendo o gás N₂ em amônia (NH₃) utilizável pelas plantas.

A quantidade de N fixado varia com a espécie vegetal, a estirpe da bactéria, as condições edafoclimáticas e o manejo:

Espécie

N Fixado (kg N/ha/ano)

Biomassa (t MS/ha)

Observações

Crotalária juncea

150–300

6–12

Alta produção de biomassa, controle de nematoides

Crotalária spectabilis

100–200

4–8

Específica para controle de Meloidogyne

Mucuna preta

100–250

5–10

Tolerante à sombra, supressão de invasoras

Feijão-de-porco

80–200

4–8

Excelente adaptação a solos pobres e ácidos

Feijão guandu (Cajanus cajan)

100–200

4–10

Perene, reciclagem de P profundo

Soja

100–300

3–6

Alta eficiência com inoculante específico

Ervilhaca (Vicia sativa)

80–150

2–5

Cultivo de inverno, temperado-subtropical

Tremoço branco

100–200

3–6

Inverno, solubiliza P insolúvel

Tabela 3. Principais espécies de leguminosas para adubação verde e suas contribuições. Fonte: Embrapa Agrobiologia; MAPA; pesquisa bibliográfica.

Gramíneas e Culturas de Cobertura

Gramíneas e outras espécies não leguminosas são utilizadas principalmente pela elevada produção de biomassa (C/N alto), que favorece a formação de palhada persistente no sistema plantio direto:

•       Braquiárias (Urochloa spp.): produção de 8–15 t MS/ha, palhada persistente por 6–12 meses

•       Milho e sorgo: 10–18 t MS/ha, relação C/N 40–60:1, excelente cobertura em clima tropical

•       Aveia preta: 3–6 t MS/ha, cultivo de inverno, cobertura para soja

•       Nabo forrageiro (Raphanus sativus): 2–5 t MS/ha, ciclagem de P e N, descompactação

•       Girassol: 4–7 t MS/ha, reciclagem profunda de Ca e Mg

•       Milheto: 8–15 t MS/ha, alta tolerância à seca, cobertura para regiões semiáridas

Misturas de Cobertura ("Coquetel de Adubos Verdes")

A associação de leguminosas com gramíneas em misturas equilibra a relação C/N da palhada produzida (ideal: 20–30:1 para liberação gradual de nutrientes), otimiza o uso da área, diversifica a biologia do solo e potencializa os serviços ecossistêmicos. Exemplos de misturas consagradas:

•       Braquiária + Crotalária juncea: palhada volumosa + FBN (sistema integrado lavoura-pecuária)

•       Aveia preta + Ervilhaca: cobertura de inverno equilibrada para Região Sul

•       Milheto + Feijão guandu: cobertura de verão para Cerrado e semiárido

•       Sorgo + Mucuna cinza: consórcio tardio pós-milho, alta produção de biomassa

Manejo da Palhada e Sincronismo de Nutrientes

Um dos principais desafios na adubação verde é o sincronismo entre a liberação de nutrientes pela decomposição da palhada e as fases críticas de demanda das culturas comerciais. Alguns princípios práticos:

•       Incorporar ou triturar o adubo verde 15 a 30 dias antes do plantio para materiais de baixa C/N

•       Palhadas com alta C/N (> 35:1) devem permanecer na superfície no sistema plantio direto e não serem incorporadas

•       Em leguminosas: a incorporação antes do florescimento (máximo conteúdo de N na parte vegetativa) maximiza a disponibilização de N

•       Considerar o efeito residual: a Crotalária juncea incorporada pode substituir 40–80 kg/ha de N mineral na cultura subsequente

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