A Ocorrência de Solos Ácidos e a Prática da Calagem
Na importante região do cerrado, palco da maior ampliação da área agrícola do mundo nas últimas décadas, mas também em outras regiões, há quase absoluta predominância de solos com elevadas saturações por alumínio e baixos teores de cálcio ao longo do perfil. Essa condição impede o desenvolvimento radicular no subsolo de muitas culturas, significando plantas mais suscetíveis a períodos de falta de água, o que limita a produtividade.
A calagem é importante prática agrícola para a correção da acidez, dos solos. Contudo, seu efeito em geral fica restrito à camada superficial do solo, não resolvendo o problema da acidez subsuperficial, embora possa atenuá-la em alguns casos, principalmente em condições de revolvimento frequente do solo, como na agricultura convencional. Calagens profundas têm mostrado, por meio de aumentos de produção, que a acidez do subsolo prejudica a produtividade. Contudo, incorporar calcário a grandes profundidades é prática excessivamente onerosa, não sendo viável do ponto de vista econômico. Por outro lado, alguns desses mesmos experimentos mostraram que o gesso, um sal solúvel que penetra no solo, pode aliviar a acidez do subsolo, sem que seja necessário revolvê-lo.
A descoberta do efeito do gesso em subsolos, promovendo desenvolvimento radicular com aproveitamento da água em camadas mais profundas de solos durante veranicos, criou a expectativa de ser possível melhorar solos ácidos ao longo do perfil, para estimular o maior crescimento radicular. O gesso, sal neutro, solúvel em água, penetra no subsolo, onde reduz o efeito tóxico que o alumínio tem sobre as raízes, além de eliminar a deficiência de cálcio, que também impede o desenvolvimento radicular.
Segundo estimativa de Eswaran e outros (1997), com base em dados da FAO e de outras organizações, solos ácidos ocupam em tomo de 3,8 bilhões de hectares no mundo, correspondendo a 25,9% da área total de solos. A maior parte dos solos ácidos está na América do Sul, onde ocupam 1,2 bilhões de hectares, ou 66% da área total dos solos do continente.
A enorme extensão de solos ácidos no Brasil não encontra paralelo no mundo. Eles predominam em quase todas as regiões, só ocupando áreas relativamente menores no semiárido nordestino (Olmos e Camargo, 1976). Na importante região dos cerrados do Brasil Central, palco da maior ampliação da área agrícola no mundo nas últimas décadas, a predominância de solos ácidos com elevadas saturações por alumínio trocável e teores baixos de cálcio é quase absoluta em solos não cultivados, conforme registram vários autores que escreveram livros sobre solos e agricultura da região dos cerrados (Goedert, 1983; Lopes, 1983; Goedert, 1985; Malavolta e Kliemann, 1985; Sousa, 2002; Harrington e Sorensen, 2004). Pode-se dizer que a Amazônia, com área ainda maior, segue o mesmo padrão de solos ácidos, com os baixos teores de cálcio e as elevadas saturações por alumínio encontrados em solos dos cerrados.
Na década de 1970, o Brasil passava por uma fase em que a fertilidade do solo era um dos principais focos de atenção na agricultura. De um lado havia solos de áreas agrícolas antigas, originalmente férteis, desgastados por anos de uso sem correção da acidez e com adubação insuficiente para repor a fertilidade perdida por exportações pelas colheitas, erosão e degradação promovida por excessivo revolvimento do solo com arações e gradagens, que passaram a ser recuperados por meio de calagem, adubação, medidas de controle da erosão e outras práticas. De outro lado, ocorria a expansão da área cultivada em solos ácidos de baixíssima fertilidade, como os dos campos gerais e dos cerrados. A prática da agricultura nesses solos era um desafio que a agronomia brasileira enfrentou com galhardia. A pesquisa, atenta aos desenvolvimentos, criou as bases para a ocupação dos solos de baixa fertilidade, com destaque para a região dos cerrados, que logo se destacou como a mais promissora área para expansão da agricultura brasileira e até mundial.

O começo da virada da agricultura de solos naturalmente férteis, com uso mínimo de insumos, para uma agricultura com maior nível tecnológico, foi difícil. Um dos principais problemas era a elevada acidez dos solos. Identificou-se 0 alumínio, e não mais o pH baixo, como o principal fator da acidez dos solos que prejudicava as culturas. Ficou claro que a toxidez de alumínio não afetava as plantas cultivadas da mesma maneira, havendo diferenças entre espécies e até mesmo entre variedades da mesma espécie. Por isso mesmo o arroz, espécie muito tolerante a alumínio, foi muito usado corno primeira cultura em solos mal corrigidos do cerrado, muitas vezes com o objetivo de formar pastagens. Com o passar dos anos, a soja passou a ser cultivada como excelente opção, em alguns casos em rotação com outras culturas. A calagem e a adubação, com destaque para a aplicação de fósforo, foram os grandes instrumentos de construção da fertilidade do solo.
A acidez excessiva dos solos foi corrigida pela calagem, com base em resultados da análise de solo. A recomendação da aplicação do calcário é padrão: aplicar a metade do calcário antes da aração e a outra metade depois da aração, devendo-se proceder a incorporação ao solo através de gradagem. Nessa prática, ainda recomendável para áreas novas, a chamada camada arável do solo, um volume constituído de 1 hectare de área por 20 cm de profundidade, é o objeto principal das atenções, como é ainda hoje na amostragem de solo. A consideração dessa camada também facilita, e muito, cálculos sobre teores no solo e quantidades de insumos a aplicar. Neste artigo, a camada de 0-20 cm será denominada de “camada superficial”, o solo abaixo de 20 cm será denominado de “subsolo”.
De forma geral, o calcário incorporado na camada arável corrige principalmente o volume de solo em que o corretivo é misturado, por se tratar de substância insolúvel em água, que não tem mobilidade no solo, dependendo de sua acidez para dissolver. Uma vez dissolvido o calcário, os elementos cálcio e magnésio são liberados como cátions trocáveis, sendo adsorvidos à fase sólida do solo, continuando, assim, sem possibilidade de movimentação para camadas mais profundas do solo. A movimentação no solo dependerá da existência de ânions móveis, que são nitrato, cloreto e sulfato.
Na agricultura convencional, com arações e gradagens frequentes, é favorecida a mineralização da matéria orgânica que, na parte final do processo, conhecida por nitrificação, libera o ânion nitrato e o cátion hidrogênio, que por sua vez libera o cálcio trocável. Dessa forma, o nitrato de cálcio formado pode deslocar-se ao longo do perfil do solo. O nitrato, sendo absorvido em profundidade, diminui a acidez do solo; o cálcio favorece o desenvolvimento radicular. Há muitas observações em que a calagem incorporada na camada arável do solo favorece o desenvolvimento radicular em profundidade.
Presume-se, do que foi dito, que os efeitos observados em experimentos de calagem da agricultura convencional, em melhorar o ambiente radicular do subsolo, serão bem menos intensos na agricultura de conservação ou no plantio direto, já que não ocorre o revolvimento do solo.
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Fonte
RAIJ, Bernardo Van. Gesso na Agricultura. 1ª ed. Campinas – SP: Instituto Agronômico, 2008.