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A EXPERIÊNCIA DO INSETICIDA NATURAL NA HORTA ESCOLAR COMO CONTRIBUIÇÃO AO ENSINO DE GEOGRAFIA

Redação Agriconline
Equipe editorial
30 min de leitura
A EXPERIÊNCIA DO INSETICIDA NATURAL NA HORTA ESCOLAR COMO CONTRIBUIÇÃO AO ENSINO DE GEOGRAFIA
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Essa pesquisa tem como principal objetivo analisar a contribuição da experiência da produção e uso de inseticida natural na horta da escola pública, no combate as formigas cortadeiras (Saúvas), como contribuição ao ensino de geografia dos alunos do Ensino Fundamental (do 8º e 9º ano).

Trata-se de uma pesquisa qualitativa do tipo estudo de caso etnográfico. O trabalho está estruturado em duas partes. Na primeira - Ecologia e Conscientização: caminhos para o exercício da cidadania - apresenta uma retrospectiva do ambientalismo na política global e escolar, no qual o trabalho de geografia foi essencial ao combinar, sequencialmente, a sociedade das formigas cortadeiras comparando-a com a sociedade humana até os dias atuais. Mostra, também, Os Caminhos da Pesquisa: O Estudo de Caso Etnográfico. Na segunda parte - A experiência do inseticida natural na horta da Escola Nilson Holanda – registra a experiência pedagógica desenvolvida em uma escola pública do município de Fortaleza. Por último, apresenta as considerações finais, discutindo a necessidade de uma tomada de consciência em relação à geografia em conjunto com a educação ambiental para o aumento da formação e das ações humanas, tendo como base a horta da escola e a sociedade local, mostrando o esforço pessoal e coletivo nessa conscientização.

INTRODUÇÃO

Essa pesquisa aborda o ensino de geografia no Ensino Fundamental, focalizando o uso do inseticida natural na horta escolar. Desse modo, toma como referência uma experiência pedagógica realizada no 8º e 9º ano de uma escola pública do município de Fortaleza.

A preocupação central deste trabalho pode ser assim resumida: qual a colaboração da experiência do inseticida natural na horta escolar como contribuição ao ensino de geografia dos alunos do ensino fundamental (do 8.º e 9.º ano)? Indaga até que ponto uma experiência teórico-prática pode contribuir para a formação de cidadãos que conscientemente refletem sobre os seus direitos e deveres e dos demais grupos que compõem a sociedade para com o meio ambiente, na construção de um espaço geográfico saudável, constituindo, portanto, num veículo para a modificação da prática de determinadas ações que agridem a natureza.

A problemática das formigas cortadeiras (Saúvas) na horta da Escola e o uso do inseticida natural é o tema discutido e analisado em duas partes: A primeira parte – Ecologia e Conscientização: caminhos para o exercício da cidadania – revisa a história do movimento mundial de conscientização ecológica na política global, mostrando o ambiente escolar, e a difícil relação entre ecologia e economia e suas implicações sócio-políticas, no intuito de compreender a sociedade das formigas cortadeiras comparando-a com a sociedade humana na formação de cidadãos acríticos. Também mostra Os caminhos da pesquisa: o estudo de Caso Etnográfico, onde discorre da pesquisa qualitativa como opção metodológica, realizando uma discussão empírica.

Na segunda parte – A experiência do inseticida natural na horta da Escola Nilson Holanda – faz-se uma descrição da experiência da confecção e uso do inseticida natural junto aos alunos do 8.º ao 9.º ano e as possibilidades de contribuição, da mesma, como auxílio ao ensino de geografia dos alunos do Ensino Fundamental.

Por fim, cabe registrar que esse assunto não se esgota aqui. Ao contrário, trata-se de um ponto de partida, o qual deve ser aprofundado por outros interessados em desvendar a contribuição do uso do inseticida natural na horta escolar como componente social responsável pelo aumento da formação e das ações humanas, o que vem a facilitar a tomada de consciência em relação à responsabilidade no Ensino Fundamental.

ECOLOGIA E CONSCIENTIZAÇÃO: CAMINHOS PARA O EXERCÍCIO DA CIDADANIA

Nos dias de hoje, segundo Melo (2012, p. 38) “a modernidade com suas informações, nos mostra as constantes construções e reconstruções do espaço e nos traz uma gama de representações que nos fazem estar socialmente no mundo e entende-lo”. No entanto com “o poder de abarcar virtualmente o mundo todo ao mesmo tempo” o ser humano, na maioria das vezes, não é capaz de conhecer a localidade onde mora. Leis (1995, p. 15) nos mostra que,

Os problemas ambientais são efeitos “inesperados” do modelo de desenvolvimento econômico dominante (capitalista-industrialista), que se “legitima” atendendo as demandas de consumo da população, e que por sua vez continua aumentando dentro de um planeta com capacidade de sustentação limitada.

Ecologia, de acordo com Melo (2012, p. 38), “é o estudo das relações entre seres vivos e o meio onde vivem bem como suas recíprocas influências”. Para o autor citado,

A crise ecológica global se origina na radicalidade alcançada nos tempos modernos pela dualidade Terra

– mundo, já que esta, por ser inerente ao princípio ativo da civilização, é também inevitável. Por esta razão, a ecologia, o ambientalismo e o ethos ecológico em geral expressam a necessidade de  uma profunda transformação da humanidade em direção a uma maior solidariedade e cooperação  entre culturas, nações, indivíduos e espécies. (MELO, 2012, p. 38).

Colocadas nesses termos, as decisões necessárias para a governabilidade da crise ecológica e a consequente realização do desenvolvimento sustentável podem perfeitamente ser interpretadas a partir de uma nova teoria da ação social, com uma maior conscientização e com uma nova ordem política. Para Viola (1995, p.11), “o contínuo agravamento da crise ecológica nas últimas décadas expressa de forma clara que a ação política atual não é mais congruente com a ordem existente”. Segundo Melo (2012, p. 39), “a ordem é entendida como o conjunto de fatores que garantem a convivência e a evolução humana”, com isso, os valores, as práticas e as instituições em vigor já não produzem “ordem”, favorecendo, muito mais, à “desordem”.

O momento mais dramático da política mundial depois da guerra fria é a ausência de articulação entre o modelo de desenvolvimento econômico e de desenvolvimento ecológico necessário à sobrevivência da espécie humana. Esta foi a grande preocupação da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (UNCED-92) e do Fórum Global, realizado no Rio de Janeiro.

Leis (1995, p.28) afirma que a convergência entre ecologia e economia não é tarefa fácil; ela exige muito mais que o uso de uma razão instrumental capaz de tomar decisões adequadas, tal como sugere o neoliberalismo com sua reivindicação da eficiência intrínseca do mercado. Segundo esse autor, ela demanda uma mudança profunda do comportamento e da mentalidade de todos os atores, sejam estes pertencentes ao mercado, ao Estado ou à sociedade civil. A ecologia exige que a Terra seja considerada como um bem comum e, em consequência, que a humanidade busque e encontre valores de convergência global, com maior poder de persuasão que os interesses particulares existentes, a fim de permitir o surgimento de instituições e regras às quais a diversidade de atores, aceite se sujeitar (tornando realista, em vez de falsas, as utopias de transformação). A importância da educação ambiental na política mundial consiste, precisamente, em tornar amplamente visível e inegável a necessidade de mudança, de ajuste entre a realidade, as consciências e as expectativas.

Por ocasião da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (UNCED-92), cidadãos representando instituições de mais de cento e setenta países assinaram tratados nos quais se reconhece o papel central da educação para a “construção de um mundo socialmente justo e ecologicamente equilibrado”, o que requer “responsabilidade individual e coletiva em níveis local, nacional e planetário” (MEC, PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS – TEMAS TRANSVERSAIS, 1998,

p.181). Conforme Moraes (2004, p.34), é isso que se espera da Educação Ambiental no Brasil, assumida como obrigação nacional pela Constituição promulgada em 1988.

Para Melo (2012, p. 39),

Todas as recomendações, decisões e tratados internacionais sobre o tema evidenciam a importância atribuída por lideranças de todo mundo para a Educação Ambiental como meio indispensável para conseguir criar e aplicar formas cada vez mais sustentáveis de interação sociedade/natureza e soluções para os problemas ambientais. Evidentemente, a educação sozinha não é suficiente para mudar os rumos do planeta, mas certamente é condição necessária para isso.

Nesse contexto, fica evidente a importância de educar a população mundial e os brasileiros para que ajam de modo responsável e com sensibilidade, conservando o ambiente saudável no presente e para o futuro; para que saibam exigir e respeitar os direitos próprios e os de toda comunidade, tanto local como internacional; e para que se modifiquem tanto interiormente, como pessoas, quanto nas relações com o ambiente.

A preocupação em relacionar a educação com a vida do aluno – seu meio, sua comunidade – vem crescendo especialmente desde a década de 60 no Brasil. Exemplo disso são atividades como os “estudos do meio”. Porém, a partir da década de 70, com o crescimento dos movimentos ambientalistas, passou-se a adotar explicitamente a expressão “Educação Ambiental” para qualificar iniciativas de universidades, escolas, instituições governamental e não governamental por meio das quais se busca conscientizar setores da sociedade para questões ambientais. Segundo Moraes (2004, p.66), um importante passo foi dado com a Constituição de 1988, quando a Educação Ambiental se tornou exigência a ser garantida pelos governos federal, estaduais e municipais (Art. 225, § 1º, VI).

De acordo com a Constituição (1988, Art. VI),

Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações. Para assegurar a efetividade deste direito, incumbe ao poder público “promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente”.

Neste final de século, de acordo com o depoimento de vários especialistas que vêm participando de encontros nacionais e internacionais, o Brasil é considerado um dos países com maior variedade de experiências em Educação Ambiental, com iniciativas originais que, muitas vezes, se associam a intervenções na realidade local. Portanto, qualquer política nacional, regional ou local que se estabeleça deve levar em consideração essa riqueza de experiências, investir nela e não inibi-la ou descaracterizar sua diversidade.

É necessário ainda ressaltar que, embora recomendada por todas as conferências internacionais, exigida pela Constituição e declarada como prioritária por todas as instâncias de poder, a Educação Ambiental está longe de ser uma atividade tranquilamente aceita e desenvolvida, porque implica mobilização por melhorias profundas do ambiente, e nada inócuas. Ao contrário, quando bem realizada, a Educação Ambiental leva a mudanças de comportamento pessoal e a atitudes e valores de cidadania que podem ter importantes consequências sociais o que implica em mudanças no espaço geográfico.

O debate internacional de concepções e práticas em Educação Ambiental resultou na elaboração do “Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global”, de caráter não-oficial, durante o Fórum das Organizações Não- Governamentais (ONGs), no Eco-92. Nele, foram delineados princípios e diretrizes gerais para o desenvolvimento de trabalhos com a temática Meio Ambiente. Faz parte desse conjunto de idéias de que não se trata de ensinar de forma acrítica os conceitos da ciência da ecologia ou simplesmente reduzir a Educação Ambiental a uma visão esotérico-existencial. Essa dualidade constitui uma extrema simplificação.

Trata-se então de desenvolver o processo educativo, contemplando tanto o conhecimento científico como os aspectos subjetivos da vida, que incluem as representações sociais, assim como o imaginário acerca da natureza e da relação do ser humano com ela. Isso significa trabalhar os vínculos de identidade com o entorno socioambiental. Só quando se inclui também a sensibilidade, a emoção, sentimentos e energias se obtêm mudanças significativas de comportamento. Como Leis (1995) sintetizou a educação ambiental “é algo essencialmente oposto ao adestramento ou à simples transmissão de conhecimentos

científicos, constituindo-se num espaço de troca desses conhecimentos, de experiências, de sentimentos e energia”.

Para que o mercado possa atender as exigências ecológicas faz-se necessário encontrar fortes motivos para descolonizar a sociedade de valores e comportamentos individualistas, privilegiando valores coletivos. O grande desafio da educação ambiental é demonstrar que tem a capacidade ou potencialidade suficiente para produzir essa transformação moral da sociedade moderna.

O ambientalismo que começa a surgir a partir da segunda metade do século XX responde a uma situação similar à vivida em séculos anteriores, com a diferença de que agora a expansão do mercado está se realizando por cima das barreiras nacionais e em um planeta bastamente habitado. Neste contexto, o contra-movimento defensivo ao mercado é de caráter fundamentalmente global e não pode privilegiar as questões social e nacional, concentrando mais sua atenção na relação sociedade-natureza, na degradação de um meio ambiente que agora é percebido com uma base de recursos finitos que estabelecem severos limites a um crescimento econômico contínuo e à própria reprodução da espécie humana.

O poder transformador do mundo contemporâneo encontra-se, precisamente, na forte ancoragem da educação ambiental no mundo vivido. Para Melo (2012, p. 41),

A eficácia transformadora da educação ambiental se realiza na prática de um equilíbrio autêntico entre forças e princípios do realismo e idealismo. Uma sociedade planetária ecologicamente orientada supõe um mundo melhor, definido não apenas a partir de uma transformação instrumental da realidade, mas também de uma transformação da subjetividade humana, fazendo aflorar a verdadeira cidadania entre os homens, uma vez que esses desempenham seus deveres para com o Estado que pertencem e colocam os interesses da humanidade acima dos da pátria, tornando-se cidadãos do mundo.

No Brasil, a Lei Nº 9.795, de 27 de abril de 1999, regulamentada pelo Decreto Nº 4.281, de 25 de junho de 2002, dispõe sobre a Educação Ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental e dá outras providências. De acordo com o Artigo 1º dessa Lei,

Entende-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade.

A Educação Ambiental, por si só, não pode resolver os problemas ambientais, mas é um dos principais instrumentos para promover a consciência da importância do meio ambiente na qualidade de vida. Foi com base dessa compreensão que se criou projetos, em que a ideia central é detectar a influência dos conhecimentos adquiridos durante o processo educativo na convivência da população com o meio ambiente.

A Escola Pública é uma área que guarda uma grande particularidade expressa por sua diversidade de alunos e exige conhecimentos, adoção de tecnologias e definição de prioridades apropriadas à sua realidade para que se alcance um nível de conhecimento suficiente, que garanta um padrão de qualidade de vida à sua população.

Na busca dessa garantia de vida é necessário desenvolver trabalhos pedagógicos utilizando a Educação Ambiental para os alunos, com o propósito de transmitir a visão correta sobre a área na qual a escola está localizada e que muitos dos alunos residem. Espera-se que, à luz dos princípios da Educação Ambiental, a aquisição de novos valores, técnicas e atitudes incentivem os alunos da Escola Pública a uma mudança de comportamento em relação à utilização dos recursos naturais e a um manejo adequado das técnicas de proteção ambiental, visando à preservação do meio ambiente e, consequentemente, à melhoria de suas condições de vida.

OS CAMINHOS DA PESQUISA: O ESTUDO DE CASO ETNOGRÁFICO

Tendo como opção metodológica uma abordagem de pesquisa qualitativa, esta proposta de trabalho busca respostas, tanto individual quanto coletiva, de forma sistemática e persistente. Neste processo de busca as respostas são expostas à discussão, à crítica e ao debate para que o conhecimento venha se consolidar. Esta pesquisa não aceita que a realidade seja algo externo ao sujeito, valorizando a maneira própria de entendimento da realidade pelo indivíduo. Busca a interpretação em lugar da mensuração, a descoberta em lugar da constatação, valoriza a indução e assume que fatos e valores estão intimamente relacionados, tornando-se inaceitável uma postura neutra do pesquisador.

Com base nesses princípios, a pesquisa qualitativa defende uma visão holística dos fenômenos, isto é, leva em conta todos os componentes de uma situação em suas interações e influências recíprocas. Trata-se de um estudo de caso etnográfico porque a principal preocupação é com o significado que têm as ações e os eventos para as pessoas ou os grupos estudados. Alguns desses significados são diretamente expressos pela linguagem, outros são transmitidos indiretamente por meio das ações, ambos descritos e avaliados pelo pesquisador.

A experiência da preparação e uso do inseticida natural na horta escolar foi uma pesquisa do tipo etnográfico em educação porque: fez uso das técnicas que tradicionalmente são associadas à etnografia, ou seja, a observação participante, a entrevista intensiva e a análise de documentos; houve interação constante entre o pesquisador e o objeto pesquisado, ou seja, o pesquisador foi o instrumento principal na coleta e na análise dos dados; houve ênfase no processo, no que estava ocorrendo e não no produto ou nos resultados finais; houve preocupação com o significado, com a maneira própria com que as pessoas vêem a si mesmas, as suas experiências e o mundo que as cerca, levando o pesquisador a apreender e retratar essa visão pessoal dos participantes; realizou-se um trabalho de campo, onde o pesquisador se aproximou de pessoas, situações, locais, eventos, mantendo com elas um contato direto e prolongado; houve a descrição e a indução e, por fim, a formulação de hipóteses, conceitos, abstrações, teorias e sua testagem.

Para isso, o pesquisador fez uso de um plano de trabalho aberto e flexível, em que os focos da investigação foram constantemente revistos, as técnicas de coleta reavaliadas, os instrumentos reformulados e os fundamentos teóricos repensados. Esse tipo de pesquisa visa à descoberta de novos conceitos, novas relações e novas formas de entendimento da realidade.

Como referência empírica foi tomada a experiência pedagógica da preparação e uso do inseticida natural na horta observada na Escola Nilson Holanda em um bairro da periferia de Fortaleza, com turmas do Ensino Fundamental. Como fonte primária foi utilizada o depoimento, coletado através de entrevistas, com alunos sobre esta experiência.

A EXPERIÊNCIA DO INSETICIDA NATURAL NA HORTA DA ESCOLA NILSON HOLANDA

Na Escola Nilson Holanda, início do ano 2016, foi apresentado a quatro grupos de estudantes do 8º e 9º ano, um projeto para se preparar e usar um inseticida natural, desenvolvido à base de um produto da natureza, Angico (Anadenanthera macrocarpa), destacando o combate as formigas cortadeiras (Saúvas) na horta da Escola como forma de recuperação de áreas degradadas e como contribuição à educação ambiental.

Para que o assunto inseticida natural na horta escolar fosse levado até os grupos de alunos, utilizou-se como base o projeto de Melo (2015) intitulado o inseticida natural na horta escolar como contribuição a educação ambiental, sendo dividido nas etapas que se seguem:

  1. identificando as informações do grupo sobre o tema: foi realizado um questionário com perguntas subjetivas e pessoais, que objetivou fazer um levantamento dos conhecimentos e pré-conceitos existentes entre os integrantes do grupo de trabalho.

Diante das respostas obtidas, observou-se que para 80% dos entrevistados, no que se refere ao que é inseticida natural responderam: “inseticida natural é veneno”, “é qualquer tipo de veneno feito com produtos da natureza”. Quanto ao tratamento dado a horta escolar com inseticida natural, a maioria, responderam que não sabiam do que se tratava. Os 20% que conheciam algo sobre o tema achavam o inseticida natural um dos pontos principais para a proteção da natureza e para a sobrevivência do próprio homem.

Na opinião de cada entrevistado sobre o homem ser capaz de usar, sem abusar a natureza, observou-se que 80% das respostas foram “não”, o que demonstra uma compreensão de que o progresso implica, obrigatoriamente, na destruição da natureza pelo homem. Entretanto, é preciso registrar também, que se verificou entre os alunos entrevistados certa compreensão de que a exploração da natureza articula-se com questões sócio- econômicas, sinalizando uma visão mais crítica e menos determinista por parte desses. Apenas 20% responderam que o homem é capaz de usar a natureza sem abusar, acrescentando ainda que para isso acontecer é preciso conscientizar o homem da importância da natureza para sua própria sobrevivência. Para isso é preciso zelar por ela, evitando agressões como: queimadas, utilização de agrotóxicos, poluição do ar e de rios entre outras, porque o homem é essencialmente inteligente, quando capaz de progredir sem destruir.

Quando analisada as respostas da última pergunta, se o entrevistado se acha responsável pela natureza, por unanimidade todos responderam que “sim”.

  • aula de campo: nesta segunda etapa do trabalho, com atividade interdisciplinar, que uniu geografia, ciências e matemática, o objetivo foi realizar uma observação “in loco” do tamanho do formigueiro existente na área escolar, próximo da sua horta. Realizou-se a medida do raio do formigueiro para, em seguida calcular o seu diâmetro. (Figuras 1 e 2).

Figuras 1 e 2 – Observação “in loco” do tamanho do formigueiro

Fonte: Acervo do autor.

  • oficina geográfica: com o objetivo de mostrar a importância da preparação e uso do inseticida natural na horta escolar, a oficina geográfica, com duração de duas horas, foi organizada por equipes de 8º e 9º ano. Neste momento os alunos foram orientados para levarem água, laranja, farinha de trigo e folhas de Angico (Anadenanthera macrocarpa). Na sala de refeitório, com o material e todos sentados, duas alunas colocavam a água e as folhas de Angico (Anadenanthera macrocarpa) dentro do liquidificador para bater e, em seguida depositavam em uma bacia, onde espremiam a laranja e acrescentavam a farinha de trigo.

Com isso misturavam até dar o ponto de massa, ou seja, descolar das mãos. Após a massa pronta, cada turma, confeccionava bolinhas minúsculas, do tamanho do grão de arroz, que eram colocadas dentro de um pote. (Figuras 3 e 4).

Ao final, com as bolinhas prontas, cada dupla, protegida com luvas, pegava uma porção e colocavam em cada entrada do formigueiro e, através da observação começaram a perceber que “as formigas estavam carregando as bolinhas para dentro do formigueiro”, fato esse, que constatou que diante deles estava um belíssimo trabalho feito com produto natural e com o esforço pessoal, e muito pouco gasto com material. Com isso começaram a perceber a importância econômica do inseticida natural. (Figuras 5 e 6).

Figuras 3 e 4 – Preparação do Inseticida Natural

Fonte: Acervo do autor.

Figuras 5 e 6 – Preparação do Inseticida Natural

Fonte: Acervo do autor.

  • pesquisa sobre a sociedade das formigas: dando continuidade ao processo de formação e conscientização dos alunos, articulando teoria e prática, desenvolveu-se uma atividade de pesquisa sobre a sociedade das formigas cortadeiras. Essa etapa teve como objetivo comparar a sociedade das formigas com a sociedade humana. O tema foi desenvolvido no Laboratório de Informática Educativa - LIE, com trabalhos diferenciados, como mostra alguns resumos:

Equipe 1- As formigas são animais pertencentes à família “Formicidae”, o grupo mais numeroso dentre os insetos. São seres particularmente interessantes porque formam níveis avançados de sociedade, ou seja, a “eusocialidade”. Todas as formigas são consideradas

como   insetos “eusociais”,   fazendo   parte   da   ordem “Hymenoptera”.   As    formigas estão distribuídas por todas as regiões do planeta, exceto nas regiões polares. As formigas são o gênero animal de maior sucesso na história terrestre, constituindo de 15% a 20% de toda a biomassa animal terrestre. Acredita-se que o surgimento das formigas na Terra deu-se durante o período Cretáceo (há mais de 100 milhões de anos) e pensa-se que elas evoluíram a partir de vespas que tinham aparecido durante o período Jurássico. O estudo das formigas denomina-se “mirmecologia”. No Brasil entre as várias espécies de formigas, podemos destacar a Saúva, também conhecida como “formiga cortadeira”, que é a mais temida na horta. (Figura 7).

Figura 7 – A Saúva é conhecida como “formiga cortadeira”.

Fonte: Acervo do autor/pesquisa dos alunos.

Equipe 2 – As formigas são animais com capacidade para viver em sociedade. Dessa forma, em uma colônia, existem formigas da mesma espécie. Mas, isso não é tudo, uma vez que a atividade que elas irão desempenhar irá depender exatamente de suas habilidades. Fazendo uma comparação podemos dizer que a sociedade humana é tão cheia de regras como a sociedade das formigas, uma vez que elas, também contam com funções definidas dentro de suas colônias, com tarefas que se delimitem para cada uma delas. Como mostra o quadro a seguir:

Quadro 1 – Comparação da Sociedade das Formigas com a Sociedade Humana.

SOCIEDADE DAS FORMIGAS X SOCIEDADE HUMANA
AS FORMIGASOS HOMENS
SOCIEDADE HIERÁRQUICASOCIEDADE DEMOCRÁTICA
SOLDADOsoldado = a pessoa que trabalha recebendo treino e equipamento para defender o país e os seus interesses.
CARREGADORcarregador = aquele que conduz carga ou passageiros; que carrega fardos, que faz fretes.
OBREIROobreiro = que ou aquele que trabalha; operário, trabalhador.
CEIFADORceifador =  que  corta  cereais  com  foice  ou  com  outro instrumento: funcionário ceifador (trabalhador rural).

Fonte: Acervo do autor/pesquisa dos alunos.

Equipe 3 - No território brasileiro existe um nome próprio e bem específico para a sociedade das formigas, os “formigueiros”. Esses espaços subterrâneos podem reunir entre centenas até milhares de formigas; tudo vai depender da sua organização e do seu próprio tamanho, como também das tarefas a serem desempenhadas. As Saúvas possuem papel importante na natureza, porque: escavam o chão, afofam a terra e, trazem folhas picadas para

seu ninho, contribuindo para a fertilização do solo. O problema é quando atacam as plantas de forma exagerada. Tanto os inseticidas naturais, como os tóxicos não matam diretamente a formiga, eles destroem o fungo, que são alimento da formiga e, sem alimento, a formiga não sobrevive.

Equipe 4 - A formiga mais conhecida em âmbito nacional é a de gênero Saúva, que apresenta inúmeras dificuldades para a produção agrícola de nosso país, uma vez que elas conseguem devastar plantações e pomares com facilidade, unicamente cortando as folhas das plantas. É exatamente por esse motivo que essa formiga é conhecida como “cortadeira”. Cada um dos pequenos pedaços de plantas cortados pelas formigas é levado até as suas sociedades. É importante afirmar que: “as formigas não se alimentam desses pedaços de folhas”. Mas, por outro lado, elas fazem uso dos pedaços de folhas como adubo para as criações subterrâneas e internas de fungos, ou seja, para alimentar uma colônia de fungos, chamados “Rhozites gongylophora”. O fungo, no caso, é a principal fonte de alimento para esses insetos. É isso que acontece na preparação da alimentação das formigas Saúvas. (Figura 8).

Figura 8 – Passo a passo da alimentação das Saúvas

Fonte: Acervo do autor/pesquisa dos alunos.

  • apresentação dos trabalhos de equipe: Nos dias que se sucederam o trabalho interdisciplinar, que uniu a disciplina de geografia, ciências e arte/literatura foi essencial ao combinar, sequencialmente, a leitura das pesquisas sobre “a sociedade das formigas” para que houvesse o conhecimento e a fixação do conteúdo nele contido, bem como dos prejuízos e consequências provenientes da multiplicação das formigas Saúvas e, em seguida, um grande debate em equipes foi desenvolvido.

Após a semana de debates, sobre as formigas Saúvas, também conhecidas como cortadeiras, e o uso do inseticida natural, ficou claro, que deve existir uma relação dinâmica entre teoria e prática, mas a partir da realidade concreta do aluno e da escola e não de forma absolutamente mecânica. Com isso, percebeu-se que a preocupação dos alunos em relacionar a teoria (sobre o que eles sabiam a respeito do inseticida natural e como utilizá-lo) com a prática se efetiva no momento no qual eles têm que enfrentar um formigueiro real, anotar suas ações e conclusões de combate às formigas e apresentar em uma sala de aula, onde deixam de

ser simples expectadores e passam a agir e a mostrar conhecimento. No início, todos ficam encabulados e sem jeito, depois começam a mostrar o que sabem falando e ministrando a participação e regência da sala de aula.

Como conclusão dessa etapa, foi destacado o tema “Preservação Ambiental: inseticida natural na horta da escola”, quando se apresentou as fotografias da “oficina geográfica” sobre a produção do inseticida natural à base de folhas de Angico (Anadenanthera macrocarpa), explicando como fazê-lo e como usá-lo, explanando como se realizou o planejamento coletivo para implantar o uso do inseticida natural na horta da Escola, bem como a explicação das conclusões obtidas na ”pesquisa sobre a sociedade das formigas“ e sobre a educação ambiental.

  • exposição do trabalho sobre inseticida natural na Exposição de Educação, Esporte e Cultura: na Escola Nilson Holanda, no final do ano de 2016, a equipe do 8º ano do Ensino Fundamental, apresentou o trabalho mostrando a importância da preparação e uso do inseticida natural à base de folhas de Angico (Anadenanthera macrocarpa) para o combate às formigas cortadeiras – Saúvas, tendo como principal foco a proteção da natureza e do próprio homem. A exposição do trabalho, durante a semana inteira da exposição, demonstrou a preocupação dos alunos com a natureza e tentativa, dos mesmos, em conscientizar um maior número de pessoas. (Figura 9).

Figura 9 – Exposição do Trabalho sobre Inseticida Natural.

Fonte: Acervo do autor.

  • participação no VII Seminário Cultura de Paz, Educação e Espiritualidade – UFC: ao final das atividades do trabalho sobre a confecção e uso do inseticida natural na horta escolar, o mesmo foi inscrito e selecionado para o VII Seminário Cultura de Paz, Educação e Espiritualidade na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, em que foi apresentado, pelos alunos, na categoria “comunicação oral”. A síntese do trabalho encontra- se publicado nos Anais do “Grupo de Pesquisa Cultura de Paz, Juventudes e Docentes (UFC Cnpq)” no “Livro de Resumos do VII Seminário Cultura de Paz – 2016” no site https://ufcculturadepaz.webnode.com.br/.

O tema da “Roda de Conversa” tratou sobre a “Cultura de Paz, Saúde, Espiritualidade e Educação Ambiental”. Facilitada por Doutoras da UFC, a conversa girou em torno da aplicabilidade de projetos que garantam a cidadania plena e a preservação do meio ambiente.

Esta participação foi efetivada com o intuito de avaliar como o trabalho realizado contribuiu para a aprendizagem e a conscientização do aluno em relação ao tema. (Figura 10).

As afirmações ministradas na “Roda de Conversa” no Seminário apontaram que o trabalho foi positivo uma vez que apresentavam um grau de conscientização e responsabilidade muito maior, não importando a série, conforme destaca os trechos selecionados: “Há receitas de inseticidas naturais para combater a formiga cortadeira. Após estudos e pesquisas conseguimos desenvolver uma ‘isca’ e, ao mesmo tempo, ‘inseticida natural’ contra as saúvas a base de ANGICO (Anadenanthera macrocarpa) e este produto pode ter o valor de uma vida”. A questão, sobre a sua responsabilidade para com a natureza, explicaram: “No fundo todos nós somos responsáveis pela natureza que é a fonte de toda a vida, mas na maioria das vezes nós acabamos esquecendo esta preciosa lição e, se todos se conscientizassem da sua responsabilidade, a natureza não estaria tão destruída”.

Figura 10 – Participação no VII Seminário Cultura de Paz, Educação e Espiritualidade.

Fonte: Acervo do autor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A experiência do inseticida natural como contribuição ao ensino de geografia, realizada com os alunos do Ensino Fundamental é considerada uma tentativa concreta e objetiva no sentido de articular teoria e prática. Desse modo, pode-se inferir que a mesma buscou ser criadora, caracterizando-se por uma forte preocupação com o espaço geográfico e o social.

A prática social é quem define as linhas de ação que deverá ser seguida, ou seja, o professor primeiro procura conhecer a realidade de seus alunos para poder agir e nunca pensa em jogar para eles conteúdos importados, recebidos prontos, elaborados verticalmente e que não condizem com sua realidade. Assim foi o caso da experiência do inseticida natural na horta da Escola Nilson Holanda, onde se observou que no bairro em que a mesma tem sua sede e onde reside quase todo o seu corpo discente, o fator inseticida natural nunca havia sido discutido, trazendo surpresa para alunos, moradores do bairro e docentes.

É necessário que haja um elo entre aquilo que se idealiza e o real. O que se pensa tem que estar de acordo com aquilo que será posto em prática. Na prática pedagógica reflexiva, professores e alunos atuam com o mesmo objetivo, ambos são sujeitos críticos capazes de

produzir uma prática pedagógica que supere a relação autoritária sempre em busca da reciprocidade entre professor e aluno.

A prática pedagógica reflexiva é criadora e transformadora, ou seja, ela é capaz de produzir um novo homem, uma nova sociedade, um novo espaço geográfico e com isso uma nova realidade. É necessário que o professor seja consciente de tudo que o cerca, ele deve estar ciente de sua missão histórica, de suas finalidades, da estrutura da sociedade capitalista, do papel da escola dentro dessa sociedade, suas condições reais de trabalho e principalmente as possibilidades de transformações. Tem-se, portanto, que analisar criticamente as experiências concretas, bem como os problemas existentes na prática pedagógica, aos quais os professores estão sujeitos, que muitas vezes, impedem que trabalhos práticos sejam desenvolvidos e que condigam com a realidade do aluno. Tudo isso tem que ser conhecido e analisado pelos professores e alunos que anseiam desenvolver uma visão crítica da realidade em que vivem. A despeito de todas essas dificuldades, a experiência mostrou que o alvo principal, ou seja, a preparação e uso do inseticida natural na horta escolar como contribuição ao ensino de geografia dos alunos do Ensino Fundamental, no início atraído apenas pelo fator curiosidade e pela forma de como o assunto seria trabalhado, foi atingido.

No final do ano letivo, os alunos do Ensino Fundamental, representados pelos seus respectivos líderes de sala, solicitaram à Direção da Escola, que se fizesse a inscrição do trabalho sobre o inseticida natural no VII Seminário Cultura de Paz, Educação e Espiritualidade na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, sob a coordenação da professora de Geografia, no intuito de enriquecer de forma mais aprofundada o conteúdo visto e trabalhado pelos mesmos em sala de aula.

O pedido foi aceito pela Direção e a grande final foi realizada, na “Roda de Conversa” no Seminário da UFC, onde os convidados juntavam-se para observar e ouvir as apresentações feitas pelos próprios alunos. Fica evidente, que a idéia surgiu dos mesmos, não satisfeitos por estudarem a produção e o uso de inseticida natural para combater a formiga Saúva na horta da escola e, ao mesmo tempo preservar o meio ambiente, contudo observarem que nas mediações da escola, local de residência de muitos e de transição, o problema da falta de conscientização da população com a preservação do meio ambiente era enorme, fato observado durante o desenvolvimento da experiência.

O Estado do Ceará apresenta o melhor desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Ambiental (IDEA). Como parte das formações dos professores de geografia em conjunto com a educação ambiental, a metodologia incentiva os estudantes a realizarem atividades sobre a defesa do meio ambiente. E, como produto da iniciativa é realizado eventos nas escolas para divulgar a produção.

Para aumentar a conscientização da sociedade sobre o tema, reforçar a importância da erradicação dos atos de exploração e devastação do meio ambiente e fortalecer a preservação ambiental, ampliando qualitativa e quantitativamente as ações humanas, tendo como base a horta da escola e a sociedade local, se faz necessário reunir um conjunto de ações de conscientização e sensibilização nas comunidades e escolas dos bairros para salvaguardar o meio ambiente.

FONTE

MELO, Cristiane; FEITOSA, Castro. A experiência do inseticida natural na horta escolar como contribuição ao ensino de geografia. 2019.

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