Sustentabilidade

Avanço da tecnologia OGM no mercado do milho no Brasil

Daniel Vilar
Especialista
5 min de leitura
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Os dados mais confiáveis sobre a quantidade comercializada de sementes de milho no Brasil são compilados pela APPS (Associação Paulista dos Produtores de Sementes e Mudas), a partir de informações fornecidas pelas principais empresas produtoras de sementes de milho. Deve-se ressaltar que estas informações referem-se a sementes de milho efetivamente comercializadas.

Existe no Brasil uma ampla área de milho que ainda é plantada com sementes salvas pelos agricultores ou com sementes provenientes de programas conduzidos por entidades governamentais ou não governamentais, situações que podem não ser completamente captadas por estas informações.

Esta área varia em função das estimativas de área plantada de milho, a cada ano. Considerando-se os dados da Conab como referência para a área plantada e as sementes vendidas, segundo informações da APPS, as sementes salvas pelos agricultores ocupariam algo entre 15% e 18% da área plantada com milho no Brasil.

Como não existem dados sistemáticos e confiáveis sobre este segmento de produção de milho, as análises sobre adoção de tecnologias de novas cultivares concentram-se nas informações disponíveis sobre o mercado formal.

Para a safra como um todo, o percentual de sementes transgênicas de milho no total comercializado atingiu aproximadamente 64%, contra 39% na safra anterior. Na safra de verão, cerca de 58% das sementes adquiridas de milho foram de cultivares com eventos transgênicos e na safrinha este percentual atingiu cerca de 70%.

A grande diferença entre estas duas épocas de plantio, e que afetam o mercado de sementes, é que no verão estão incluídos os produtores tradicionais com menor disposição de investir em insumos de mais alto preço, enquanto na safrinha a produção de milho apresenta características comerciais.

Em quase todos os principais estados produtores de milho, as cultivares transgênicas ultrapassaram as convencionais neste ano. Dos principais estados produtores, somente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina o percentual de uso de sementes transgênicas comercializadas ficou abaixo de 50% no verão. Na safrinha, em todos os principais estados produtores, este percentual foi atingido.

A situação dos transgênicos em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul pode ser devida a dois fatores:
a) o ataque de pragas controladas pelos eventos disponíveis não é tão severo nestes estados como no restante do país, desta forma a vantagem das cultivares transgênicas fica menor
b) na época do plantio do milho nestes estados, o preço de mercado deste cereal estava muito baixo, desestimulando o investimento em insumos de custo mais elevado.

Embora os transgênicos de milho se concentrem no mercado de sementes de milho híbrido simples, o grande avanço dos transgênicos ocorreu no segmento dos híbridos triplos. Neste tipo de milho, para a safra como um todo, o percentual de sementes com eventos transgênicos vendidas já alcança 61%, sendo que na safrinha o percentual é de 74%, semelhante ao dos híbridos simples, nesta mesma época.

A lógica econômica do crescimento da venda de sementes transgênicas de milho ocorreu primeiro no segmento de sementes de preço mais alto e agora, nesta segunda fase, no segmento de sementes de preço médio e em épocas e regiões de plantio com características mais comerciais. Desta forma o produtor passou a ter o benefício do evento transgênico adquirindo uma semente de mais baixo custo.

O interessante é que o diferencial de preços que existe entre os híbridos simples e triplos transgênicos e os comerciais tem se mantido, na média, constante, ao redor de R$ 80,00 por saco na safra e de R$ 75,00 por saco na safrinha. Eventuais acréscimos neste diferencial são mais devido à redução do preço das cultivares convencionais do que por elevação dos preços das sementes transgênicas.

Com a ocupação do mercado dos híbridos triplos pelos transgênicos o novo espaço de crescimento está no segmento ocupado atualmente pelos híbridos duplos, que são os mais baratos. Naqueles principais estados produtores onde a participação dos híbridos duplos é expressiva, esta participação foi reduzida na última safra de verão de 25% para 20% em Minas Gerais; de 28% para 22% no Rio Grande do Sul e de 29% para 25% em Santa Catarina.
Além de crescer dentro dos híbridos mais caros, um efeito colateral dos transgênicos tem sido a redução da participação dos tipos de híbridos para os quais esta tecnologia não tem sido disponibilizada. Se pensarmos em termos de potencial de produção, esta substituição até que é benéfica para a produção de milho no Brasil.

Um fato ainda pouco discutido tem sido a informação dos consumidores sobre a existência de produtos transgênicos em alimentos processados. Embora a quantidade de milho utilizada em alimentos industrializados seja relativamente pequena no Brasil, existe uma legislação que indica a necessidade de rotulagem em embalagens de produtos que contenham um percentual acima de 1% de milho transgênico.

Esta discussão tem sido polêmica, por conta do formato do símbolo a ser utilizado. Entretanto, tendo em vista a expressiva ampliação dos plantios com cultivares transgênicas e a não segregação dos produtos transgênicos no Brasil, pode estar surgindo um novo nicho de mercado que será maior ou menor em função da pressão pela efetiva implementação da legislação de rotulagem e, em um tempo posterior, pela real importância que os consumidores darão a esta características dos produtos.

De qualquer forma, a difusão desta tecnologia no Brasil apresenta um desempenho muito superior à verificada em outros países. No caso dos Estados Unidos, o percentual ao redor de 60% somente foi alcançado sete anos após as primeiras liberações.

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