Política Agrícola

Calor extremo pode inviabilizar o cultivo de alface em campo aberto no Brasil até 2100

Daniel Vilar
Especialista
5 min de leitura
Calor extremo pode inviabilizar o cultivo de alface em campo aberto no Brasil até 2100
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O cultivo de alface em campo aberto no Brasil pode estar com os dias contados. De acordo com um estudo recente da Embrapa Hortaliças, baseado em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), as mudanças no clima representam um risco alto ou muito alto para a produção da hortaliça mais consumida do país até o fim do século.

https://www.youtube.com/watch?v=1HALiY8sK-M&t=476s

O impacto do calor na produção de alface

A alface é uma cultura altamente sensível ao clima e ao fotoperíodo (duração do dia). Esses dois fatores influenciam diretamente o desenvolvimento da planta:

  • Períodos de dias curtos (outono/inverno): a alface permanece por mais tempo na fase vegetativa, favorecendo a produção de folhas de qualidade.
  • Períodos de dias longos (primavera/verão): independentemente da temperatura, as plantas tendem a entrar mais rápido na fase reprodutiva, fenômeno conhecido como pendoamento precoce.
  • Altas temperaturas isoladas: não aceleram o pendoamento.
  • Dias longos associados a altas temperaturas: aumentam ainda mais o estímulo reprodutivo, fazendo com que a planta floresça antes do esperado e perca padrão comercial.

Esse comportamento mostra como a alface é sensível às mudanças climáticas, especialmente quando cultivada em campo aberto, sem proteção contra sol, chuva e variações extremas de temperatura.

Cenários futuros preocupantes

A pesquisa considerou dois cenários de projeção climática:

  • RCP 4.5 (otimista): aumento de 2°C a 3°C até 2100. Mesmo nesse cenário, 79,6% do território brasileiro terá risco climático alto e 17,4% risco muito alto para a alface em campo aberto.

cultivo de alface

  • RCP 8.5 (pessimista): aumento de até 4,3°C até 2100. Aqui, 87,7% do território entra na categoria de risco muito alto, praticamente inviabilizando o cultivo tradicional da hortaliça.

cultivo de alface

Esses dados revelam que, sem adaptação, plantar alface ao ar livre pode se tornar insustentável no Brasil.

Cultivo em campo aberto: limites e desafios

O cultivo em campo aberto consiste em plantar diretamente sobre canteiros, que podem ou não estar cobertos por mulching, sem nenhum tipo de proteção contra as intempéries.

Essa prática, ainda comum entre pequenos produtores, tende a se tornar inviável em várias regiões do país durante períodos de dias longos, quentes e chuvosos, condições que favorecem o pendoamento precoce e aumentam a ocorrência de doenças.

No verão, quando as temperaturas ultrapassam os 40°C e as chuvas são intensas, os riscos de perda total da lavoura aumentam drasticamente. Isso reforça a necessidade de novas estratégias para garantir a produção da hortaliça mais consumida pelos brasileiros.

Alternativas para manter a produção de alface

Diante desse cenário, os pesquisadores destacam duas principais estratégias de adaptação:

1. Cultivares mais resistentes ao calor

Exemplo disso é a BRS Mediterrânea, desenvolvida pela Embrapa. Essa variedade apresenta maior tolerância a altas temperaturas, menor tempo de exposição no campo e raízes mais vigorosas, o que garante maior aproveitamento de água e nutrientes.

BRS Mediterrânea (EMBRAPA)

2. Sistemas de cultivo adaptados

  • Ambientes protegidos, como estufas e casas de vegetação;
  • Veja também: Aprenda como Cultivar Alface em Hidroponia
  • Plantio direto de hortaliças (SPDH), que melhora a fertilidade e a conservação do solo;
  • Uso de bioinsumos e compostagem, fortalecendo a planta contra estresses climáticos;
  • Zoneamento agroclimático, para orientar a escolha das melhores épocas e locais de plantio.

Essas práticas ajudam a reduzir perdas e a manter a viabilidade econômica da produção.

O que vem pela frente

A próxima fase da pesquisa da Embrapa será ainda mais detalhada. Com o uso de bases climáticas mais precisas (WorldClim) e modelos atualizados do IPCC (AR6), além de inteligência artificial, os novos mapas de risco deverão incluir também outras hortaliças sensíveis ao clima, como tomate, batata e cenoura.

O objetivo é oferecer aos produtores informações estratégicas para antecipar os impactos das mudanças climáticas e planejar o futuro da produção de alimentos no Brasil.

Conclusão

O estudo da Embrapa deixa claro que o calor extremo representa uma ameaça real ao cultivo de alface em campo aberto no Brasil até o fim do século. Mas também mostra que existem alternativas: novas cultivares, tecnologias de cultivo protegido e sistemas mais sustentáveis.

Para os produtores, acompanhar essas pesquisas e investir em adaptação será fundamental não apenas para garantir a rentabilidade da lavoura, mas também para contribuir com a segurança alimentar do país em tempos de mudanças climáticas.

Referências

Calor pode inviabilizar cultivo de alface em campo aberto no Brasil até o fim do século. Embrapa.br. Disponível em: <https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/102729113/calor-pode-inviabilizar-cultivo-de-alface-em-campo-aberto-no-brasil-ate-o-fim-do-seculo?p_auth=gzSPfcU4>. Acesso em: 4 set. 2025.

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