El Niño pode pressionar alimentos novamente
Outro ponto observado pelos analistas envolve a carne bovina.
O fortalecimento do El Niño voltou a acender um alerta para a agricultura brasileira. De acordo com um relatório da consultoria GlobalData TS Lombard, baseado em projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), da Organização Meteorológica Mundial (OMM) e do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, o fenômeno pode atingir uma intensidade muito forte e até se tornar o mais intenso já registrado.
A preocupação não é apenas com o clima, mas também com seus efeitos sobre a produção agrícola, os preços dos alimentos e a inflação. Caso as previsões se confirmem, culturas sensíveis às variações de temperatura e de chuva podem enfrentar perdas de produtividade, atrasos no plantio e aumento nos custos de produção.
Os reflexos já começam a aparecer no mercado. Segundo o relatório, os preços de diversos alimentos no Brasil acumulam fortes altas neste ano. O tomate registra aumento de 103,8%, a cenoura de 103,1% e a batata de 100,2%. Também tiveram valorização expressiva a cebola (63,7%), o feijão (50,8%) e o leite (19,1%).
Os analistas destacam que o El Niño pode afetar diretamente a produção de cebola, batata, tomate, cenoura, maçã e uva, principalmente por causa das alterações no regime de chuvas e do excesso de calor em algumas regiões. Já culturas como manga, mamão e uva podem sofrer com a redução dos níveis dos reservatórios, aumentando o risco de deficiência hídrica para irrigação.
Além do impacto dentro da porteira, uma eventual queda na produção brasileira pode reduzir a oferta de alimentos no mercado internacional, elevando os preços das commodities agrícolas e aumentando os custos de importação em diversos países.
Outro ponto observado pelos analistas envolve a carne bovina. O relatório informa que o Brasil já cumpriu cerca de 85% da sua cota anual de exportação de carne bovina para a China. Caso ocorra uma interrupção temporária nas negociações, parte dessa produção poderá ser direcionada para outros mercados, provocando oscilações nos preços da carne.
Os impactos também podem chegar à economia. Segundo o estudo, as pressões climáticas relacionadas ao El Niño têm potencial para elevar a inflação brasileira em até dois pontos percentuais até 2027, além de aumentar os desafios para o sistema elétrico nacional, já que uma parcela significativa da geração de energia do país depende dos reservatórios das hidrelétricas.
O mercado do café também reagiu às previsões climáticas. Os contratos futuros registraram, nesta semana, a maior alta intradiária desde o ano 2000. Segundo a StoneX, parte desse movimento ocorreu devido ao receio de que o El Niño pudesse comprometer a oferta de café arábica de alta qualidade. No entanto, a própria consultoria ressaltou que não há, neste momento, problemas climáticos efetivos afetando as lavouras brasileiras, e que a principal preocupação continua sendo a disponibilidade de cafés premium.
O histórico recente mostra por que essas previsões recebem tanta atenção. Entre 2023 e 2024, o El Niño esteve associado a eventos extremos no Brasil, incluindo incêndios que atingiram aproximadamente 2,6 milhões de hectares e as enchentes históricas no Rio Grande do Sul, que deixaram cerca de 660 mil pessoas desalojadas.
🔧 Orientação: Se você produz culturas sensíveis ao excesso de calor ou à irregularidade das chuvas, este é o momento de revisar o planejamento da próxima safra. Acompanhe os boletins meteorológicos, avalie a disponibilidade de água para irrigação, mantenha o monitoramento das lavouras e considere estratégias para reduzir riscos climáticos. Antecipar decisões pode fazer diferença na produtividade e na rentabilidade caso o El Niño realmente se intensifique nos próximos meses.