El Niño forte e crise de fertilizantes ameaçam safras globais
De um lado, o clima aperta. De outro, os insumos ficam mais caros e escassos.
O produtor rural brasileiro precisa ficar atento a uma combinação perigosa que começa a se formar no horizonte da agricultura mundial. De um lado, o clima aperta. De outro, os insumos ficam mais caros e escassos.
O alerta veio do Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos: a probabilidade de um El Niño muito forte no outono e inverno do Hemisfério Norte já ultrapassa 90%. Há 69% de chance de que, entre outubro e dezembro, o fenômeno atinja intensidade histórica, algo não visto desde 1950.
Isso significa temperaturas globais mais altas, chuvas irregulares e seca em regiões importantes para a produção de alimentos, como Sul e Sudeste da Ásia, Austrália e África Austral. Ao mesmo tempo, o Sul da América Latina pode ter chuvas em excesso, enquanto o Norte e Oeste do Brasil correm risco de estiagem e calor extremo.
O problema é que esse choque climático chega num momento em que a agricultura mundial já enfrenta a crise dos fertilizantes, agravada pela guerra envolvendo o Irã e interrupções no transporte no Oriente Médio. Segundo a FAO, cerca de 1,3 milhão de toneladas de fertilizantes por mês deixaram de circular pelo Estreito de Ormuz.
Separadamente, cada um desses fenômenos já seria preocupante. Juntos, eles se potencializam. O J.P. Morgan alerta: se o fertilizante está caro e o clima prejudica a lavoura, o produtor tem menos capacidade de compensar a perda. Isso porque o insumo define o potencial produtivo, e o clima determina quanto desse potencial será alcançado.
Imagine que você planta soja ou milho. A ureia e o MAP estão mais caros, então você reduz a adubação para não comprometer o custo da safra. Sua lavoura começa o ciclo com menor potencial. Se, no meio do desenvolvimento, vier uma seca prolongada ou calor excessivo, a quebra pode ser ainda maior do que o esperado. Se chover bem, o prejuízo pode ser menor. Mas o risco aumentou.
O impacto nas culturas:
O efeito do El Niño não será igual para todos os produtos.
Café robusta: Vietnã e Indonésia, maiores produtores mundiais, devem enfrentar menos chuva e calor justamente na fase de desenvolvimento das plantas. A produção pode cair.
Café arábica: O Brasil pode até se beneficiar com menos risco de geada agora, mas o calor e a seca no quarto trimestre podem prejudicar a safra de 2027.
Cacau: África Ocidental, responsável por metade da produção mundial, já sofreu com chuvas em excesso e doenças em 2023. Em 2024, veio o calor e a seca. O resultado foi uma disparada dos preços. O risco se repete.
Açúcar: Enquanto Índia e Tailândia podem perder produção por falta de chuva, o Brasil pode até ganhar com chuvas acima da média no segundo semestre, que ajudam o desenvolvimento da cana para a próxima safra.
Arroz: O Banco Mundial estima que a produção pode cair entre 20% e 50% em algumas regiões expostas, como Sul da Ásia e África Austral. Isso afeta diretamente a segurança alimentar.
Fertilizantes: o efeito defasado
A FAO alerta que a menor oferta de fertilizantes pode começar a afetar a produção de alimentos básicos em seis a nove meses. Trigo, milho e arroz estão no centro do problema. E essa janela coincide com os efeitos do El Niño. O Banco Mundial já registrou alta de 35% nos preços dos fertilizantes nos primeiros cinco meses de 2026.
O risco de restrições comerciais
O J.P. Morgan lembra que, em 2023 e 2024, a Índia restringiu exportações de arroz para proteger seu mercado interno. Com os preços subindo e a produção ameaçada, esse tipo de medida pode se repetir. E quando um grande produtor fecha a torneira, o problema deixa de ser apenas climático e vira comercial, elevando ainda mais os preços.
🔧 Orientações práticas:
Diante desse cenário, o produtor brasileiro precisa agir com planejamento:
Antecipe a compra de fertilizantes: se possível, negocie insumos com antecedência para escapar da alta que deve vir.
Fique de olho no clima: monitore as previsões para sua região e planeje o plantio considerando janelas de menor risco.
Proteja-se da volatilidade: se você comercializa commodities como café, açúcar ou soja, avalie estratégias de hedge ou venda antecipada para garantir preços.
Diversifique culturas: sempre que possível, não coloque todos os ovos na mesma cesta. Uma cultura mais resistente à seca pode equilibrar as perdas de outra.
Invista em tecnologia: sistemas de irrigação, uso de bioinsumos e práticas de conservação do solo aumentam a resiliência da lavoura.
O cenário é desafiador, mas quem se prepara com informação e planejamento tem mais condições de atravessar a tempestade com menos danos.