Rastreabilidade digital: novo passaporte da soja, café e carne
Ferramenta da Embrapa comprova origem e conformidade ambiental e já está disponível na plataforma oficial do governo para exportação à Europa
A Embrapa desenvolveu uma tecnologia digital que permite rastrear produtos agropecuários desde a origem até o mercado. A ferramenta se chama Embrapa Trace e conecta as cadeias de soja, café e carne bovina. Ela está disponível no formato de API (Interface de Programação de Aplicações, em inglês), que é um conjunto de regras que permite integrar sistemas diferentes. Na prática, serve para comprovar a conformidade agroambiental e sanitária do agronegócio brasileiro. Isso garante acesso a mercados estratégicos e competitividade nas exportações.
Como a tecnologia funciona
A Embrapa Trace se integra a outras soluções da pesquisa pública brasileira. Uma delas é o TerraClass, projeto da Embrapa com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que fornece dados atualizados sobre cobertura e uso da terra na Amazônia e no Cerrado. A outra é o ElegiAgro, sistema que automatiza a análise de elegibilidade agroambiental ao cruzar bases cadastrais, fundiárias e geoespaciais.
Segundo Anderson Alves, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital (SP), a ferramenta reúne critérios de rastreabilidade por cadeia produtiva e se conecta ao ElegiAgro e ao TerraClass para garantir a conformidade agroambiental e a integridade das informações de uso e cobertura da terra. A Embrapa Trace padroniza informações autodeclaradas, valida e integra certificações existentes e consolida as evidências em um parecer único de conformidade. É como um passaporte digital do produto.
Por que isso importa para você
As exigências dos mercados internacionais por produtos associados a práticas sustentáveis vêm crescendo. O Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR, na sigla em inglês) é o exemplo mais concreto. Ele exige que os exportadores comprovem que seus produtos não estão vinculados a áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020. A regra afeta as exportações brasileiras de bovinos, soja, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma, além de derivados dessas cadeias.
Os prazos são claros. A partir de 30 de dezembro de 2026, grandes e médios exportadores nacionais devem comprovar a conformidade ambiental com rastreabilidade por geolocalização de cada área produtiva, documentação da cadeia de fornecedores e avaliação formal de risco de desmatamento. Para micro e pequenos produtores, o prazo vai até 30 de junho de 2027.
A tecnologia permite rastrear cada etapa da produção isoladamente. Isso possibilita incorporar atividades ainda não certificadas e construir novos protocolos e modelos de controle para cumprir os requisitos.
O caminho do dado até o parecer
O processo começa com o cadastro da propriedade, dos produtores e das áreas de produção. Depois vem o monitoramento das práticas agrícolas e da conformidade agroambiental durante o ciclo produtivo. Em seguida, há o registro da origem, volume e data da produção, garantindo que não haja contaminação por áreas não conformes. Na etapa de pós-produção e logística, ocorre o controle de transporte e armazenamento, mantendo a segregação e a identidade do produto. Na transformação, entra o rastreio em unidades de processamento, com controle de balanço de massa para produção vegetal e lotes consolidados para produção animal.
Os dados primários são fornecidos pelos agricultores aos operadores (indústrias, frigoríficos, esmagadoras e cooperativas), que usam a Embrapa Trace para validar o processo. As traders registram origem e destino. Organismos independentes, como certificadoras e verificadoras, atestam a conformidade.
Onde acessar
A tecnologia estará disponível como parte da Plataforma AgroBrasil Mais Sustentável (AB+S), do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Essa é a plataforma oficial do governo brasileiro para a Europa e outros mercados. Também pode ser acessada via plataforma AgroAPI. Os relatórios de conformidade gerados por etapa de produção são acessíveis por QR Code e oferecem base técnica para o País negociar abertura de mercados ou contestar barreiras comerciais.
Para Lara Line de Souza, coordenadora da AB+S no Mapa, a complementaridade entre as soluções traz mais integração, consistência e robustez às informações. A AB+S avalia a qualificação socioambiental dos estabelecimentos rurais frente aos requisitos legais e de mercado, enquanto a Embrapa Trace cuida da rastreabilidade da produção.
A ferramenta também permite ao Brasil manter o controle nacional sobre os dados da sua produção, com trilhas de auditoria imutáveis por meio de tokens digitais, o que garante segurança da informação e certificação digital. Em breve, novas cadeias serão incorporadas: cacau, madeira, borracha, frango de corte, suínos e pescados da pesca industrial (atum) e da aquicultura (tilápia).
A avaliação de quem acompanha o comércio exterior
Eduardo Chikusa, chefe da Divisão de Comércio Internacional do Itamaraty, do Ministério das Relações Exteriores (MRE), explica que a AB+S reúne e integra informações sobre requisitos socioambientais de bases oficiais, enquanto a rastreabilidade conecta essas informações aos fluxos produtivos e logísticos. Isso amplia a capacidade de demonstrar, de forma transparente e verificável, o atendimento aos requisitos dos compradores internacionais. Nas palavras dele, é "a ponte que conecta a sustentabilidade praticada no campo à confiança exigida pelos mercados globais".
Luiza Kreimeier, assessora técnica do Conselho Nacional do Café (CNC), destaca o potencial da tecnologia para a cadeia do café. Segundo ela, a ferramenta facilita a integração de informações, reduz retrabalho e apoia a demonstração da origem e das condições de produção. O CNC acompanha as exigências dos mercados e incentiva cooperativas a testar diferentes soluções. Para ela, a oferta de tecnologias gratuitas e validadas por instituições oficiais faz diferença, pois pode reduzir custos que hoje pesam sobre as cooperativas e acabam repassados ao produtor.
Stanley Oliveira, chefe-geral da Embrapa Agricultura Digital, resume o ganho de escala. Em vez de responder individualmente às exigências de cada comprador ou regulamentação, a abordagem permite estruturar uma base nacional de informações confiáveis sobre a produção sustentável. Isso reduz custos de conformidade, evita duplicidade de esforços e dá mais segurança a produtores, empresas, governo e mercados consumidores.
🔧 Dica prática para você
Se você produz soja, café ou carne bovina e exporta ou pretende exportar, comece a organizar os dados da sua propriedade desde já. Cadastre as áreas de produção com geolocalização e mantenha registros atualizados de origem, volume e datas de cada lote. Fique atento aos prazos: 30 de dezembro de 2026 para grandes e médios exportadores e 30 de junho de 2027 para micro e pequenos produtores. Procure sua cooperativa ou entidade de classe para entender como acessar a Plataforma AB+S e a Embrapa Trace. Quem chegar primeiro com informação organizada sai na frente na hora de negociar.
Fonte: Embrapa.