Gana: nova lei do cacau preocupa produtores
Quem descumprir a regra pode pagar multas pesadas e até pegar penas de prisão de até 20 anos.
Os produtores de cacau de Gana estão em estado de alerta. Uma nova lei aprovada pelo parlamento do país no final de julho restringe o uso das terras onde cultivam o produto, e eles pedem que o presidente não sancione o texto enquanto não forem devidamente consultados.
O Projeto de Lei do Conselho do Cacau de Gana de 2026 dá às fazendas de cacau o status de "protegidas". Na prática, isso significa que nenhuma pessoa — incluindo o próprio agricultor — pode converter uma plantação de cacau para outros usos sem a aprovação do órgão regulador COCOBOD. A única exceção é para casos de reabilitação autorizada pelo conselho.
Quem descumprir a regra pode pagar multas pesadas e até pegar penas de prisão de até 20 anos.
Por que a lei foi criada
O governo ganense justifica a medida como necessária para frear o avanço da mineração ilegal e o plantio de outras culturas — como borracha — sobre áreas que antes eram dedicadas ao cacau. Essa conversão de terras tem contribuído para a queda da produção do país, que junto com a Costa do Marfim é responsável por metade do cacau consumido no mundo.
O que os produtores estão dizendo
A Ghana Cooperative Cocoa Farmers and Marketing Association Limited, que reúne cooperativas de produtores, afirmou que apoia a proteção das lavouras, mas pede revisões no texto antes que ele se torne lei.
O administrador do órgão, Moses Djan Asiedu, explicou a principal preocupação dos agricultores: o que fazer com terras que já não são produtivas? Se um cacauzal está doente, envelhecido ou comercialmente inviável, o produtor pode ser proibido de plantar outra cultura no mesmo local para garantir sua renda?
"Concordamos que a árvore deve ser protegida porque essa é a fonte do nosso sustento, mas temos situações críticas em que um fazendeiro pode ter que derrubar uma fazenda doente e plantar outra safra que lhe trará renda", disse Asiedu.
As reclamações dos agricultores vão ao encontro das objeções levantadas pela oposição no parlamento.
A resposta do governo
O COCOBOD, no entanto, rejeita as críticas. O chefe de relações públicas do órgão, Jerome Sam, afirmou à imprensa local que as objeções têm motivação política e que o projeto foi elaborado para beneficiar os produtores.
Até o momento, o presidente John Dramani Mahama ainda não sancionou a lei nem deu um prazo para isso. Os agricultores esperam que ele devolva o texto ao parlamento ou adie a sanção até que haja um diálogo mais amplo com quem realmente vive do cacau.
O que isso ensina para o produtor brasileiro
Embora a situação seja em Gana, ela traz um alerta para o campo brasileiro: mudanças nas regras de uso da terra, mesmo com boas intenções, podem afetar diretamente a autonomia do produtor e sua capacidade de se adaptar às condições do mercado.
É importante ficar atento a projetos de lei que tratam da destinação de terras agrícolas no Brasil e participar das consultas públicas e associações de classe. O diálogo entre produtores e poder público é essencial para que as regras protejam a produção sem engessar quem vive da terra.
🔧 Orientações:
Participe das associações e cooperativas: Elas são sua voz junto ao poder público. Em Gana, os produtores se organizaram para pedir revisão da lei. No Brasil, a atuação coletiva também faz a diferença.
Fique de olho nas leis que afetam o uso do solo: Acompanhe projetos em tramitação no Congresso e nas assembleias estaduais que tratam de zoneamento agrícola, áreas protegidas e mudanças no Código Florestal.
Documente a situação da sua terra: Se houver áreas improdutivas ou com problemas sanitários, mantenha registros técnicos. Isso pode ajudar a comprovar necessidades de mudança de cultivo, caso as regras apertem.
Diversifique com planejamento: Mesmo que hoje você cultive apenas uma cultura, pense em alternativas viáveis para o futuro. Ter um plano B ajuda a lidar com mudanças de mercado e de legislação.
Fonte: Reuters.