Argentina ameaça tirar do Brasil posto de 2º maior exportador de milho
Os números ajudam a entender o cenário.
O mercado global de milho está prestes a passar por uma virada. O Brasil precisa embarcar pelo menos 40 milhões de toneladas do cereal na safra 2025/26 para equilibrar a oferta doméstica. Mas dois movimentos tornam essa tarefa mais difícil: a Argentina vem com uma supersafra, enquanto o Irã, principal comprador do milho brasileiro em 2025, já reduziu as compras em 43% neste ano por causa da guerra.
A combinação pode levar a Argentina a ultrapassar o Brasil e assumir o posto de segundo maior exportador mundial de milho, atrás apenas dos Estados Unidos. O alerta é de Luiz Roque, coordenador de Inteligência de Mercado da HedgePoint Global Markets.
"Com essa oferta tão grande, os argentinos podem exportar 45 milhões de toneladas e podem passar o Brasil como segundo maior exportador. E naturalmente, por questões logísticas, isso pode tirar volumes do Brasil", afirmou Roque.
Os números ajudam a entender o cenário. A Argentina caminha para uma produção de 63 milhões de toneladas em 2025/26, segundo projeções da HedgePoint, em linha com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Esse volume representa um salto de 29% em relação à temporada anterior. A Bolsa de Comércio de Rosário (BCR) trabalha com uma estimativa ainda maior, de 70 milhões de toneladas.
Para o Brasil, a Conab projeta uma safra de 143 milhões de toneladas. Mas o problema não está na produção, e sim na capacidade de exportar. Com mais milho disponível, os embarques argentinos podem saltar de 29,1 milhões para 45 milhões de toneladas — um avanço de quase 55%.
E os argentinos chegam à disputa com uma vantagem importante: o preço. "Eles estão com um preço muito competitivo, melhor do que o Brasil, e está chamando a atenção do mercado internacional", disse Roque.
Exemplo prático:
Imagine que você é um comprador internacional de milho. Precisa abastecer sua indústria de ração ou de etanol e tem duas opções: o milho brasileiro e o argentino. Os dois estão disponíveis, mas o argentino está mais barato. Qual você escolhe? A lógica do mercado diz: o mais competitivo. E é exatamente isso que está acontecendo. O produto argentino aparece atualmente como o mais barato entre Brasil, Estados Unidos e Argentina, segundo Roque.
Diante desse cenário, a HedgePoint reduziu sua projeção de exportações brasileiras de 43 milhões para 41 milhões de toneladas. Segundo Roque, agentes do mercado já trabalham com números ainda menores, próximos de 38 milhões de toneladas.
A guerra no Irã e os novos compradores
A concorrência argentina ganha peso porque um dos principais compradores do Brasil pisou no freio. O Irã foi o maior destino do milho brasileiro em 2025, com 9 milhões de toneladas. Mas a guerra no país, desde o fim de fevereiro, e os problemas logísticos mudaram esse cenário.
Entre janeiro e julho de 2026, os embarques brasileiros para o Irã recuaram 43% em relação ao mesmo período de 2025, caindo de 2,69 milhões para 1,54 milhão de toneladas, segundo a HedgePoint. "Se esse conflito perdurar por mais tempo, naturalmente a gente pode ver esse volume comprado pelo Irã diminuindo ainda mais", afirmou Roque.
Outros mercados começaram a ocupar parte desse espaço. As exportações para o Vietnã cresceram 83% no período, para 1,62 milhão de toneladas. As vendas ao Egito avançaram 57%, para 2,61 milhões, enquanto as destinadas à Argélia aumentaram 76%, alcançando 701 mil toneladas.
A dúvida é se esses compradores conseguirão compensar uma retração prolongada do Irã. Na avaliação de Roque, ainda é cedo para cravar esse cenário.
A União Europeia e o consumo interno
A União Europeia também pode abrir uma janela para o cereal brasileiro. As ondas de calor que atingiram o continente reduziram a própria produção de grãos, o que pode aumentar a demanda por importações. Mas Brasil, Estados Unidos e Argentina disputam esse mercado — e, novamente, o produto argentino aparece como o mais barato entre os três.
Do lado doméstico, o Brasil conta com uma demanda interna mais forte do que no passado. A Conab estima que o consumo doméstico de milho aumente 4,8% em relação à safra 2024/25 e alcance 95 milhões de toneladas.
O motor desse crescimento é o etanol de milho. Nas projeções da HedgePoint, a expansão do biocombustível deve elevar de 23 milhões para 28,5 milhões de toneladas o volume do cereal destinado à produção do etanol nesta temporada. Com o E32 — a nova especificação da gasolina que elevou a mistura obrigatória de etanol anidro de 27% para 32% — esse consumo pode se aproximar de 29 milhões de toneladas.
"Isso é óbvio que o mercado interno aumentando entre 5 e 6 milhões de toneladas, como está aumentando nesse ano, para etanol é um fator de suporte, mas ainda depende de vender pelo menos 40 milhões para o exterior para poder tirar milho do Brasil", disse Roque.
🔧 Orientações práticas:
Para o produtor brasileiro de milho, esse cenário exige atenção e planejamento:
1. Fique atento aos preços internacionais: com a Argentina oferecendo milho mais barato, a pressão sobre as cotações domésticas pode aumentar. Acompanhe diariamente as cotações em Chicago e os prêmios de exportação.
2. Avalie o momento de vender: se os preços internacionais caírem, pode ser melhor negociar no mercado interno, especialmente com a demanda do etanol em alta. Acompanhe os prêmios pagos pelas usinas.
3. Diversifique seus compradores: assim como o Brasil está buscando novos mercados (Vietnã, Egito, Argélia), o produtor pode buscar cooperativas e tradings que atuam em diferentes canais de comercialização.
4. Controle os custos de produção: com a margem potencialmente mais apertada, a eficiência na lavoura faz toda a diferença. Revise seu planejamento de insumos, especialmente fertilizantes e defensivos.
O mercado de milho está em movimento. Quem se prepara com informação e planejamento tem mais condições de tomar a melhor decisão.