Agricultura

Diesel caro ameaça margens e produção agrícola

Na Austrália, o impacto já aparece diretamente no custo de produção.

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
Compartilhar 𝕏 f WA in

Boas perspectivas para as lavouras estão sendo acompanhadas por uma preocupação crescente entre agricultores de diferentes países: o custo do diesel. A combinação de interrupções no Estreito de Ormuz, provocadas pela guerra entre Estados Unidos e Irã, e ataques ucranianos a refinarias russas reduziu a oferta de combustíveis e elevou os preços justamente quando grandes regiões agrícolas entram em períodos de plantio e colheita.

Na Austrália, o impacto já aparece diretamente no custo de produção. Agricultores iniciam a colheita de uma safra de trigo, cevada e canola projetada como a quarta maior já registrada no país, mas enfrentam preços de combustível mais de 50% superiores aos do ano passado.

Um dos produtores afetados é Andrew Russell, que administra uma fazenda de 1.300 hectares próxima a Rutherglen, no norte de Victoria. Depois de registrar chuvas abundantes e preparar uma das melhores safras dos últimos anos, ele afirma que os produtores precisam de uma produtividade acima da média apenas para conseguir cobrir os custos.

O diesel chegou a cerca de 3 dólares australianos por litro na Austrália, equivalente a aproximadamente R$ 10,45. O problema não está apenas no preço. Russell também relata preocupação com a disponibilidade do combustível durante a colheita, já que muitos produtores possuem capacidade de armazenamento suficiente para apenas uma semana, enquanto a operação pode durar de quatro a seis semanas.

Pressão chega ao Brasil

O aumento dos custos também começa a preocupar produtores brasileiros. No Rio Grande do Sul, estado responsável por aproximadamente 10% da produção nacional de soja, agricultores alertam para possíveis atrasos no plantio caso o abastecimento de diesel continue mais restrito.

O produtor de arroz e soja Fernando Rechsteiner, de Pelotas (RS), relata que o combustível continua disponível, mas em volumes menores do que os produtores estavam acostumados. Segundo ele, já não é possível fazer um pedido e esperar uma entrega rápida, o que exige maior planejamento para garantir o abastecimento das máquinas.

Na região, o preço do diesel teria aumentado cerca de 40% desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã. Para uma atividade altamente mecanizada, a elevação representa um custo adicional justamente em uma etapa em que o produtor não pode simplesmente reduzir o uso de combustível sem comprometer o calendário agrícola.

O diesel movimenta praticamente toda a cadeia operacional do campo. É utilizado em tratores, colheitadeiras, bombas de irrigação e caminhões responsáveis pelo transporte da produção. Quando o combustível fica mais caro ou escasso, o impacto pode chegar do preparo do solo à entrega dos alimentos.

Custo maior pode chegar ao consumidor

O problema também ultrapassa a porteira. Na Austrália, a Elveden Farms, uma das grandes produtoras agrícolas do Reino Unido, passou a pagar uma sobretaxa de combustível de 24% à transportadora responsável por levar suas batatas da unidade de embalagem ao mercado.

A própria conta anual de diesel da empresa subiu 40%, chegando a 560 mil libras, enquanto os custos de eletricidade também aumentaram. Segundo o diretor-geral Andrew Blenkiron, a elevação dos custos está reduzindo as margens e dificultando o planejamento financeiro.

Nos Estados Unidos, os preços médios do diesel no varejo atingiram recorde no mês passado, enquanto os contratos futuros de combustível na Europa também dispararam. O impacto preocupa produtores que já enfrentam margens apertadas e menor capacidade de absorver novos aumentos de custos.

A diretora-executiva da cooperativa norte-americana Land O’Lakes, Beth Ford, resume um dos principais problemas enfrentados pelo setor: o agricultor precisa retirar a produção do campo, independentemente do preço do combustível. A questão passa a ser se ele terá condições financeiras para pagar esse custo adicional.

Plantio e colheita acontecem ao mesmo tempo

A pressão ocorre em um momento particularmente sensível para o mercado agrícola. A Austrália e a Argentina iniciam a colheita do trigo, o plantio avança na Europa e na Rússia e o cultivo da soja ganha força no Brasil.

Qualquer interrupção ou atraso nessas operações pode afetar a produtividade. Ao mesmo tempo, o aumento do diesel ocorre em um cenário de preços de alimentos já pressionados por eventos climáticos extremos, interrupções no comércio e custos elevados de outros insumos.

O cenário também é agravado pelo El Niño, que afeta importantes regiões produtoras. Índia, Indonésia e outros países enfrentam impactos climáticos que podem adicionar novos riscos à oferta agrícola mundial.

Na União Europeia, a Copa-Cogeca, que representa cerca de 22 milhões de agricultores, alertou que a combinação de diesel, fertilizantes e outros insumos caros pode prejudicar o abastecimento de alimentos. Segundo a entidade, a permanência dos preços elevados pode provocar quedas perceptíveis na produção.

Produtores aumentam estoques para evitar falta

Diante da incerteza, alguns agricultores já estão tomando medidas para garantir o combustível necessário. Na Austrália Ocidental, o produtor Mic Fels, que cultiva mais de 6.000 hectares perto de Esperance, ampliou em 30 mil litros sua capacidade de armazenamento de diesel.

Durante a colheita, a propriedade consome aproximadamente 4 mil litros de diesel por dia. Com o combustível a cerca de 3 dólares australianos por litro, a conta diária mostra o tamanho da exposição da atividade agrícola às oscilações do mercado de energia.

Para o produtor rural, o problema deixa de ser apenas quanto custa produzir e passa a envolver também a segurança do abastecimento. Em uma operação que depende de máquinas trabalhando diariamente dentro de uma janela curta, faltar combustível pode significar perder o momento adequado de colher ou plantar.

🔧 Orientação prática: Em períodos de alta volatilidade do diesel, o planejamento do abastecimento passa a ser parte da gestão da lavoura. Antecipar a demanda, avaliar a capacidade de armazenamento permitida e economicamente viável e acompanhar os custos por hectare ajudam o produtor a identificar quanto do aumento do combustível pode ser absorvido pela margem e quanto precisará ser compensado pela produtividade ou pelo preço da produção.

Fonte: Reuters.

Mais de Agricultura

Ver todas →

Boletim Agriconline

O agronegócio na sua caixa de entrada, todo dia às 6h.

Cotações, clima, mercado e as principais notícias do campo — em 5 minutos de leitura.

Enviaremos um e-mail pra você confirmar. Sem spam — descadastre quando quiser.