Agricultura

Solo brasileiro mostra que fertilidade se constrói

Segundo a Embrapa, o Brasil reúne 13 classes de solos reconhecidas pelo Sistema Brasileiro de Classificação de Solos.

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
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A agricultura brasileira mostra que a produtividade não depende apenas da fertilidade natural do solo. Em um território com diferentes classes de solos e condições ambientais, o desempenho das lavouras também é resultado da capacidade de manejar água, cobertura, raízes, matéria orgânica, correção, erosão e risco produtivo. A comparação com as terras secas ajuda a mostrar que, em qualquer ambiente, o solo precisa ser administrado de acordo com suas limitações e seu potencial.

O Brasil não possui um único “solo brasileiro”. Segundo a Embrapa, o país reúne 13 classes de solos reconhecidas pelo Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Latossolos, Argissolos e Neossolos, juntos, ocupam cerca de 70% do território nacional. Muitos desses solos apresentam baixa fertilidade natural, embora também existam áreas de média e alta fertilidade em diferentes regiões.

No Cerrado, uma parcela importante da produtividade foi construída justamente sobre solos que apresentavam limitações naturais. Pesquisa, correção da fertilidade, escolha de cultivares, manejo da água, conservação do solo e organização da cadeia de insumos e serviços permitiram transformar essas restrições em capacidade produtiva.

A lógica é simples: o sistema agrícola retira nutrientes e outros recursos do solo e precisa repor o que foi perdido. Por isso, produtividade não deve ser confundida com fertilidade natural. Um solo pode ter limitações e, ainda assim, sustentar uma agricultura altamente produtiva quando existe manejo adequado.

Deserto também pode produzir

A comparação com os desertos ajuda a ampliar essa discussão. Terras secas não são sinônimo de solo morto ou ausência de produção. Segundo a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, as terras secas incluem ambientes hiperáridos, áridos, semiáridos e subúmidos secos e representam aproximadamente 40% da superfície terrestre.

Esses ambientes estão presentes em todos os continentes e podem abrigar pastagens, savanas, vegetação adaptada, áreas próximas a rios e sistemas agrícolas irrigados.

A diferença está principalmente na disponibilidade e na regularidade da água. Em regiões secas, a precipitação é menor e mais variável, enquanto a evaporação pode ser elevada. A produção, portanto, exige maior controle sobre a água, escolha de espécies adaptadas, cobertura do solo e infraestrutura.

Irrigar, porém, não resolve sozinho o problema. A água precisa chegar na quantidade e no momento adequados, mas também é necessário garantir drenagem suficiente. Caso contrário, a concentração de sais no solo pode aumentar e comprometer a produtividade.

Nos Emirados Árabes Unidos, por exemplo, a Agência de Meio Ambiente de Abu Dhabi informa que mais de 80% das terras irrigadas estão afetadas pela salinidade. Entre os fatores relacionados estão a baixa precipitação, a elevada evaporação, a qualidade da água, o manejo inadequado da irrigação e a drenagem insuficiente.

Água e cobertura protegem o solo

No Brasil, a maior disponibilidade de chuva e biomassa em muitos ambientes cria condições favoráveis para a formação de palhada, raízes e matéria orgânica. Mas isso não significa que o solo esteja protegido automaticamente.

Quando a cobertura desaparece, a chuva passa a atuar diretamente sobre a superfície. A infiltração pode diminuir, o escoamento superficial aumenta e o risco de erosão cresce.

Por isso, palhada, raízes vivas, rotação de culturas, integração entre atividades e manejo adequado das pastagens funcionam como uma espécie de proteção permanente do solo.

Na pecuária, essa lógica também precisa ser considerada. O pasto não deve ser tratado como um espaço que simplesmente fica disponível para o animal. É uma lavoura permanente, que precisa de escolha adequada de espécies, ajuste de lotação, período de descanso e manutenção da cobertura.

Quando a pastagem perde vigor e permanece baixa por períodos prolongados, o problema não está apenas na redução da oferta de forragem. O solo também perde parte da proteção biológica que mantém sua capacidade produtiva.

Petrolina mostra o custo de controlar a água

Um exemplo brasileiro ajuda a entender essa relação entre água, solo e infraestrutura. Em Petrolina (PE), experiências iniciadas em 1968 com irrigação e dessalinização contribuíram para o desenvolvimento da produção de uvas, mangas e outras frutas no semiárido.

A região, porém, apresenta condições que favorecem a salinização, como baixa precipitação, elevada evaporação, uso contínuo da irrigação e deficiência de drenagem.

A implantação de redes de drenagem e o monitoramento do solo ajudaram a reduzir o problema. O caso mostra que a irrigação foi decisiva para ampliar a produção regional, mas sua sustentabilidade depende de um sistema integrado de água, solo e drenagem.

Esse ponto também aparece nos custos da produção. Em ambientes secos, produzir pode exigir captação ou tratamento da água, bombeamento, irrigação, drenagem, monitoramento, escolha de espécies e manutenção constante da infraestrutura.

A FAO estima que 10,7% das terras do mundo estejam afetadas por sais. A salinidade, portanto, não é um problema restrito aos desertos e pode aparecer em diferentes sistemas agrícolas quando o manejo da água não é adequado.

O solo é um ativo produtivo

Em qualquer ambiente, o solo desempenha funções que vão muito além de sustentar a planta. Ele armazena água, abriga raízes e organismos, filtra fluxos, participa do armazenamento de carbono e ajuda a manter a produção.

A diferença entre um ambiente como o Brasil e uma região desértica está, em grande medida, naquilo que cada sistema oferece naturalmente e no volume de recursos necessário para compensar suas limitações.

Para a agricultura brasileira, a mensagem é direta: a disponibilidade de água, biomassa e diversidade ambiental representa uma vantagem, mas essa vantagem não é permanente.

A água que não infiltra, a palhada que não permanece sobre o solo e a raiz que não ocupa adequadamente o perfil representam perda de capacidade produtiva. E essa perda também se transforma em custo econômico.

🔧 Orientação prática: O produtor não deve olhar apenas para a fertilidade química do solo ao avaliar o potencial da área. Cobertura, infiltração de água, desenvolvimento das raízes, matéria orgânica, compactação, erosão, salinidade e capacidade de manejo também fazem parte do patrimônio produtivo da propriedade. Quanto mais essas variáveis forem acompanhadas, menor será o risco de transformar uma limitação manejável em perda de produtividade.

Fonte: Forbes.

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