Tecnologia brasileira quer tornar mercado de carbono mais confiável
A companhia monitora 1,5 milhão de hectares de florestas em propriedades privadas no Brasil e quer ampliar a escala da operação.
O paranaense Lúcio Lopez, fundador e CEO da Greenline, está à frente de uma empresa brasileira de tecnologia para o mercado de carbono que fatura R$ 250 milhões. A companhia monitora 1,5 milhão de hectares de florestas em propriedades privadas no Brasil e quer ampliar a escala da operação. Segundo estimativas divulgadas por ele, os projetos acompanhados registram sequestro médio anual de cerca de 25 milhões de toneladas de CO₂.
Depois de investir mais de R$ 35 milhões de recursos próprios no desenvolvimento de sua tecnologia, a empresa prepara uma nova frente de negócios: créditos de carbono protegidos por seguro contra riscos fundiários, climáticos e políticos. Em setembro, anunciou uma parceria com a RCGI-USP Carbon Registry para fornecer evidências digitais que poderão ser consideradas no registro de projetos. A aposta combina escala, monitoramento por satélite e mecanismos de rastreabilidade para tornar o mercado mais confiável e, na visão de Lopez, mais acessível.
A origem da Greenline
"Até hoje, em oito anos, todo o investimento foi feito por mim e pela minha própria família. Se somar tudo, já são mais de 35 milhões de reais", afirma o empresário. A trajetória que levou à criação da Greenline começou em 2018, quando Lopez acompanhava dos Estados Unidos notícias sobre desmatamento e incêndios florestais no Brasil.
Com passagens pela indústria moveleira, pelo comércio exterior e pelo mercado financeiro, ele passou a estudar como incentivos econômicos poderiam tornar a preservação florestal uma alternativa mais rentável para os proprietários de terras.
"Uma forma de desincentivar o uso do solo é exatamente você poder gerar aquele recurso a mais ou alternativo para o proprietário para desestimular o corte e manter a floresta em pé e viva", diz.
O potencial do mercado
De acordo com dados da Embrapa Territorial, 66,3% do território brasileiro (cerca de 564 milhões de hectares) é coberto por vegetação nativa. Desse total, 25,6% (218,2 milhões de hectares) estão preservados dentro de propriedades rurais privadas pelos próprios produtores.
É uma grande oportunidade para a Greenline poder conectar o produtor que preserva e sequestra carbono com empresas que mitigam sua pegada de carbono. A empresa já tem parcerias com grandes companhias como aéreas Gol, Latam e Azul; bancos como Banco do Brasil e Bradesco; indústrias como CSN, Gerdau e Vale; e petroquímicas como Petrobras e Braskem.
Em termos de potencial, o agronegócio brasileiro poderá gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono entre 2025 e 2035, com potencial de movimentar até R$ 3,5 bilhões no mercado internacional. A estimativa faz parte do estudo "O Agronegócio Brasileiro no Mercado Internacional de Carbono – Oportunidades Econômicas, Elegibilidade e Impactos na NDC", divulgado pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG).
Como funciona a tecnologia
A Greenline desenvolveu uma plataforma de monitoramento, relato e verificação digital, conhecida como dMRV, que combina dados de satélites, sensoriamento remoto, inteligência artificial e informações geoespaciais. A tecnologia utiliza dados de agências como a NASA e a Agência Espacial Europeia (ESA), além de um índice próprio, o GLVCI (Greenline Vegetation Carbon Index), que, segundo Lopez, analisa 16 domínios e aplica mais de 100 índices de vegetação.
A proposta é acompanhar as mudanças nas áreas monitoradas com atualizações frequentes e recuperar informações históricas para estimar alterações na vegetação e no estoque de carbono. Na prática, a tecnologia pode reduzir a dependência de levantamentos exclusivamente presenciais e gerar registros digitais que ajudam a documentar a situação de cada área ao longo do tempo.
A parceria com a RCGI-USP
A capacidade de produzir evidências sistemáticas levou à aproximação com a RCGI-USP Carbon Registry, registradora vinculada ao Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa da Universidade de São Paulo. A colaboração, firmada em setembro deste ano, prevê que informações produzidas pela plataforma da Greenline possam ser consideradas na avaliação de projetos, desde que atendam às metodologias e aos critérios estabelecidos pela registradora.
"O mercado de carbono depende da confiança nas informações apresentadas pelos projetos. Essa parceria fortalece justamente esse aspecto. A tecnologia da Greenline acrescenta uma camada adicional de evidências, oferecendo mais segurança de que os dados apresentados refletem efetivamente a realidade observada em campo", afirma Ruy Réde, gerente de Transferência de Tecnologia e Inovação do RCGI-USP.
O executivo ressalta, porém, que a tecnologia não substitui o papel institucional da registradora. "Nosso papel continua sendo avaliar as evidências produzidas ao longo do processo, mas contar com uma tecnologia reconhecida de verificação digital aumenta a robustez e a credibilidade das informações que chegam à registradora."
A separação de responsabilidades é central para a credibilidade do sistema: a Greenline fornece dados técnicos, enquanto a registradora avalia as evidências segundo suas próprias regras. A parceria não representa aprovação automática dos projetos nem elimina a necessidade de auditorias e verificações independentes.
Metodologia adaptada ao Brasil
Para Odair Carvalho, diretor executivo da RCGI-USP Carbon Registry, a inovação não está apenas no uso de satélites, mas na combinação entre tecnologia e metodologias capazes de refletir melhor as características dos ecossistemas brasileiros e de outros países do Hemisfério Sul.
"O que estamos fazendo é uma inovação no mercado de carbono mundial. Nós estamos trazendo as metodologias embasadas no IPCC e na UNFCCC, que são as bases metodológicas de captura e mensuração de carbono, para a realidade do mercado brasileiro e do Hemisfério Sul", afirma Carvalho.
O executivo argumenta que muitas metodologias tradicionais foram concebidas considerando as condições do Hemisfério Norte. A proposta da registradora é trabalhar com referências científicas adaptadas à realidade de biomas como Amazônia, Mata Atlântica, Caatinga e Pampa, considerando o carbono presente no solo e na biomassa.
"Nós não reinventamos a roda, mas trouxemos uma mensuração fidedigna para a realidade do Brasil e dos seus biomas", diz Carvalho.
Seguro para reduzir a exposição do comprador
Outra frente da Greenline é a estruturação de uma apólice de seguro para créditos de carbono. Segundo Lopez, a companhia negocia uma operação com uma corretora internacional e pretende oferecer uma proteção que abranja riscos fundiários, climáticos e políticos.
A cobertura descrita pelo empresário poderá incluir situações em que problemas documentais ou conflitos territoriais comprometam a validade de um crédito, falhas bancárias afetem registros digitais ou mudanças regulatórias prejudiquem o ativo. Lopez afirma que a proposta prevê o reembolso do capital investido pelo comprador nos casos cobertos pela apólice.
A iniciativa busca responder a uma fragilidade do mercado: a possibilidade de um crédito ser contestado ou perder valor depois da compra. O seguro pode acrescentar uma camada de proteção financeira, mas não substitui a análise da origem do crédito, da documentação fundiária, da metodologia de mensuração e das condições contratuais da apólice.
A estratégia de acumular créditos
A estratégia de Lopez é acumular créditos para realizar operações de maior volume, em vez de colocar cada lote à venda assim que fica disponível. O empresário acredita que essa abordagem poderá ajudar a atender empresas que precisam compensar emissões em escala e que, na avaliação dele, ainda enfrentam dificuldades para encontrar oferta suficiente de créditos considerados confiáveis.
Por que isso importa para o produtor rural
Se você é produtor rural e mantém áreas de vegetação nativa preservadas em sua propriedade, essa notícia pode interessar. O mercado de créditos de carbono é uma oportunidade de gerar renda extra pela conservação ambiental. Empresas como a Greenline conectam produtores que preservam e sequestram carbono com companhias que precisam compensar suas emissões.
Além disso, a tecnologia de monitoramento por satélite e a parceria com registradoras renomadas tornam o processo mais confiável e transparente, o que pode facilitar o acesso do produtor a esse mercado.
🔧 Orientação:
Se você tem áreas de vegetação nativa em sua propriedade, avalie a possibilidade de participar de projetos de crédito de carbono. Procure informações sobre as metodologias e os requisitos necessários.
Converse com empresas especializadas e com sua assessoria jurídica para entender os contratos e as obrigações. E fique atento às oportunidades de monetização da preservação ambiental, que podem se tornar uma importante fonte de renda para a sua propriedade.
Resumo:
- Greenline monitora 1,5 milhão de hectares e fatura R$ 250 milhões.
- Empresa prepara créditos de carbono com seguro contra riscos fundiários, climáticos e políticos.
- Parceria com a RCGI-USP busca tornar o mercado mais confiável e acessível.
- Tecnologia usa satélites, inteligência artificial e dados geoespaciais para monitorar áreas.
- Produtor com vegetação nativa preservada pode gerar renda extra com créditos de carbono.
Fonte: Forbes.