Leonardita pode melhorar a adubação, mas resultado varia
Diferentemente dos fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos, a leonardita geralmente fornece quantidades pequenas de nutrientes, embora alguns extratos comerciais também contenham potássio e outros elementos.
A leonardita, material de origem geológica rico em substâncias húmicas, pode contribuir para o desenvolvimento das plantas e aumentar a eficiência do uso de nutrientes. No entanto, os resultados variam conforme as condições do solo, a cultura, a formulação do produto e o manejo adotado. Experimentos brasileiros registraram tanto ganhos de produtividade quanto ausência de resposta, indicando que o insumo deve ser avaliado como complemento à adubação, e não como substituto dos fertilizantes convencionais.
A leonardita é derivada de um tipo de carvão mineral de baixa maturidade que passou por oxidação natural ao longo de milhares de anos. Seu uso agrícola está associado à presença de ácidos húmicos e fúlvicos, compostos orgânicos que podem atuar como bioestimulantes. Diferentemente dos fertilizantes nitrogenados, fosfatados e potássicos, a leonardita geralmente fornece quantidades pequenas de nutrientes, embora alguns extratos comerciais também contenham potássio e outros elementos.
O que a pesquisa mostra sobre os ácidos húmicos?
Uma meta-análise publicada em 2014 na revista Advances in Agronomy, que reuniu 81 estudos e mais de 700 comparações, encontrou aumentos médios próximos de 20% na matéria seca da parte aérea e das raízes após a aplicação de substâncias húmicas. Entretanto, os resultados variaram bastante, e os autores identificaram respostas menores para materiais derivados de carvão marrom, grupo que inclui a leonardita. O efeito também foi mais expressivo em condições de estresse para as plantas.
Outra meta-análise, publicada em 2024 na revista Agronomy, reuniu 120 trabalhos de campo e 479 comparações entre tratamentos com e sem ácidos húmicos, mantendo a adubação. O estudo apontou aumento médio de 12% na produtividade, de 27% na eficiência de uso do nitrogênio e de 17% na absorção desse nutriente. Os resultados, porém, envolveram diferentes fontes de ácidos húmicos e condições de cultivo, não podendo ser atribuídos exclusivamente à leonardita nem reproduzidos automaticamente em solos tropicais brasileiros.
Ensaios brasileiros mostram resultados diferentes
Em um experimento da Epagri, em Santa Catarina, pesquisadores avaliaram um produto à base de lignito com 28% de ácidos húmicos e 17% de ácidos fúlvicos, aplicado em doses de 10, 20 e 40 litros por hectare em milho e soja. A produtividade média foi de aproximadamente 12.500 kg/ha de milho e 4.870 kg/ha de soja, sem diferenças significativas atribuídas ao produto. Também não foram observadas alterações em potássio, matéria orgânica, CTC, pH ou porosidade do solo.
Os autores levantaram duas possíveis explicações para a ausência de resposta: o solo já apresentava cerca de 30 g de matéria orgânica por quilograma e a aplicação sobre a palhada pode ter reduzido o contato do produto com o solo.
Em outro experimento com soja, citado na transcrição, houve aumento de produtividade superior a 10% após a aplicação no sulco de semeadura, em um solo com aproximadamente 17 g de matéria orgânica por quilograma. Já um estudo da Embrapa Solos, em Rio Verde (GO), registrou aumento médio de 17% com aplicação foliar de um produto à base de substâncias húmicas extraídas de turfa. Esse último resultado exige cautela, pois foi obtido em uma única safra, com financiamento do fabricante e elevada variabilidade experimental.
O conjunto dos resultados sugere que a resposta pode ser maior em solos com limitações ou sob estresse e menor em áreas com fertilidade bem manejada e plantio direto consolidado. Isso não significa, contudo, que o teor de matéria orgânica, isoladamente, permita prever o resultado.
Quando o investimento pode compensar?
A decisão depende do ganho necessário para pagar o produto. Em um exemplo hipotético apresentado no vídeo, uma aplicação que custa R$ 250 por hectare, considerando a soja a R$ 120 por saca, precisa gerar aproximadamente 2,1 sacas adicionais por hectare para cobrir o investimento. Em uma lavoura com produtividade de 81 sacas por hectare, isso representa um ganho próximo de 2,6%.
Se o produto não provocar aumento de produtividade, o custo não será recuperado. Se o ganho chegar a 5%, o acréscimo seria de pouco mais de quatro sacas por hectare, equivalente a cerca de R$ 487, antes de descontar o custo do insumo. Nesse cenário hipotético, sobrariam aproximadamente R$ 237 por hectare.
A conta demonstra por que não basta saber se a leonardita pode funcionar. É necessário avaliar a probabilidade de resposta na condição específica da propriedade e comparar o ganho esperado com o custo de aplicação.
Veja: https://www.youtube.com/watch?v=8sb_NBP-sFM
Como utilizar a leonardita com critério?
O primeiro passo é definir o objetivo. Se a intenção for elevar a matéria orgânica ou a CTC do solo, as doses usuais desses produtos não devem ser tratadas como solução para essa finalidade. A construção da matéria orgânica depende principalmente do aporte contínuo de resíduos vegetais, da rotação de culturas, da cobertura do solo e do manejo de fontes orgânicas em quantidades adequadas.
Antes da compra, confira o registro do produto, as garantias de ácidos húmicos e fúlvicos, o teor de potássio, a solubilidade e a origem da matéria-prima. Produtos diferentes podem apresentar concentrações e características distintas, de modo que o resultado de um experimento não deve ser generalizado para toda a categoria.
O posicionamento também importa. Aplicações no sulco de semeadura, junto às raízes ou em fases iniciais podem ser mais adequadas quando o objetivo é estimular o enraizamento. É necessário seguir o rótulo e verificar a compatibilidade antes de misturar o produto com outros insumos. A calagem e a adubação devem continuar fundamentadas na análise de solo e nas necessidades da cultura.
🔧 Orientação: Antes de adotar a leonardita em toda a área, faça faixas de comparação com e sem o produto, mantendo iguais a variedade, a adubação, a data de plantio e as demais operações. Sempre que possível, utilize pelo menos três repetições e acompanhe os resultados por duas safras. Assim, você poderá verificar se o ganho de produtividade compensa o investimento nas condições reais da propriedade.
Fonte: Epagri e da Embrapa Solos.