Helicoverpa abriga fungos que degradam isopor
Os resultados foram publicados em maio de 2026 na revista científica BMC Microbiology, em estudo que investigou a microbiota intestinal do inseto e sua relação com a degradação do polímero.
Uma das lagartas mais temidas pelos produtores rurais pode ajudar a encontrar alternativas para um problema ambiental das cidades: o descarte de isopor. Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) identificaram fungos presentes no intestino da Helicoverpa armigera com potencial para degradar o poliestireno expandido, material plástico conhecido comercialmente como isopor. Os resultados foram publicados em maio de 2026 na revista científica BMC Microbiology, em estudo que investigou a microbiota intestinal do inseto e sua relação com a degradação do polímero.
Fungos alteraram a superfície do plástico
O isopor é amplamente utilizado em embalagens, proteção de produtos e isolamento térmico por ser leve, barato e resistente à umidade. Entretanto, sua estrutura expandida contém grande volume de ar e pouco material plástico, o que dificulta o transporte e pode tornar a reciclagem economicamente menos atrativa. O estudo da UFSCar busca justamente investigar alternativas biológicas para lidar com esse resíduo.
A investigação começou com lagartas submetidas a três condições alimentares: dieta artificial convencional, dieta mista com 50% de poliestireno expandido e alimentação exclusiva com o material plástico. Os pesquisadores analisaram a microbiota intestinal por meio de metabarcoding, técnica que utiliza sequenciamento de DNA para identificar grupos de microrganismos.
Os resultados mostraram mudanças na composição dos fungos presentes no intestino conforme a dieta oferecida. A partir desse material, a equipe isolou quatro fungos filamentosos dos gêneros Aspergillus, Talaromyces e Penicillium, sendo duas espécies deste último gênero.
Em seguida, os microrganismos foram cultivados em laboratório e colocados em contato com películas de poliestireno durante 60 dias. Com o auxílio de microscopia eletrônica de varredura, os cientistas observaram alterações na superfície do plástico, incluindo a formação de cavidades. Entre os isolados, o fungo do gênero Talaromyces apresentou alterações mais evidentes, assim como um dos isolados de Aspergillus.
Segundo Flávio Henrique-Silva, professor do Departamento de Genética e Evolução da UFSCar e autor correspondente do artigo, a capacidade de alguns fungos de produzir e liberar enzimas que atuam sobre estruturas complexas ajuda a explicar o interesse científico nesses microrganismos. A pesquisa abre caminho para investigar quais organismos, genes e enzimas podem contribuir de forma mais eficiente para a degradação do poliestireno.
Aplicação ainda depende de novos estudos
Apesar dos resultados promissores, a descoberta não significa que as lagartas já possam ser utilizadas em cooperativas de reciclagem ou em instalações de tratamento de resíduos. O estudo demonstrou alterações na superfície do polímero em condições controladas, mas ainda são necessárias análises adicionais para caracterizar melhor as mudanças químicas e confirmar até que ponto o material é efetivamente biodegradado.
Uma das questões em investigação é determinar se o plástico está sendo convertido em moléculas menores ou apenas fragmentado em partículas de microplástico e nanoplástico. Essa distinção é fundamental para avaliar o benefício ambiental da tecnologia, já que a fragmentação, sem degradação adequada, pode apenas transferir o problema para partículas menores.
A equipe também estuda outros insetos e microrganismos com potencial para atuar sobre o poliestireno. A perspectiva é identificar os agentes biológicos mais eficientes e avaliar a possibilidade de utilizar os próprios microrganismos, ou as enzimas produzidas por eles, em futuros processos de tratamento de resíduos plásticos.
🔧 Orientação: Para o setor de reciclagem, a descoberta representa uma linha de pesquisa a acompanhar, não uma tecnologia pronta para uso. Por enquanto, o descarte correto e o encaminhamento do isopor para sistemas de coleta e reciclagem disponíveis continuam sendo as alternativas práticas; a aplicação dos fungos depende de validação, avaliação de segurança e desenvolvimento de processos em escala maior.
Fontes: Cardenas et al. (2026), BMC Microbiology, artigo científico completo; Agência FAPESP, pesquisa sobre fungos intestinais da Helicoverpa armigera.