Fazenda de café vira destino turístico e lucra 6 vezes mais
Foi exatamente isso que fez Michael Warui, gestor da Fairview Coffee Estate, no Quênia.
Imagine transformar uma fazenda de café centenária em um destino turístico e, com isso, multiplicar o lucro por seis. Foi exatamente isso que fez Michael Warui, gestor da Fairview Coffee Estate, no Quênia.
A propriedade fica nos arredores de Kiambu, a cerca de 14 km de Nairóbi, capital do país. Quando Warui assumiu a gestão, em 2015, optou por uma mudança radical em vez de manter o rumo tradicional da empresa familiar.
O resultado
O quilo do café vendido diretamente alcança US$ 8 (cerca de R$ 44). Mas quando a venda do produto é combinada com a cobrança de ingressos para visitas turísticas, o valor por quilo chega a US$ 50 (aproximadamente R$ 275). Ou seja, seis vezes mais.
Como surgiu a ideia
A percepção de Warui veio durante uma visita a uma vinícola na África do Sul. "O vinho e o café mantêm semelhanças em diversos aspectos", afirmou o executivo. "Por qual motivo não replicar a ideia do enoturismo vista na França ou na Califórnia na cadeia de valor do café?"
Novos modelos de negócios costumam surgir quando empresas observam outros setores. A reação habitual de especialistas do próprio segmento é apontar que a ideia não funcionará naquele local. O ponto central, segundo a reportagem, está na capacidade de construir analogias adequadas.
A trajetória que fez a diferença
Embora tenha crescido na propriedade cafeeira, Warui não seguiu a rotina de um agricultor tradicional. Após a graduação, foi proprietário de um bar, atuou em consultoria, integrou a equipe de Richard Leakey (paleoantropólogo e fundador do Serviço de Fauna Silvestre do Quênia) e dirigiu organizações não governamentais. Estudou na Inglaterra e na Dartmouth College, nos Estados Unidos.
Essa trajetória pouco convencional garantiu vantagem na identificação de conceitos de áreas distintas. A experiência operacional auxiliou no ajuste fino e na expansão do projeto. E a capacidade de estruturar o plano em uma narrativa convincente garantiu a compreensão de todos sobre o rumo do empreendimento.
Crescimento gradual
A conversão da propriedade em destino turístico não aconteceu da noite para o dia. "Os primeiros cinco anos registraram ritmo lento", lembra o gestor. "O projeto não funcionava como uma empresa estruturada naquele período inicial, representando uma atividade motivada pelo interesse pessoal".
Um profissional recém-graduado foi contratado para desenhar a experiência dos visitantes. O trabalho conjunto estabeleceu contato com hotéis e operadoras de turismo. Redes de contatos familiares também ajudaram: o pai de Warui atuou como o primeiro embaixador do Quênia nos Estados Unidos, e a união dessa rede com os contatos da graduação facilitou a atração de diplomatas estrangeiros para as visitas guiadas.
Com o tempo, vieram o treinamento de novos guias e o desenvolvimento da estrutura de torra e embalagem do produto. O projeto secundário transformou-se em uma operação comercial consolidada.
O que mudou no negócio
As vendas diretas de café ainda representam a maior parte do faturamento. No entanto, as margens de lucro da operação turística superam as do comércio tradicional. O planejamento prevê a inclusão de passeios para observação de aves e a construção de hospedagens na propriedade.
A experiência prévia de Warui no Serviço de Fauna Silvestre do Quênia ensinou a integração para ajustes operacionais e expansão. Naquela época, ele conduziu negociações com moradores de aldeias da etnia Maasai. "O gado entrava nos parques apenas nos períodos autorizados pela entidade", relata. "Em contrapartida, a organização auxiliava no acesso à água para a comunidade e no cuidado com a saúde dos animais".
Esse aprendizado foi aplicado na educação de crianças na fazenda e na geração de empregos. A atuação como diretor nacional da Technoserve, organização não governamental que desenvolve soluções empresariais no combate à pobreza, forneceu ferramentas para o estabelecimento de parcerias com hotéis e agências de turismo.
Comunicação que engaja
O estilo de comunicação de Warui afasta-se de apresentações corporativas formais. Ele adota tom acessível e alia dados numéricos a relatos práticos. Ao explicar a importância da transição para o turismo, a argumentação ultrapassa a busca por lucro.
"O continente africano produz 40% dos recursos mundiais, no entanto participa de apenas 3% do comércio global. Transferimos o valor dos nossos recursos para terceiros agregarem valor e depois recompramos sob a forma de produtos processados", afirma o gestor. "Decorridos 63 anos da independência, não há razão para manter essa dinâmica".
O que produtores rurais podem aprender
A história da Fairview Coffee Estate oferece lições práticas para quem atua no campo:
1. Olhe para outros setores: a ideia do enoturismo foi adaptada para o café. Que modelo de outro setor pode funcionar na sua propriedade?
2. Valorize sua trajetória: experiências fora do setor agrícola podem trazer insights valiosos para o negócio rural.
3. Cresça com cautela: a transição não precisa ser imediata. Teste, ajuste e expanda aos poucos.
4. Construa uma narrativa: saber comunicar o valor do seu produto e da sua história engaja parceiros e clientes.
5. Agregue valor: vender o produto direto ao consumidor, com experiência, pode render muito mais do que vender apenas a matéria-prima.
Resumo prático:
- Fazenda de café no Quênia transformou-se em destino turístico e multiplicou lucro por seis.
- Ideia surgiu ao observar o modelo de enoturismo em vinícolas.
- Trajetória profissional híbrida do gestor foi decisiva para identificar a oportunidade.
- Operação turística tem margens maiores que a venda tradicional de café.
- Lição para produtores: olhar outros setores, testar aos poucos e agregar valor com experiência.
Fonte: Forbes.