Sustentabilidade

Cálculo de Doses e Recomendação de Adubação Orgânica

Metodologias da Embrapa e dos manuais de adubação orientam o cálculo técnico das doses e o uso eficiente de compostos, estercos e outras fontes orgânicas.

Daniel Scotá
Especialista
4 min de leitura
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Toda recomendação de adubação orgânica deve ser fundamentada em três pilares:

•       Análise de solo: informa os teores disponíveis de nutrientes e a necessidade de reposição

•       Exigência nutricional da cultura: cada espécie e nível de produtividade tem demanda específica de N, P₂O₅ e K₂O

•       Caracterização do adubo orgânico: teores de nutrientes, relação C/N, eficiência de aproveitamento (EUAO) e teor de umidade

Equação Fundamental

A equação base para cálculo da dose de adubo orgânico, conforme metodologia da Embrapa e dos Manuais de Calagem e Adubação dos estados, é:

Dose (kg/ha ou t/ha) = Quantidade de nutriente recomendada (kg/ha)                         ÷ [Teor do nutriente no adubo (%) × Eficiência de aproveitamento (EUAO)]  Ou, na forma fatorial: Dose = Nutriente recomendado × fc  Onde fc (fator de conversão) = 100 ÷ (Teor do nutriente no adubo × EUAO × 10)

Eficiência de Aproveitamento (EUAO)

A eficiência de aproveitamento (EUAO) representa a fração do nutriente total contido no adubo que efetivamente fica disponível para a cultura no ciclo de aplicação. Varia com o nutriente, o tipo de adubo, as condições climáticas e o histórico do solo:

Nutriente

Composto Maduro

Esterco Curtido

Esterco Fresco

Cama de Aves

N

40–60%

50–70%

30–50%

60–80%

P₂O₅

60–80%

50–70%

40–60%

70–90%

K₂O

80–100%

80–100%

70–90%

80–100%

Tabela 4. Eficiência de aproveitamento estimada (EUAO) para o 1º ciclo de cultivo. Fonte: Embrapa; Manual de Calagem e Adubação de Minas Gerais (5ª Aproximação).

Exemplo Prático de Cálculo

Situação: plantio de 1 hectare de cebola. Análise de solo recomenda aplicar 120 kg/ha de N, 300 kg/ha de P₂O₅ e 180 kg/ha de K₂O. Dispõe-se de esterco bovino curtido (N=2%, P₂O₅=1%, K₂O=1%, base seca), cinzas vegetais (K₂O=6%) e fosfato natural (P₂O₅=30%). Os fatores de conversão (fc = 100 ÷ teor × EUAO × 10) são calculados com EUAO N=60%, P=60%, K=90%.

PASSO 1 — Calcule o esterco bovino com base no N: fc(N) = 100 ÷ (2 × 0,60 × 10) = 100 ÷ 12 = 8,33 kg de esterco por kg de N

Esterco necessário = 120 kg N × 8,33 = 1.000 kg/ha (≈ 1 t/ha) 

Nutrientes fornecidos por 1.000 kg de esterco:  

P₂O₅: 1.000 × 0,01 × 0,60 = 6 kg/ha  

K₂O:  1.000 × 0,01 × 0,90 = 9 kg/ha 

PASSO 2 — Complementar K com cinzas:

K₂O faltante = 180 – 9 = 171 kg/ha fc(K cinzas) = 100 ÷ (6 × 0,90 × 10) = 1,85 kg cinzas / kg K₂O Cinzas necessárias = 171 × 1,85 = 316 kg/ha 

PASSO 3 — Complementar P com fosfato natural:

P₂O₅ faltante = 300 – 6 = 294 kg/ha

Fosfato natural = 294 ÷ 0,30 = 980 kg/ha 

RESULTADO FINAL:  

1.000 kg/ha de esterco bovino curtido  

316 kg/ha de cinzas vegetais  

980 kg/ha de fosfato natural 

Nota: estes cálculos consideram apenas o aspecto nutricional.

O efeito condicionador físico e biológico da matéria orgânica é adicional e não quantificável nesta equação.

Doses de Referência por Sistema de Produção

Na ausência de análise química do adubo orgânico específico, os manuais estaduais e a Embrapa indicam doses de referência baseadas em experiência acumulada. Estas são ponto de partida, devendo ser ajustadas conforme resposta da cultura e histórico da área:

Sistema de Produção

Composto Maduro

Esterco Bovino Curtido

Cama de Aves

Horticultura intensiva

20–50 t/ha

20–40 t/ha

5–15 t/ha

Olericultura geral

10–30 t/ha

15–30 t/ha

4–10 t/ha

Fruticultura (plantio)

30–60 L/cova

20–40 L/cova

5–10 L/cova

Fruticultura (manutenção)

10–20 t/ha/ano

10–20 t/ha/ano

3–6 t/ha/ano

Culturas anuais (milho, soja)

5–15 t/ha

5–10 t/ha

2–5 t/ha

Pastagens degradadas

10–20 t/ha

10–20 t/ha

3–8 t/ha

Recuperação de solos erodidos

20–40 t/ha

20–40 t/ha

6–12 t/ha

Tabela 5. Doses de referência de adubos orgânicos por sistema de produção. Fonte: Embrapa Hortaliças (CT-65); manuais estaduais; literatura especializada.

Frequência e Momento de Aplicação

Incorporação antecipada: para estercos e compostos, a aplicação deve ser feita 15 a 30 dias antes do plantio, incorporando ao solo. Permite estabilização final, reduz fitotoxidez e melhora contato com as raízes.

Aplicação em cobertura: em fruticultura perene e culturas anuais em SPD, o composto pode ser distribuído na superfície ao redor da copa ou nas entrelinhas, sem incorporação. Ideal para manutenção do teor de MOS.

Adubação parcelada: em horticultura intensiva e sistemas de alta extração, fracionar 50% da dose no preparo do solo e 50% em cobertura (30–45 dias após o transplantio) melhora a sincronização com a demanda da cultura.

Fertirrigação orgânica: biofertilizantes líquidos e extratos húmicos podem ser aplicados via sistema de irrigação (gotejamento ou aspersão) em doses menores e frequentes, com maior eficiência de aproveitamento.

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