Pecuária

Princípios Básicos Do Manejo Das Pastagens

Daniel Vilar
Especialista
7 min de leitura
Princípios Básicos Do Manejo Das Pastagens
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Independentemente do tipo de animal que utilizará a pastagem, os princípios básicos de manejo são os mesmos e valem para qualquer pastagem, em qualquer lugar do mundo. Esses princípios básicos giram em torno da administração de dois processos aparentemente conflitantes: as plantas necessitam de folhas para crescer, e os animais necessitam das folhas para se alimentarem. Como é impossível maximizar esses dois processos de forma simultânea, o sucesso no manejo de pastagens estará para aqueles que tenham sensibilidade de não fazer o pêndulo do manejo se deslocar numa única direção.

O manejo que visa potencializar a produção de forragem se inicia na escolha de espécies forrageiras de boa qualidade, e se estende pela necessidade de se oferecer condições adequadas de crescimento a elas. A fertilização e o manejo da área foliar são os elementos centrais determinantes do crescimento da pastagem que mais podemos modificar através do manejo.

Uma vez que se crie condições de obtenção de uma elevada produção de forragem, esta tem de ser colhida através do pastejo. O oferecimento da forragem através de uma quantidade que potencialize o consumo dos animais é essencial, pois a eficiência no colher a forragem produzida não significa, necessariamente, alta produção animal. Lotações excessivas são eficientes em colher forragem, mas produzem pastagens degradadas, cuja estrutura limita a ingestão de forragem e o desempenho dos animais. O manejo dos animais, destacando-se o controle da oferta de forragem e da altura da pastagem, é fundamental para se buscar acoplar o crescimento da pastagem à demanda dos animais.

Assim como os animais, as plantas também têm suas exigências. Os insucessos no estabelecimento ou manejo de pastagens, invariavelmente, decorrem do não atendimento destas. Os erros comuns na condução de uma pastagem podem ser evitados atendendo-se os 10 mandamentos de uma boa pastagem. São eles:

1) Não economize em sementes ou mudas.

Use sementes e mudas de boa qualidade e em abundância.

2) Entenda que as plantas precisam ser alimentadas para produzir.

Se o solo não for suficientemente fértil (99,99% dos casos...), o que elas necessitam tem que ser provido via fertilização. Faça periodicamente uma análise de solo. Não caia no conto da planta rústica que vai bem em qualquer solo, ou de métodos de pastejo que “criam nutrientes”.

3) Não coloque os animais na pastagem antes do tempo necessário ao seu pleno estabelecimento.

O que você vê crescer acima do solo, também cresce abaixo dele. Espere as plantas dobrarem as folhas e cobrirem totalmente o solo. Em pastagens anuais de inverno, neste ponto algumas plantas já deverão entrar em estádio de pré-florescimento. Não se assuste, você não estará perdendo pasto. Ao contrário. Se a desculpa é que os animais estão precisando e você não pode esperar, você não está suficientemente bem organizado.

4) Entenda que a capacidade de suporte de uma pastagem significa a quantidade de animais que podemos ter nela com os animais expressando o máximo de seu potencial.

Pastagem não é garagem ou galpão, e lotação não remunera. Para bem focar o manejo da pastagem, ajuda em muito refletirmos sobre qual o produto que a remunera. O que você vende da pastagem? Este produto é que tem que ser priorizado no manejo. Animais jovens, normalmente, aumentam o rendimento da pastagem por terem melhor conversão alimentar e porque uma mesma área alimenta mais animais jovens que animais adultos.

5) Não reclame que você não tem pasto. Toda e qualquer pastagem, em qualquer lugar do mundo, tem comportamento de crescimento errático e variável.

Em determinados momentos do ano ela produz bastante e com qualidade, noutros é o inverso que acontece. O sucesso no manejo de pastagens é o resultado de como conseguimos nos adaptar, e nos moldar, a essas variações. Um exemplo muito simples disto é o direcionamento da estação reprodutiva dos animais visando concentrar parições primaveris. Há pastagens, em certos locais do mundo, que levam 1 ano para produzirem o mesmo que se produz num único dia no RS. Portanto, reflita antes de se julgar desafortunado.

6) Saiba que as pastagens necessitam de folhas para crescer.

São elas que interceptam a radiação solar e a transformam em crescimento. Se faltarem folhas na pastagem haverá crescimento aquém de seu potencial. Sempre que houver eliminação demasiada de folhas, o crescimento será prejudicado.

7) Não ignore ou subestime sua pastagem nativa.

As pastagens nativas, quando fertilizadas e bem manejadas, produzem tão bem quanto as melhores pastagens cultivadas. Se você acredita que esta afirmação não se aplica à sua, pense há quanto tempo ela não vem sendo bem tratada. Invista nela porque as espécies que ela contém certamente são as espécies mais adaptadas a sua região.

8) Permita aos animais consumirem o que eles mais gostam.

O que define o desempenho de um animal em pastejo é a abundância de folhas que ele encontra para se alimentar. As folhas são as partes mais nutritivas e preferidas pelo animal. O manejo deve priorizar o fácil e abundante encontro do animal com elas. Manejar bem uma pastagem significa permitir os animais fazerem o que eles melhor aprenderam ao longo da seleção evolutiva, ou seja, exercerem seletividade no pastejo. Não confunda, como ocorre com muitos técnicos, pastejo seletivo com pastejo excessivo sobre espécies preferidas.

9) Conheça e respeite o zoneamento agroclimático para forrageiras, bem como as épocas de plantio.

Por exemplo, pastagens perenes de verão têm poucas chances de sucesso nos Campos de Cima da Serra. Não existe espécie milagrosa que se adapte a todas as condições.

10) Taxa de lotação x desempenho

O entendimento da relação entre taxa de lotação e o desempenho dos animais é primordial no manejo das pastagens (FIGURA 1).

Figura 1. Relação entre taxa de lotação e desempenho de cordeiros em pastagens. Taxas de lotação referentes a pastagens altamente produtivas (Reproduzido de HODGSON, 1990).

Em lotações muito baixas a pastagem não é bem aproveitada e perde qualidade, embora o desempenho individual dos animais seja elevado. Em lotações excessivas a pastagem parece ser melhor aproveitada, mas é menos produtiva porque as folhas são contínua e excessivamente consumidas. Em outras palavras, em lotações baixas há alto consumo de pasto por cabeça, mas pouco consumo de pasto por hectare. Em lotações altas ocorre o contrário, o consumo por hectare é alto, mas o consumo por animal é baixo. Portanto, o segredo é encontrar uma lotação moderada tal que signifique razoável consumo de pasto por animal e por hectare. Não há como ter as duas coisas ao mesmo tempo. O erro mais comum é o excesso de lotação por medo de perder pasto. Senescência é um processo natural das pastagens e não algo a ser interpretado como perda ou algo a ser combatido.

Para saber se a pastagem está sendo bem conduzida, eis aqui alguns indicadores práticos:
• Pastagem folhosa e abundante.
• Pouco ou nenhum solo descoberto.
• Pouca ou nenhuma espécie indesejável.
• Folhas com coloração verde intensa.
• Raízes profundas, abundantes e vigorosas.
• Os animais passam pouco tempo pastejando e bastante tempo ruminando ou em outras atividades. Mais do que 8 horas de pastejo por dia, em geral, significa insuficiência de alimento.
• Os animais pastejam ao início da manhã e ao final da tarde. Quando houver ciclos de pastejo ao meio-dia ou à noite, é um indicativo de falta de alimento.
• Os animais têm elevada condição corporal e apresentam desempenho próximo de seu potencial.

Glossário

Altura da pastagem: corresponde à altura média das folhas na pastagem.

Forrageira: planta que serve para a alimentação dos animais.

Mantilho: material morto que fica acima do solo.

Lotação: número de animais por unidade de área.

Massa de forragem: quantidade de pasto encontrada num dado momento na pastagem.

Matéria seca: quantidade de pasto desprovido de seu teor em água.

Matéria verde seca: quantidade de pasto desprovido de seu teor em água e de todo e qualquer material senescente.

Oferta de forragem: quantidade de forragem disponível por dia para o animal.

Senescência: processo de morte dos tecidos das plantas.

Fonte

Carvalho, P. C. F. . Princípios básicos do manejo das pastagens. In: Octaviano Alves

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