Pecuária

Planejamento do Plantio de Cana-de-açúcar

Daniel Vilar
Especialista
8 min de leitura
Planejamento do Plantio de Cana-de-açúcar
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Cada propriedade agrícola deve trabalhar de acordo com a sua capacidade de sustentação e produtividade econômica, de forma que os recursos naturais sejam colocados à disposição do homem para seu melhor uso e benefício, procurando, ao mesmo tempo, preservar tais recursos para gerações futuras.

Na agricultura, o planejamento é uma prática cada vez mais comum entre os produtores rurais.

A adoção dessa técnica tem por finalidade maximizar o rendimento das culturas e, consequentemente, os lucros, além de minimizar os custos de produção, visto que é baseada na identificação e eliminação das possíveis causas de redução da produtividade.

O planejamento é o ponto inicial básico para o bom gerenciamento na propriedade agrícola.

No setor sucroalcooleiro o fomento agrícola nada mais é do que a garantia de fornecimento de matéria-prima para a indústria, o que envolve a produção (conservação e preparo do solo, plantio da cana, tratos culturais da cana-planta, colheita da cana e tratos culturais da cana-soca) e abastecimento de matéria-prima durante o período da safra.

O abastecimento durante o período da safra refere-se ao abastecimento hora a hora, envolvendo o conceito de logística de todo o canavial, máquinas e pessoal disponível.

A cana-de-açúcar é uma cultura perene porque, quando bem plantada e manejada, produz de cinco a oito safras sem precisar fazer um novo plantio (renovar o canavial).

Portanto, para que essa cultura seja economicamente rentável, e a produção de determinadas áreas ou empresas aumente ou pelo menos se mantenha constante, é necessário que se faça um planejamento agrícola plurianual com o máximo de detalhes possíveis.

Esse planejamento, para no mínimo, dois anos é importante, pois é necessário se fazer contratos de parcerias, preparar o solo, esperar o crescimento da cana, cujo primeiro corte pode demorar até 18 meses.

Em um planejamento plurianual para a exploração agroindustrial da cana-de-açúcar, devem ser contempladas inicialmente as áreas de plantio e as variedades a serem plantadas.

Planejamento das áreas de plantio

As áreas a serem plantadas com cana-de-açúcar, normalmente, são denominadas áreas de fundação ou áreas de renovação.

As áreas de fundação são aquelas que estão sendo cultivadas com cana pela primeira vez, são áreas recém-desmatadas ou anteriormente ocupadas com outras culturas.

Essas áreas caracterizam a expansão horizontal do canavial que, nos últimos dezoito anos (1990 a 2007), cresceu 2,4 milhões de hectares em todo território brasileiro, variando de 4,3 milhões em 1990 para 6,7 milhões de hectares em 2007. (IBGE, 2008).

Isso representa um aumento de 56,61%, média de 3,14% ao ano. Na região do triângulo mineiro e Centro-Oeste (Goiás e Mato Grosso do Sul) a cana-de-açúcar cresceu sobre áreas cultivadas com soja e pastagens.

As áreas de renovação são as que já foram cultivadas com cana pelo menos uma vez.

A renovação do canavial se faz necessária devido ao declínio da produtividade agrícola que comumente ocorre de uma safra para outra, porque, no decorrer de 5 a 8 anos esse declínio pode atingir percentuais de 40 a 60%.

Dessa forma, o ideal é que anualmente se renove de 12,5 a 20% da área total de cultivo da fazenda.

Para a definição do percentual da área de renovação de uma determinada empresa, é preciso conhecer a longevidade média dos canaviais na região, pois, em regiões onde são possíveis colheitas de oito safras de cana com redução total de produtividade inferior a 40%, só precisam ser renovados 12,5% do canavial por ano e, quando a longevidade média dos canaviais é de cinco anos é preciso uma renovação de 20%.

Em áreas ou regiões em que não se consegue colher pelo menos quatro safras de cana em um mesmo plantio com redução de rendimento agroindustrial inferior a 60%, é economicamente inviável a implantação dessa cultura devido aos altos custos de plantio.

No planejamento agrícola é importante o conhecimento do potencial produtivo da região. Os principais fatores que interferem na vida útil dos canaviais são: a precipitação pluvial (quantidade e distribuição anuais), temperatura, luminosidade, tipo de solo, variedades cultivadas, incidência de pragas e doenças, etc.

Os parâmetros ambientais ideais para o cultivo da cana-de-açúcar são: precipitação pluvial anual entre 1.500 e 2.000 mm bem distribuídos, temperatura de 20 a 35°C, fotoperíodo médio de 12 horas por dia, terrenos com topografia variando de plana a suavemente ondulada (declividade de até 12%), solos com textura média e níveis de fertilidade quanto mais altos, melhor.

Assim, é de suma importância conhecimento técnico por parte dos planejadores, pois é necessário se levantar o total de terras agricultáveis disponíveis na agroindústria, seus potenciais produtivos, oportunidades de mercado regional em relação à possibilidade de matéria-prima, arrendamento ou parcerias. De posse de todos os dados, determina-se uma produtividade média por cortes, o que facilitará o planejamento de plantio.

Na Tabela 6.1 é apresentado como exemplo o planejamento agrícola de uma determinada agroindústria sucroalcooleira da região Nordeste que tem, em média, uma moagem de 1.000.000 toneladas de cana plantadas numa área de 15.600 ha, com as médias de produtividade conforme Tabela 6.1.

Para o perfil ideal de corte, considera-se que é necessário cerca de 1 ha de muda para o plantio de 7 ha de cana.

Assim, numa área inicial plantada de 2600 ha e, planejando-se, para os demais anos um plantio de 2400 ha, tem-se que a área de colheita do primeiro corte é reduzida para 2028 ha, resultado da relação (2400 ha - (2600 ha / 7)).

O mesmo raciocínio serve para os demais anos. Como a agroindústria trabalha com seis cortes, no sétimo ano repete-se o mesmo perfil do primeiro ano.

Consultando os dados descritos na Tabela 6.1, conclui-se que, em média, é necessário o plantio anual de 2400 ha para proporcionar uma produção de aproximadamente 1000 toneladas de cana, em anos com condições climáticas normais.

A irrigação aumenta significativamente a longevidade dos canaviais, podendo fazer com que, mesmo no nordeste brasileiro onde a cana é menos longeva, seja possível colher de 10 a 12 folhas ou safras nas áreas com irrigação plena, sem precisar renovar o plantio.

Planejamento varietal

Após a definição da área de plantio é necessário escolher a variedade a ser plantada. Segundo Margarido (2006), a definição da variedade a plantar é uma decisão técnica e administrativa. No campo técnico, é preciso conhecer o tipo de solo clima da região para saber qual variedade plantar.

Enquanto que no campo administrativo, o ciclo da variedade é definido em função da época em que se pretende colher. As variedades de cana-de-açúcar normalmente têm uma classificação de acordo com o período ou ciclo de maturação.

Assim, as que amadurecem no início da estação seca são classificadas como precoces; as que amadurecem no final da estação seca são tardias; as intermediárias são conhecidas como de ciclo médio.

No planejamento varietal de uma empresa, o ideal é que 30% da área sejam plantadas variedades precoces; em 40%, variedades de ciclo médio e nos outros 30% variedades tardias. Nos Quadros 6.1 e 6.2 constam as características de algumas variedades de cana-de-açúcar cultivadas atualmente no Brasil e recomendações de manejo delas, respectivamente.

Outro ponto a ser observado no planejamento varietal é a topografia e o acesso aos terrenos, para que nas áreas de encostas e de acessos mais difíceis sejam plantadas variedades de ciclo médio que deverão ser colhidas no meio da safra ou em período de menor ocorrência de chuva.

Os ambientes de produção (irrigados ou de sequeiro – sem água) também devem ser considerados, porque a resistência à seca e a resposta da cana a irrigação são fatores determinante na escolha da variedade.

Em resumo o manejo varietal da cana-de-açúcar visa obter maior produtividade de colmo e açúcar através da alocação das variedades nos diferentes ambientes de produção, procurando obter melhores resultados pela interação do genótipo da planta e do ambiente de produção.

Para a realização correta do manejo, há a necessidade de conhecimento especializado e multidisciplinar da cultura e do ambiente, somado às informações conhecidas ou geradas em um local especifico.

Planejamento de colheita

Para esse importante planejamento é necessário a definição da capacidade de moagem diária e mensal. Isso é feito com base em dados históricos da moagem da agroindústria.

Segundo Margarido (2006), no planejamento de colheita o dimensionamento dos recursos humanos (cortadores de cana, tratoristas e motoristas) e materiais (caminhões, guinchos, colhedoras, transbordos, caminhão oficina, bombeiros e tratores) são de extrema importância.

O dimensionamento adequado desses recursos determinará menores custos de operação. Na colheita, normalmente se segue uma ordem preestabelecida onde primeiro se colhe as variedades precoces, depois as médias e por último as de ciclo longo (tardia), sempre obedecendo a uma distância média de colheita dia a dia para que se possa manter o fornecimento de cana-de-açúcar para a indústria hora a hora.

No dimensionamento dos equipamentos o número a ser considerado é sempre o médio. Assim no cálculo do número de caminhões, considera-se a distância média da agroindústria.

Pode-se citar como exemplo uma agroindústria cuja média de distância seja de 20 km, não se pode locar frentes de colheita a uma média superior a 25 km porque, normalmente haverá falta de matéria-prima. Por outro lado, se as frentes forem locadas a uma distância inferior a 15 km, haverá fila na entrega de cana.

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Fonte

DA SILVA, João Paulo Nunes; DA SILVA, Maria Regina Nunes. Noções da Cultura da Cana-de-Açúcar. 1ª ed. Inhumas – GO: IFG, 2012.

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