Custos e tarifas desafiam fruticultura brasileira
Quando o real se valoriza frente ao dólar, o produtor recebe menos em moeda brasileira pelas vendas externas, reduzindo a competitividade.
Mudanças no cenário internacional já começam a afetar diretamente a produção e a exportação de frutas brasileiras. Alta nos custos logísticos, barreiras sanitárias, oscilações cambiais e conflitos geopolíticos estão pressionando cadeias importantes como manga, uva e laranja. O tema foi debatido durante o evento “Debates em Socioeconomia”, promovido pela Embrapa no dia 14 de maio.
O encontro reuniu pesquisadores, economistas e representantes do setor produtivo para analisar como as crises globais estão impactando a fruticultura brasileira e o abastecimento do mercado. Segundo o pesquisador Pedro Gama, da Embrapa Semiárido, o objetivo foi discutir gargalos, tendências e desafios que limitam o crescimento do setor.
Na abertura do debate, o chefe-geral da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Francisco Laranjeira, destacou que a fruticultura movimenta bilhões de reais, gera empregos e ainda possui espaço para crescer no mercado internacional. Ele alertou, porém, que questões sanitárias têm sido usadas como barreiras comerciais por países importadores.
Entre os principais problemas citados estão o greening nos citros, o cancro da videira e a mosca-da-carambola. Essas doenças e pragas podem reduzir produtividade, elevar custos e dificultar exportações.
O economista Felipe Serigati, da Fundação Getulio Vargas, explicou que os conflitos no Oriente Médio elevaram os preços do petróleo, pressionando combustíveis, fertilizantes e fretes agrícolas. Segundo ele, isso aumenta os custos de produção em praticamente todas as cadeias do agro.
Na prática, quem produz frutas para exportação já sente os efeitos. O produtor Edis Matsumoto, do Vale do São Francisco, afirmou que o frete marítimo, embalagens e insumos devem continuar subindo. Além disso, produtores enfrentam regras cada vez mais rígidas da Europa sobre resíduos químicos nas frutas.
Ele também destacou a importância da genética no avanço da produção brasileira. Cultivares desenvolvidas pela Embrapa, como a uva BRS Vitória, ajudaram a expandir a viticultura no Semiárido.
Na citricultura, o cenário também preocupa. A pesquisadora Margarete Boteon, do Cepea da Esalq/USP, afirmou que o setor enfrenta pressão dupla: aumento dos custos e avanço do greening, principal doença dos citros. Segundo ela, a doença reduz a margem de manobra do produtor, porque os investimentos em manejo sanitário não podem ser reduzidos.
Já na manga, exportadores do Vale do São Francisco enfrentaram forte insegurança após anúncios de sobretaxas nos Estados Unidos. Segundo o pesquisador João Ricardo Ferreira de Lima, da Embrapa Semiárido, o início da safra de 2025 foi marcado por especulação e medo no mercado. Mesmo assim, problemas climáticos em países concorrentes, como México e Equador, ajudaram a manter as exportações brasileiras aquecidas.
Outro fator que preocupa os exportadores é o câmbio. Quando o real se valoriza frente ao dólar, o produtor recebe menos em moeda brasileira pelas vendas externas, reduzindo a competitividade.
Para quem trabalha com fruticultura, o momento exige atenção redobrada aos custos de produção, ao manejo fitossanitário e às oportunidades de mercado. A recomendação é acompanhar de perto o comportamento do dólar, os custos logísticos e as exigências dos mercados importadores para reduzir riscos e manter competitividade.