Eleições presidenciais de 2026: o que o agronegócio brasileiro pode esperar?
Entenda como as propostas dos candidatos à Presidência podem influenciar os juros, o crédito rural, os custos de produção e a competitividade do agronegócio brasileiro.
As eleições presidenciais de 2026 podem trazer mudanças importantes para o agronegócio brasileiro. Independentemente de quem vença a disputa, as decisões do próximo governo poderão influenciar diretamente os custos de produção, o acesso ao crédito, os investimentos e a competitividade do setor.
Mas quais são, de fato, os principais pontos que produtores rurais e profissionais do agronegócio devem acompanhar?
1. O impacto das eleições no agronegócio
O resultado das eleições não altera imediatamente a capacidade produtiva do agronegócio, mas pode impactar diretamente o ambiente econômico, regulatório e comercial no qual o setor opera.
Pensando como produtor rural ou profissional do agronegócio, existem cinco variáveis fundamentais que precisamos acompanhar: câmbio, juros, crédito rural, custos de produção e acesso aos mercados internacionais.
2. A importância da política econômica para o setor
Uma mudança no modelo econômico pode influenciar diretamente o agronegócio, mesmo que não provoque alterações imediatas na produção agropecuária.
De janeiro a setembro de 2026, o agronegócio brasileiro exportou US$ 133,6 bilhões, representando 46,9% das exportações totais do país.
O produtor brasileiro está exposto simultaneamente aos mercados interno e externo. Ele compra fertilizantes, defensivos, máquinas e combustíveis, contrata crédito para financiar suas atividades e comercializa sua produção tanto no Brasil quanto no exterior.
Ou seja, sua atividade é diretamente influenciada pelo câmbio, pelas condições de financiamento e pelas relações de oferta e demanda.
3. Juros e crédito rural
O Plano Safra 2026/2027 prevê R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, dos quais R$ 384,9 bilhões são destinados a custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões a investimentos.
O Pronamp oferece taxas de juros de 9% ao ano para custeio, enquanto determinadas linhas de investimento apresentam taxas entre 8,5% e 12,5% ao ano, conforme a finalidade.
Entretanto, a questão não é apenas quanto dinheiro o governo anuncia, mas quanto desse crédito efetivamente chega ao produtor, a que taxa, com quais garantias e em que momento.
É nesse contexto que entra a taxa Selic, que não é definida diretamente pelo presidente da República, mas pelo Banco Central.
O ponto fundamental é que as expectativas de inflação, a política fiscal e a credibilidade das contas públicas influenciam as condições para a redução ou elevação dos juros.
Para termos uma ideia, uma redução de um ponto percentual na taxa de juros de um financiamento de R$ 1 milhão representa uma economia de R$ 10 mil em um ano, considerando juros simples e o valor integral financiado durante o período.
Portanto, a condução da política econômica pode ter consequências significativas sobre os custos financeiros da atividade agropecuária.
4. Câmbio: dólar alto é bom ou ruim para o agronegócio?
Depende da atividade e da estrutura de custos de cada produtor.
Um dólar mais valorizado em relação ao real tende a elevar a receita, em moeda nacional, das exportações cotadas em dólar. Entretanto, ao mesmo tempo, pode encarecer fertilizantes, defensivos e outros insumos importados.
Isso significa que a valorização do dólar não representa necessariamente um aumento na rentabilidade do produtor.
É preciso considerar tanto os efeitos sobre o preço de comercialização quanto sobre os custos de produção.
5. O que muda nas propostas de Lula e Flávio Bolsonaro?
As propostas econômicas apresentadas pelos candidatos possuem diferenças importantes, especialmente em relação à condução da política fiscal, ao papel do Estado na economia, aos investimentos em infraestrutura e à tributação.
Enquanto o programa de Lula enfatiza a atuação do Estado como indutor do desenvolvimento econômico, o de Flávio Bolsonaro apresenta maior ênfase na redução de despesas públicas, nas concessões e na participação da iniciativa privada.
No agronegócio, os programas também abordam temas como infraestrutura, crédito rural, fertilizantes, seguro agrícola e competitividade.
É importante destacar que essas propostas representam compromissos programáticos, e não medidas já implementadas. Seus resultados dependerão da execução, da disponibilidade de recursos e, em muitos casos, da aprovação do Congresso Nacional.
6. Fertilizantes: a dependência brasileira das importações
O Brasil depende fortemente da importação de fertilizantes, o que representa uma vulnerabilidade estratégica para o agronegócio.
Guerras, sanções comerciais, custos de energia, problemas logísticos e variações cambiais podem comprometer tanto a disponibilidade quanto os preços desses insumos.
Os candidatos apresentam caminhos diferentes para ampliar a produção nacional:
Lula: seu programa enfatiza a atuação da Petrobras na produção de fertilizantes, a recuperação de unidades industriais e o estímulo aos bioinsumos.
Flávio Bolsonaro: propõe apoiar a produção nacional por meio do aproveitamento das reservas minerais brasileiras, especialmente de potássio e fosfato.
Ambas as propostas enfrentam desafios relacionados a investimentos, escala industrial, viabilidade econômica, licenciamento e tempo de implantação.
Uma observação técnica importante: possuir reservas minerais não significa ter fertilizantes imediatamente disponíveis para o agricultor.
É necessário considerar a concentração mineral, o beneficiamento, a solubilidade, a eficiência agronômica, a infraestrutura e os custos envolvidos na produção e distribuição desses insumos.
7. Meio ambiente e segurança jurídica
Esse é outro tema relevante, pois decisões do governo federal podem afetar o licenciamento ambiental, a regularização fundiária, o cumprimento do Código Florestal e as condições de acesso a determinados mercados.
No programa de Flávio Bolsonaro, aparece a proposta de tornar o licenciamento ambiental mais ágil, associando essa medida à ampliação da segurança jurídica.
O debate envolve tanto a necessidade de dar maior previsibilidade e eficiência aos processos quanto a importância de manter os controles ambientais necessários.
Ao mesmo tempo, é fundamental compreender que as exigências ambientais e de rastreabilidade não dependem exclusivamente do governo brasileiro.
Compradores internacionais também estabelecem critérios e condições para a aquisição de produtos agropecuários, o que pode influenciar diretamente o acesso do Brasil a determinados mercados.
8. Comércio exterior: China, Estados Unidos e União Europeia
Este talvez seja um dos assuntos de maior repercussão para o agronegócio exportador.
O programa de Flávio Bolsonaro prevê uma reaproximação diplomática com Estados Unidos, Argentina e Israel, mantendo o diálogo comercial com a China e outros parceiros.
O governo Lula, por sua vez, tem mantido relações comerciais com a China e participado das negociações do Mercosul com outros mercados.
Entretanto, a principal questão econômica não é necessariamente a afinidade política entre os presidentes, mas o acesso efetivo aos mercados internacionais.
Um exemplo recente é o desempenho das exportações brasileiras de carnes em setembro de 2026, quando houve uma queda de 15% na receita em comparação com o mesmo mês de 2025, em um contexto de restrições comerciais envolvendo China e União Europeia.
Esse cenário demonstra como barreiras comerciais, exigências sanitárias e decisões de outros países podem afetar diretamente o desempenho do agronegócio brasileiro.
O que o agronegócio realmente precisa?
Independentemente de quem vença as eleições, o agronegócio brasileiro continuará enfrentando o desafio de produzir com eficiência, competitividade e sustentabilidade econômica.
Contas públicas mais previsíveis, expectativas de inflação controladas e condições favoráveis à redução das taxas de juros poderiam facilitar o acesso ao crédito, estimular investimentos e proporcionar maior segurança ao planejamento das safras.
Além disso, infraestrutura adequada, segurança jurídica, acesso aos mercados internacionais e políticas que favoreçam a competitividade são fundamentais para o desenvolvimento do setor.
O resultado das eleições poderá mudar o ambiente em que o produtor rural toma suas decisões, mas a necessidade de produzir mais, com eficiência e custos competitivos, continuará sendo um dos grandes desafios do agronegócio brasileiro.