Super El Niño pode mexer com café, cacau e açúcar
A NOAA confirmou a formação do fenômeno El Niño e informou que ele pode ganhar força nos próximos meses, com 63% de probabilidade de atingir a intensidade de um "super El Niño" até 2027.
O mundo agrícola voltou a acender o sinal de alerta para o clima. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a formação do fenômeno El Niño e informou que ele pode ganhar força nos próximos meses, com 63% de probabilidade de atingir a intensidade de um "super El Niño" até 2027.
Embora o El Niño seja um fenômeno natural que ocorre entre dois e sete anos, seus impactos na produção de alimentos podem ser significativos. O aquecimento das águas do Oceano Pacífico altera os padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta, afetando diretamente culturas estratégicas como café, cacau e açúcar.
Para o produtor rural, isso significa mais um fator de incerteza em um cenário que já convive com custos elevados de produção, oscilações de mercado e eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.
Cacau: preocupação na África e preços sob pressão
O mercado de cacau é um dos mais sensíveis ao El Niño. Segundo a empresa de investimentos WisdomTree, todos os eventos fortes de El Niño registrados nos últimos 55 anos reduziram a produção mundial de cacau.
Na África Ocidental, responsável por cerca de metade da produção global, o fenômeno pode provocar uma combinação perigosa. Inicialmente, o excesso de chuvas favorece o aparecimento de doenças fúngicas nos cacaueiros. Posteriormente, períodos de calor intenso e ventos secos podem comprometer a floração e o enchimento dos frutos.
Foi exatamente esse cenário que ocorreu entre 2023 e 2024, quando a quebra de safra elevou os preços do cacau para patamares históricos, ultrapassando US$ 12 mil por tonelada.
Para os países produtores, como Costa do Marfim, Gana e Equador, o acompanhamento climático será decisivo nos próximos meses.
Café: robusta em maior risco
No mercado de café, as maiores preocupações estão concentradas no robusta (conilon).
O El Niño costuma trazer temperaturas mais elevadas e redução das chuvas para o Vietnã e a Indonésia, segundo e terceiro maiores produtores mundiais de robusta. Juntos, os dois países respondem por aproximadamente 50% da produção global dessa variedade.
Analistas do Citi avaliam que uma seca prolongada nessas regiões pode reduzir significativamente a produtividade e gerar nova pressão altista sobre os preços internacionais.
No Brasil, os efeitos sobre o café arábica tendem a ser mais complexos.
No curto prazo, temperaturas mais elevadas durante o inverno podem reduzir o risco de geadas nas regiões produtoras. Porém, olhando para a próxima safra, o cenário exige cautela. Historicamente, o El Niño favorece períodos de calor e déficit hídrico nas áreas cafeeiras brasileiras durante o quarto trimestre, justamente na fase de desenvolvimento das lavouras que serão colhidas em 2027.
Se o estresse hídrico se confirmar, a produtividade poderá ser comprometida.
Açúcar: efeitos diferentes entre os países
Para o açúcar, o comportamento do El Niño é mais heterogêneo.
No Brasil, o fenômeno geralmente provoca mais chuvas na segunda metade do ano, o que pode dificultar as operações de colheita, reduzir a qualidade da matéria-prima e aumentar os desafios logísticos.
Por outro lado, na Índia e na Tailândia, grandes players globais do açúcar, o padrão climático costuma reduzir as precipitações das monções.
As previsões indicam que a Índia poderá registrar em 2026 o menor volume de chuvas em 11 anos, com precipitações equivalentes a apenas 90% da média histórica. Segundo estimativas da consultoria Hedgepoint, até mesmo um El Niño moderado poderia reduzir a produção indiana em cerca de 1 milhão de toneladas de açúcar.
Ao mesmo tempo, o excesso de chuvas no Brasil pode beneficiar a recuperação das lavouras para a safra de 2027, ajudando a recompor a oferta global no médio prazo.
O que isso significa para você?
O possível fortalecimento do El Niño não é apenas uma notícia climática. Ele pode alterar a oferta mundial de alimentos, mexer com preços, influenciar custos de produção e aumentar a volatilidade dos mercados agrícolas.
Se você produz café, cana ou outras culturas sensíveis ao clima, este é o momento de reforçar o monitoramento meteorológico, revisar estratégias de irrigação, planejar o manejo hídrico e acompanhar os movimentos de mercado. Em anos de El Niño forte, antecipar decisões costuma fazer a diferença entre apenas reagir aos impactos e conseguir transformar riscos em oportunidades.