Agricultura

Micorrizas arbusculares: fungos transformando plantas em máquinas de absorção de nutrientes e defesa

Os benefícios não se limitam à nutrição.

Redação Agriconline
Equipe editorial
3 min de leitura
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Imagine uma planta cuja raiz consegue explorar um volume de solo várias vezes maior do que o alcance natural dela. Não por milagre, mas por uma parceria antiga e eficiente com fungos do solo. Essa associação se chama micorriza arbuscular. Os fungos micorrízicos arbusculares (FMAs) colonizam as raízes da maioria das plantas terrestres — cerca de 80% das espécies — e formam estruturas especializadas chamadas arbúsculos dentro das células do córtex radicular. Em troca de açúcares e lipídios que a planta fornece, o fungo entrega nutrientes, água e uma dose extra de proteção.

Essa simbiose existe há aproximadamente 460 milhões de anos. Ela ajudou as primeiras plantas a conquistar o ambiente terrestre e continua presente nos campos brasileiros até hoje. No Cerrado, por exemplo, pesquisas da Embrapa Cerrados, iniciadas em 1977, mostraram que a presença desses fungos faz diferença real no crescimento e na produtividade de várias culturas, especialmente em solos ácidos e pobres em fósforo.

A extensão invisível das raízes

O fósforo é um dos nutrientes mais limitantes na agricultura brasileira. Ele se move pouco no solo e forma uma zona de depleção rápida em volta da raiz. As hifas dos FMAs resolvem parte desse problema: elas se espalham pelo solo e absorvem o nutriente em áreas que as raízes sozinhas não alcançariam. Estudos clássicos e revisões recentes mostram que a via micorrízica pode responder por 20% a 100% do fósforo absorvido pela planta, dependendo da espécie, do fungo e das condições do solo. Em alguns casos, praticamente todo o fósforo chega pela parceria com o fungo.

A Embrapa documenta há décadas esse efeito em solos de Cerrado. Culturas como soja, milho, feijão, mandioca, braquiária, café, citros, manga, acerola, maracujá e várias espécies florestais e forrageiras respondem positivamente à colonização. Em testes com mudas, o substrato enriquecido com fungos selecionados acelerou o crescimento e melhorou a nutrição, principalmente a absorção de fósforo. A mesma lógica vale para a produção de mudas de eucalipto, jacarandá-da-bahia e palmeiras.

Além do fósforo, as hifas ajudam na absorção de nitrogênio, zinco, cobre e água. Em condições de seca moderada, a rede fúngica amplia a área de busca por umidade. Em experimentos com milho sob estresse hídrico, a inoculação com FMAs (como Rhizophagus clarus) e, em alguns casos, em combinação com rizobactérias, aumentou a absorção de fósforo marcado, mostrando que a parceria continua útil mesmo quando a água fica escassa.

Defesa que vem de baixo para cima

A parceria não para na nutrição. Plantas micorrizadas costumam ficar mais resistentes a patógenos de solo e, em muitos casos, a agressões na parte aérea. O fenômeno é conhecido como resistência induzida por micorriza (MIR, na sigla em inglês).

Os mecanismos são vários e atuam juntos. A colonização ocupa espaço e compete com fungos patogênicos por sítios de infecção. A planta, ao receber melhor nutrição, tolera melhor os danos. Há também mudanças na comunidade microbiana da rizosfera e, principalmente, um “priming” das defesas: a planta fica preparada para responder mais rápido e com mais intensidade quando o ataque realmente chega. Isso envolve vias de sinalização ligadas ao ácido jasmônico e, em menor grau, ao ácido salicílico, além de reforço de paredes celulares e produção de compostos de defesa.

Revisões em periódicos de alto impacto descrevem proteção contra diversos patógenos de raiz (Fusarium, Phytophthora, Rhizoctonia, nematoides) e, em alguns sistemas, redução de doenças foliares. Em videiras, por exemplo, espécies como Rhizophagus e Funneliformis ajudam a enfrentar estresses bióticos e hídricos. Em tomate e milho, a inoculação prévia com FMAs aumentou a expressão de genes de defesa e reduziu a severidade de doenças. O efeito não é absoluto nem universal — depende da combinação planta-fungo-patógeno e das condições de fósforo no solo —, mas é consistente o suficiente para ser considerado uma ferramenta de manejo.

Na prática do campo e do viveiro

A Embrapa Cerrados desenvolveu e disponibilizou substrato micorrizado com espécies selecionadas. Em viveiros, a inoculação de mudas de café, citros, frutíferas e espécies nativas do Cerrado resultou em plantas mais vigorosas e com maior capacidade de absorver fósforo. No sistema de plantio direto, a manutenção da cobertura e a menor revolvimento do solo favorecem a sobrevivência e a multiplicação dos fungos nativos, que se concentram nas camadas superficiais. No plantio convencional, a colonização tende a depender mais da germinação de esporos e demora mais para se estabelecer.

Espécies como Rhizophagus clarus, Glomus e outras isoladas de diferentes biomas brasileiros (incluindo Amazônia e Cerrado) mostram potencial para inoculantes. Há resultados promissores com milho e espécies florestais. A produção massal ainda enfrenta desafios técnicos, mas a pesquisa avança, inclusive com cultivo monoxênico em raízes transformadas.

É importante lembrar que doses altas de fósforo solúvel podem reduzir a colonização. Em solos bem adubados, a planta investe menos na simbiose. Por isso, o manejo equilibrado da fertilidade — evitando excessos — favorece a parceria. Em solos pobres ou em sistemas de base biológica e orgânica, o benefício costuma ser mais evidente.

Uma parceria que vale a pena

As micorrizas arbusculares não substituem o manejo adequado do solo nem a adubação necessária. Elas ampliam a eficiência do sistema. Transformam a raiz em uma rede de captura mais ampla, melhoram a nutrição, aumentam a tolerância a estresses e ativam defesas. No contexto brasileiro, com solos frequentemente deficientes em fósforo e com pressão crescente por sustentabilidade, essa associação antiga continua sendo uma das ferramentas biológicas mais poderosas disponíveis.

Pesquisas da Embrapa e revisões em periódicos internacionais (Nature Reviews Microbiology, Annual Review of Plant Biology, Frontiers, Journal of Experimental Botany, entre outros) confirmam o que produtores e técnicos observam no dia a dia: plantas bem colonizadas crescem melhor, aproveitam melhor o que o solo oferece e enfrentam desafios com mais robustez. Vale a pena cuidar do solo para que esses fungos prosperem — e, quando fizer sentido, inocular de forma consciente. A máquina de absorção e defesa já existe. Basta dar condições para ela funcionar.

Referências

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