Mudanças climáticas já afetam a produtividade no campo: o que fazer agora
El Niño de 2026 traz chuvas extremas no Sul e seca no Norte e Nordeste; estudos projetam perdas de produtividade em milho, feijão, café e laranja nas próximas décadas
Se você sente que o clima está cada vez mais imprevisível, não é impressão sua. As mudanças climáticas já estão afetando a produção agrícola brasileira — e os efeitos devem se intensificar nas próximas décadas.
O climatologista Carlos Nobre, pesquisador da USP e uma das maiores referências do país no tema, é direto: “Os eventos extremos não são algo que só vai acontecer no futuro. Já estão acontecendo” .
O que está acontecendo agora
O El Niño de 2026, classificado como “muito forte”, está afetando a produção agrícola de forma desigual pelo Brasil. Nos estados do Sul — Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná —, as chuvas acima da média histórica já causaram inundações e danos em lavouras de trigo, soja, milho e frutíferas. Em julho, o Rio Grande do Sul registrou mais de dez dias consecutivos de chuva, seguidos por um ciclone extratropical com ventos superiores a 100 km/h .
“O excesso de umidade compromete o sistema radicular das plantas e pode provocar a morte delas. Além disso, os ventos fortes e o granizo geram perdas diretas”, explica o pesquisador Alex Mayer, da Embrapa .
No extremo oposto, a região amazônica e o Nordeste enfrentam diminuição crítica das chuvas. A projeção da Embrapa indica menor disponibilidade hídrica e temperaturas mais elevadas, colocando em risco cultivos permanentes e a produção de hortaliças e frutas, especialmente no vale do São Francisco .
O que a ciência projeta para as próximas décadas
Pesquisadores do INCT Klimapolis apresentaram dados preocupantes em seminário realizado em março de 2026. Segundo a pesquisadora Gizelly Cardoso Lima, a tendência apontada pela maioria dos estudos é de impacto predominantemente negativo sobre a produção agrícola.
“As mudanças climáticas tendem a afetar ainda mais a produtividade de culturas como soja, milho, cana-de-açúcar, mandioca, arroz e trigo, além das pastagens. A maioria dos estudos aponta impactos predominantemente negativos, com maior vulnerabilidade da agricultura familiar e das regiões Norte e Nordeste”, afirmou .
As projeções indicam perdas de produtividade em culturas como milho, feijão, café e laranja. Cultivos ligados à agricultura familiar, como mandioca e banana, também aparecem entre os mais vulneráveis. Em sentido oposto, cana-de-açúcar, trigo e uva podem apresentar ganhos em algumas regiões do país .
No caso da soja, os impactos variam conforme a região. Simulações indicam possibilidade de perdas em áreas de expansão agrícola do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), enquanto áreas do Centro-Sul podem registrar ganhos em determinados cenários climáticos .
O paradoxo da soja: mais produção, menos qualidade
Um estudo da USP publicado na revista Food Research International revelou um efeito inesperado das mudanças climáticas sobre a soja. A combinação de altas temperaturas, seca e níveis elevados de gás carbônico pode aumentar a produtividade da cultura — mas às custas da qualidade nutricional.
Segundo a pesquisa, o aumento do CO₂ impulsiona a produção de biomassa e o rendimento dos grãos, mitigando parte dos danos causados pelas altas temperaturas e pela seca. No entanto, as simulações indicaram redução de cerca de 6% no teor de proteína dos grãos e de 20% no amido .
“Essa perda é um ponto de atenção tanto para a segurança alimentar quanto para as políticas de exportação, já que o valor nutricional é um fator estratégico para a competitividade da soja brasileira”, afirma a bióloga Janaina Fortirer, primeira autora do estudo .
O calor extremo como multiplicador de riscos
Um relatório conjunto da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e da OMM (Organização Meteorológica Mundial), divulgado em maio de 2026, alerta que eventos de calor extremo estão se intensificando em frequência e severidade.
Para a maioria das grandes culturas agrícolas, a produtividade começa a cair acima de 30°C — limite menor para algumas espécies, como batata e cevada. O calor extremo causa enfraquecimento das paredes celulares, pólen estéril e produção de compostos oxidativos tóxicos nas plantas .
O relatório também destaca que o calor extremo atua como “multiplicador de riscos”, amplificando os efeitos da escassez hídrica, servindo como gatilho para secas repentinas e elevando o risco de incêndios e proliferação de pragas e doenças .
O que fazer diante desse cenário
A adaptação não é mais opcional. Segundo o agrometeorologista Gilberto Cunha, da Embrapa, “o desafio atual não é prever o El Niño, mas transformar o conhecimento climático em decisões práticas no campo” .
Entre as recomendações da Embrapa estão: ajustar os níveis de investimento e as expectativas de rendimento aos cenários típicos do fenômeno climático (e não a condições excepcionais), contratar seguro rural e usar previsões oficiais para planejar plantio e colheita .
A pesquisa também aponta caminhos técnicos. Um estudo sobre milho no Brasil mostrou que a chamada “simulação de ciclo corrigido” — ajustes no ciclo da cultura para se adaptar às novas condições climáticas — reduz o risco de produtividade média em relação ao cenário atual .
Para a horticultura, a equipe do Cepea recomenda monitoramento climático contínuo, manejo mais preciso das lavouras, escalonamento de plantios e avaliação de riscos como fatores decisivos para preservar produtividade e rentabilidade em 2026 .
Procure o escritório da Emater ou da Embrapa mais próximo e pergunte sobre as projeções climáticas para a sua região nos próximos meses. Ajuste o calendário de plantio com base nessas informações, não na tradição. E avalie a contratação de seguro rural — com eventos extremos cada vez mais frequentes, a proteção financeira deixou de ser luxo e passou a ser ferramenta de gestão.