El Niño forte: 4 pilares para proteger sua lavoura no Cerrado
Pesquisa da Embrapa mostra que plantio direto e escalonamento de semeadura reduzem perdas; Zarc é aliado para transformar incertezas em riscos gerenciáveis.
O El Niño confirmado para 2026/27 deve ser um dos mais fortes da história, com possibilidade de anomalias térmicas superiores a +2,5°C no Pacífico tropical . No Cerrado, onde a produtividade das lavouras está diretamente ligada ao regime de chuvas, o fenômeno pode provocar três grandes problemas: irregularidade no início da estação chuvosa, veranicos prolongados e efeitos na safrinha . Esses riscos se traduzem em perda de produtividade e de capital investido .
Segundo o pesquisador Fernando Macena, da Embrapa Cerrados, mais importante que tentar prever eventos globais com precisão é oferecer ferramentas práticas para que produtores convivam com as condições ambientais reais . Uma delas é o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), que integra dados meteorológicos históricos e parâmetros de 44 culturas para delimitar os níveis de risco de 20%, 30% e 40% de perdas em cada município . A ferramenta traduz dados climáticos complexos em orientações claras sobre datas de semeadura, tipos de solos e cultivares — transformando incertezas em riscos gerenciáveis .
Estudo comprova eficácia do plantio direto
Uma pesquisa em fase de publicação simulou, com o modelo Stics, a produtividade da soja BRS 8383IPRO em quatro localidades do Cerrado (Cuiabá, Rio Verde, Planaltina e Barreiras), usando séries históricas de 1975 a 2024 . O resultado foi claro: a adoção do Sistema Plantio Direto (SPD) conferiu produtividades superiores em todas as situações analisadas, enquanto o plantio convencional (com aração e gradagem) potencializou as perdas em anos de El Niño . A cobertura permanente do solo por palhada protege contra o impacto das chuvas, amplia a infiltração de água e regula a temperatura .
Plano de ação em quatro pilares
Para enfrentar a safra sob influência de um El Niño forte, Macena recomenda um plano ancorado em quatro pilares práticos:
Sistema Plantio Direto (SPD): a transição para o SPD — com ou sem integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) — torna o sistema mais resiliente, salvaguardando a produtividade e o capital investido .
Escalonamento da semeadura: evite concentrar o plantio em uma única data. Combine cultivares de ciclos precoce, médio e tardio, seguindo a janela recomendada pelo Zarc . Isso dilui o risco de estresse hídrico generalizado .
Monitoramento integrado de pragas: temperaturas elevadas e períodos secos favorecem o aumento de insetos-praga. Planeje vistorias frequentes para intervenções rápidas e preventivas .
Gestão financeira e proteção de mercado: associe o cumprimento do Zarc a ferramentas de proteção de preços e contrate seguro agrícola adequado .
Imagine que você planta soja no Cerrado. Em anos de El Niño, semear no início da janela (setembro/outubro) aumenta o risco de estresse hídrico. A pesquisa mostrou que a quebra de rendimento é mais severa nesse período. Com o SPD, você mantém a palhada, protege o solo e reduz perdas. Com o escalonamento, você não coloca toda a safra na mesma data, diluindo o risco.
🔧 Orientações:
Consulte o Zarc para sua região e cultura antes de definir a data de semeadura.
Aguarde a estabilização da estação chuvosa: monitore boletins meteorológicos regionais até que haja umidade suficiente para a germinação e verifique a temperatura do solo antes de iniciar o plantio.
Invista no SPD: se você ainda não adotou o plantio direto, considere a transição. Os resultados da pesquisa mostram que ele confere produtividades superiores mesmo em anos adversos.
Escalone a semeadura e combine ciclos: use cultivares precoces, médias e tardias, distribuídas em diferentes datas, para reduzir a exposição a veranicos.
Proteja sua renda: contrate seguro rural e avalie ferramentas de proteção de preços para se proteger contra oscilações de mercado.
Fonte: Embrapa.