Brasil faz primeiro grande embarque de sorgo à China e abre novo mercado
A carga saiu do Terminal Export Cofco (TEC), no Porto de Santos, com destino a Nansha, em Guangzhou, onde será distribuída pela Cofco Trading, segundo comunicado da companhia.
O Brasil acaba de dar um passo importante no comércio de grãos. Nesta quinta-feira (20), a Cofco International realizou seu primeiro embarque de sorgo brasileiro em grande escala para a China, colocando o cereal nacional em uma corrente comercial que movimenta entre 5,5 milhões e 10 milhões de toneladas por ano no país asiático.
A carga saiu do Terminal Export Cofco (TEC), no Porto de Santos, com destino a Nansha, em Guangzhou, onde será distribuída pela Cofco Trading, segundo comunicado da companhia.
"A abertura do mercado chinês cria novas possibilidades para o sorgo brasileiro, ampliando as alternativas de comercialização para os produtores e conectando a produção nacional a um importante mercado consumidor", afirmou Luiz Noto, CEO da divisão de Grãos e Oleaginosas da Cofco no Brasil, em declaração à Reuters.
Para a companhia, o novo fluxo acrescenta uma commodity à estrutura que conecta a produção agrícola nacional aos compradores chineses — mercado no qual o Brasil já ocupa posição relevante nas vendas de soja e carne bovina.
Por que a China compra sorgo?
A oportunidade está relacionada à forma como a China administra seu abastecimento de grãos. Dados do Foreign Agricultural Service (USDA) situam as importações chinesas de sorgo em uma faixa de 5,5 milhões a 10 milhões de toneladas por ano.
O cereal ocupa uma posição distinta de outros ingredientes para alimentação animal porque não está sujeito ao sistema de quotas tarifárias (TRQ) aplicado pelo governo chinês a produtos como o milho. Na prática, esse desenho regulatório permite que os fabricantes de ração recorram ao produto importado quando sua relação de preços com o milho torna a substituição economicamente viável.
O sorgo possui valor energético próximo ao do milho e pode integrar formulações destinadas principalmente a suínos e aves. Em um país com uma cadeia de proteína animal de grande escala, a possibilidade de trocar ingredientes sem depender das mesmas limitações tarifárias transforma o cereal em instrumento de ajuste de custos para as empresas de nutrição animal.
A disputa pelo sorgo chinês
A demanda chinesa possui ainda uma característica que separa o sorgo importado daquele produzido dentro do país. A safra doméstica permanece entre 3 milhões e 3,5 milhões de toneladas por ano, segundo informações da USDA e da Administração Geral de Alfândegas da China (GACC).
Parte relevante desse volume abastece a produção de baijiu, o destilado tradicional chinês fabricado com variedades específicas do cereal, que apresentam maior presença de taninos, associadas ao processo de fermentação e ao perfil da bebida. Empresas como a Kweichow Moutai operam nesse segmento, que utiliza sorgo como insumo central.
Esse consumo da produção local ajuda a explicar por que a China, mesmo cultivando o cereal, mantém necessidade estrutural de compras no exterior para outros usos — principalmente a alimentação animal.
Imagine que você planta soja ou milho no Cerrado e tem uma área que sofre com estiagens frequentes. O sorgo é uma cultura mais tolerante à seca, que pode ser plantada em áreas marginais ou em segunda safra. Com a China abrindo as portas, você tem agora um comprador de peso para esse grão. Isso significa mais uma opção de renda na propriedade e menos dependência de uma única cultura.
Brasil entra como alternativa aos EUA
Segundo a Reuters, a China habilitou fornecedores brasileiros como alternativa aos Estados Unidos, cujas vendas de sorgo aos compradores chineses caíram durante a guerra comercial de 2025. A mudança amplia as origens disponíveis para um cereal que pode substituir parte do milho importado na formulação de rações.
"Para a COFCO International, este embarque reforça nossa atuação na comercialização de diferentes commodities agrícolas e a capacidade da companhia de conectar a produção brasileira a mercados estratégicos", afirmou Noto. A empresa informou que outros carregamentos para a China estão previstos na programação de navios.
Outras empresas chinesas no Brasil
Além da Cofco, há outras empresas brasileiras controladas por capital chinês que podem ampliar o caminho do sorgo para a China. A Fiagril, adquirida em 2016 pela Pengdu Agriculture, e a Belagrícola, que desde 2017 tem 53,99% de seu capital nas mãos da mesma companhia chinesa, atuam diretamente junto aos produtores e na comercialização de grãos e insumos.
Para o produtor brasileiro:
O acesso ao comprador chinês acrescenta um destino externo a uma cultura adaptada a sistemas produtivos marcados por menor disponibilidade de água. O sorgo possui tolerância ao déficit hídrico e pode ocupar áreas e janelas agrícolas nas quais outras culturas encontram maiores limitações.
A relevância comercial do novo mercado dependerá da continuidade dos embarques, dos preços oferecidos e da capacidade da cadeia nacional de reunir volumes compatíveis com a demanda chinesa.
O movimento também altera a dimensão da experiência iniciada no começo do ano. O Brasil realizou em janeiro deste ano sua primeira exportação de sorgo para a China desde 2014, em um volume compatível com um contêiner e tratado como operação de teste. O embarque feito agora pelo TEC transfere o cereal para a logística de grandes cargas a granel e coloca o mercado chinês entre os destinos que podem disputar a produção brasileira nas próximas safras.
🔧 Orientações:
Para o produtor rural, essa novidade traz oportunidades e reflexões:
1. Considere o sorgo como opção de rotação ou segunda safra: com a China como compradora, o sorgo ganha atratividade. Avalie se sua região tem condições de produzir o cereal com boa produtividade e custo competitivo.
2. Fique atento aos preços e à logística: o mercado de sorgo ainda está se formando. Acompanhe as cotações e os prêmios de exportação para entender se a cultura é viável na sua propriedade.
3. Diversifique sua produção: com a abertura do mercado chinês, o sorgo pode ser uma alternativa para reduzir a dependência da soja ou do milho, especialmente em anos de estiagem.
4. Planeje-se com antecedência: a demanda chinesa é grande, mas exige escala. Se você é um pequeno ou médio produtor, considere se organizar em cooperativas para reunir volume suficiente para exportação.
5. Invista em tecnologia e genética: o sorgo brasileiro precisa de variedades produtivas e adaptadas às condições locais. Converse com seu engenheiro agrônomo sobre as melhores opções para sua região.
O sorgo brasileiro está entrando no mapa das exportações. Quem se preparar agora pode colher os frutos dessa nova rota comercial nos próximos anos.
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Fonte: Forbes.