Agricultura digital: IA avança, mas conectividade ainda é gargalo
Evento do IICA e Embrapa debate uso de inteligência artificial no agro; especialistas apontam desafios em dados, capacitação e inclusão digital.
O futuro da agricultura passa pela digitalização, mas o caminho ainda tem desafios. Esse foi o tom do II Dia da Agricultura Digital, organizado pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA Brasil) e pela Embrapa, realizado na quarta-feira (26/8), na Embrapa Agricultura Digital, em Campinas (SP). O evento integra a programação da Semana da Agricultura Digital, promovida pelo IICA em setembro, na Costa Rica.
A programação contou com painéis de debate, vitrine de tecnologias e palestra sobre inteligência artificial (IA) no setor agropecuário, proferida pelo chefe-geral da Embrapa Agricultura Digital, Stanley Oliveira. "A agricultura está cada vez mais conectada, digital e orientada por dados", destacou a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, em mensagem de vídeo, ressaltando que a IA deve avançar para uma agricultura preditiva, "que antecipe riscos, aumente a eficiência no uso de insumos e do manejo, acelere a pesquisa e privilegie o acesso ao conhecimento".
A representante do IICA Brasil, Cristina Costa, lembrou o papel do instituto na promoção do intercâmbio regional de tecnologias entre mais de 30 países e destacou a capacidade de inovação do Brasil, que registra crescente número de startups voltadas ao agronegócio.
Desafios: conectividade e capacitação
"Sem qualidade, os dados seriam apenas um palpite digital", afirmou Stanley Oliveira em sua palestra. Ele ressaltou que o Brasil é um laboratório mundial para o uso da IA, dada a complexidade da agricultura tropical e a diversidade de biomas e culturas. No entanto, o gargalo principal não é a tecnologia, mas o vazio de conectividade e a ausência de capacitação no uso das ferramentas. "A adoção da IA já é alta, mas ainda superficial. O agro brasileiro está em transição, e essa transformação não é apenas tecnológica, mas também cultural, social e política", completou.
O evento abordou ainda a importância de ecossistemas de inovação, com destaque para os Farm Labs, novos ambientes de experimentação que permitem testar tecnologias no campo. "Um ecossistema forte não é aquele que reúne competências, mas aquele que consegue fazer essas capacidades trabalharem juntas com confiança e gerando valor", resumiu o pesquisador Vítor Guarda, da Embrapa Agricultura Digital.
Aplicações da IA e inclusão digital
Os painéis também discutiram aplicações práticas da IA, como diagnóstico de doenças de plantas, monitoramento de florestas com drones e rastreamento de bovinos com internet das coisas. A IA generativa já é usada para levar conhecimento validado pela Embrapa à sociedade, aumentando a confiabilidade das informações disponíveis.
No painel sobre conectividade e governança de dados, especialistas apontaram a necessidade de levar internet a pequenos produtores, agricultores familiares, povos indígenas e quilombolas para garantir a inclusão digital. "Soluções tecnológicas e políticas públicas caminham juntas", enfatizou Simone Ranieri, do Instituto para Governança Territorial e Políticas Públicas (iGPP).
A digitalização do campo já é uma realidade para muitos produtores, com o uso de máquinas que "enxergam" pragas, softwares que sugerem o melhor momento para vender e sistemas de monitoramento por satélite. No entanto, o acesso a essas tecnologias ainda é desigual. Pequenos e médios produtores enfrentam dificuldades de conectividade e capacitação, o que limita o uso pleno das ferramentas disponíveis.
O evento deixou claro que a transformação digital no agro não se resume à tecnologia. É preciso também investir em infraestrutura, treinamento e políticas públicas que garantam que os benefícios cheguem a todos os perfis de produtores.
🔧 Orientações:
Avalie sua conectividade: verifique se sua propriedade tem acesso à internet de qualidade. Se não, procure cooperativas ou associações que possam ajudar a viabilizar a conexão.
Busque capacitação: participe de cursos, workshops e eventos sobre agricultura digital. O conhecimento é tão importante quanto a tecnologia.
Experimente soluções digitais: comece com ferramentas simples, como aplicativos de monitoramento de pragas ou plataformas de gestão da produção. Teste em pequena escala antes de expandir.
Participe de redes de inovação: envolva-se em iniciativas como Farm Labs e grupos de pesquisa participativa. A colaboração com outros produtores e pesquisadores acelera a adoção de tecnologias.
Fique atento às políticas públicas: acompanhe programas e editais que incentivam a digitalização do campo, como linhas de crédito para aquisição de equipamentos e conectividade.
O II Dia da Agricultura Digital mostrou que o caminho para uma agricultura mais inteligente e conectada já está sendo trilhado, mas ainda há muito a fazer. O produtor que se preparar agora estará mais bem posicionado para colher os frutos da transformação digital no campo.
Fonte: Embrapa.