El Niño Ameaça Produção Mundial de Açúcar
Chuvas no Brasil, seca na Índia e calor na Europa reduzem oferta e fazem preços dispararem mais de 25%
O El Niño está atingindo os maiores produtores de açúcar do mundo. O fenômeno climático expõe a vulnerabilidade da cultura e dá uma prévia das ameaças para agricultores e para a inflação global de alimentos. A informação é da Bloomberg.
No início deste ano, o mercado de açúcar enfrentava excesso de oferta. Agora, o El Niño provoca uma forte reversão. Muitos analistas esperam déficit na temporada que começa nesta semana.
Os contratos futuros do açúcar bruto subiram mais de 25% desde julho.
Por que o açúcar é tão sensível ao El Niño
Segundo Leonardo Alencar, analista de alimentos, bebidas e agronegócio da XP Investimentos, em São Paulo, o açúcar é uma das commodities mais claramente sensíveis ao El Niño.
Quando o fenômeno ameaça simultaneamente o desenvolvimento da cana no Centro-Sul do Brasil e o excedente exportável da Ásia, o mercado perde as principais reservas de oferta. Isso, segundo ele, normalmente leva a um balanço global mais apertado, estoques menores e sustentação dos preços.
A commodity ajudou a levar os preços globais dos alimentos ao maior nível em mais de três anos. Isso acrescenta outra preocupação inflacionária para consumidores e formuladores de política monetária, que avaliam novos apertos diante dos impactos das guerras no Oriente Médio e na Ucrânia.
O que está acontecendo no Brasil
O excesso de chuvas desacelera a colheita e a moagem de cana no Brasil, maior produtor mundial. Isso interrompeu a colheita e impediu usinas de processar a cana, agravando a restrição da oferta.
O choque do petróleo provocado pela guerra no Irã desviou mais açúcar para a produção de combustível.
Com a perda de vários dias de moagem, as usinas talvez não consigam prolongar a temporada por tempo suficiente para recuperar o atraso. As chuvas previstas para dezembro podem reduzir as exportações em cerca de 2 milhões de toneladas, segundo José Pessoa, do Grupo José Pessoa.
Em anos de atraso, as usinas costumam prolongar a moagem até dezembro. Mas isso não será possível desta vez por causa do El Niño, segundo Pessoa.
Índia e Tailândia também sofrem
Na Índia, as chuvas ficaram abaixo do normal. O segundo maior produtor mundial acabou de registrar uma monção mais fraca desde 2015. Isso reduziu a projeção para a produção de açúcar a cerca de 30 milhões de toneladas.
Há sinais de que os estoques acumulados devido ao excesso de oferta começam a diminuir. Isso significa que a Índia tem pouca margem para absorver outra safra decepcionante, afirmou Vieito, da Green Pool.
Os produtores tailandeses também enfrentam dificuldades. As chuvas no nordeste da Tailândia, maior região produtora de cana-de-açúcar do país, ficaram em cerca de dois terços da média de 30 anos, segundo a Vaisala.
Isso provavelmente reduzirá a produção de açúcar em pelo menos 17%, para menos de 10 milhões de toneladas na próxima temporada.
"A situação na minha fazenda de cana-de-açúcar é muito ruim, afetada não apenas pela seca, mas também por doenças da cana", afirmou Suntorn Nongkhunsarn, agricultor da província de Kalasin.
Europa e beterraba também sentem
Mesmo nas regiões produtoras de beterraba do Hemisfério Norte, o El Niño aumenta os riscos. A seca nos EUA atrasou a colheita de beterraba em algumas regiões, o que pode deixar a cultura exposta a condições meteorológicas adversas com a intensificação do El Niño até o fim do ano, segundo Andraia Torsiello, da Expana.
Na Europa, o El Niño provavelmente intensificou uma série de ondas de calor que castigaram as plantações de beterraba açucareira. Isso reduziu a produção ao menor nível em pelo menos uma década e ajudou os preços a se recuperarem dos mínimos de vários anos.
A produção na França, maior produtora da Europa, caminha para ser a pior desde pelo menos 1980, devido ao verão mais quente já registrado na região.
Preços globais em alta
Os preços globais do açúcar subiram 18% neste ano. Esse é o maior aumento entre qualquer outro componente do índice de preços de commodities alimentícias das Nações Unidas, com exceção dos óleos vegetais.
A intensidade da possível perturbação causada pelo El Niño chamou a atenção dos operadores. O número de contratos em aberto nos futuros de açúcar atingiu níveis recordes neste ano. Os fundos de hedge ampliaram os ganhos dos preços ao montar a posição mais otimista em anos.
"Há muito dinheiro apostando nos efeitos do El Niño", afirmou Carlos Mera, chefe de mercados de commodities agrícolas do Rabobank. O posicionamento especulativo pode ter levado os preços do açúcar a níveis acima do que seria justificado pelos fundamentos, acrescentou.
O que pode segurar os preços
De forma mais ampla, essa alta dos preços pode ser limitada pela desaceleração do crescimento da demanda. Consumidores preocupados com a saúde reduzem o consumo de açúcar. Fabricantes de alimentos reformulam produtos. E o uso crescente de medicamentos GLP-1 para perda de peso levanta dúvidas sobre a demanda de longo prazo por alimentos doces, segundo Stephen Geldart, chefe de análise da trading de açúcar Czarnikow.
Ainda assim, alguns analistas acreditam que os preços podem subir mais com o fortalecimento do El Niño e novas restrições à oferta.
Analistas do Citi Research liderados por Arkady Gevorkyan esperam que os preços subam cerca de 20% nos próximos 12 meses devido às condições climáticas adversas, além de estoques "substancialmente mais apertados do que os dados oficiais indicam".
"Os estoques vêm caindo, caindo e caindo, e chega um ponto em que, se houver algum contratempo inesperado em algum lugar, de onde virá o açúcar?", afirmou Judy Ganes, presidente da J. Ganes Consulting. "Isso deixa o mercado vulnerável."
O que você pode fazer agora
Se você produz cana-de-açúcar, o cenário é de atenção redobrada. As chuvas no Centro-Sul do Brasil atrasaram a colheita e reduziram a moagem. Isso pode afetar a sua produtividade e o seu planejamento de entrega.
Por outro lado, os preços estão em alta. Quem tem açúcar ou etanol para vender pode encontrar janelas melhores de negociação.
Mas o clima segue incerto. O El Niño pode intensificar as chuvas ou provocar secas, dependendo da região. É preciso acompanhar as previsões e se preparar para os dois cenários.
1. Acompanhe as previsões climáticas. O El Niño vai continuar influenciando o clima nos próximos meses. Fique atento aos boletins meteorológicos da sua região.
2. Planeje a colheita e a moagem. Se as chuvas estão atrapalhando, avalie com sua usina ou comprador o melhor momento para entregar a cana. Evite perdas por atraso.
3. Negocie com antecedência. Com os preços em alta, vale conversar com compradores e travar parte da produção. Não deixe para negociar na correria da safra.
4. Diversifique se possível. Se você depende só da cana, o risco climático é maior. Avalie outras culturas ou atividades que possam complementar a renda.
5. Busque informações atualizadas. Acompanhe os boletins do Cepea, da Conab e as análises de mercado. O cenário muda rápido.
6. Considere o armazenamento. Se você tem estrutura para guardar açúcar ou etanol, avalie se vale a pena esperar. Mas lembre-se: armazenagem tem custo.
O que esperar dos próximos meses
O cenário é de volatilidade. Os preços podem continuar subindo se o El Niño se intensificar e restringir ainda mais a oferta. Mas também podem recuar se a demanda desacelerar ou se a oferta surpreender.
O importante é que você esteja preparado. Tenha um plano de venda, conheça seus custos e acompanhe o mercado de perto. Assim, você protege sua renda independentemente do que acontecer.
Resumo da situação
- El Niño: atinge os maiores produtores de açúcar do mundo.
- Brasil: chuvas atrasam colheita e moagem; exportações podem cair 2 milhões de toneladas.
- Índia: monção mais fraca desde 2015 reduz produção para cerca de 30 milhões de toneladas.
- Tailândia: chuvas 2/3 abaixo da média; produção pode cair 17%.
- Europa: ondas de calor reduzem produção de beterraba ao menor nível em uma década.
- Preços: açúcar bruto subiu mais de 25% desde julho; alta de 18% no ano.
- Próximos passos: acompanhar clima, planejar colheita e negociar com antecedência.
Fonte: Bloomberg.