Vietnã desmatou 207 mil hectares para plantar café
O relatório aponta que o desmatamento comprometeu os sistemas naturais de armazenamento de água. Atualmente, entre 57% e 95% da água utilizada na irrigação das lavouras de café vietnamitas vem de aquíferos subterrâneos.
O segundo maior produtor de café do mundo, o Vietnã, pode enfrentar novos desafios na produção de café diante da formação de um possível El Niño muito forte nos próximos meses. Um relatório da organização Coffee Watch mostra que o país perdeu cerca de 207 mil hectares de florestas entre 1990 e 2022 para expandir a cafeicultura, uma área equivalente ao território de Luxemburgo.
Hoje, o Vietnã possui aproximadamente 700 mil hectares de lavouras de café, sendo que cerca de 93% da produção está concentrada nas Terras Altas Centrais. Segundo o estudo, pelo menos um terço das florestas da região foi substituído por plantações de café nas últimas décadas.
Essa mudança no uso da terra trouxe consequências importantes para o equilíbrio ambiental. O relatório aponta que o desmatamento comprometeu os sistemas naturais de armazenamento de água. Atualmente, entre 57% e 95% da água utilizada na irrigação das lavouras de café vietnamitas vem de aquíferos subterrâneos. Em algumas áreas, poços que antes tinham profundidade de 10 a 15 metros agora precisam atingir até 45 metros para encontrar água.
A preocupação aumenta porque a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a formação do El Niño e estima 63% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre novembro e janeiro.
Se você produz café, vale lembrar que o El Niño costuma provocar temperaturas mais elevadas e redução das chuvas no Vietnã e na Indonésia, países que respondem por aproximadamente metade da produção mundial de café robusta (conilon). Durante o forte El Niño de 2015-2016, a vazão dos rios nas Terras Altas vietnamitas caiu em até 90%, afetando cerca de 150 mil hectares de áreas agrícolas e reduzindo em até 25% a produção de café nas regiões mais atingidas.
Segundo especialistas da Coffee Watch, a situação atual pode ser ainda mais delicada. O avanço do desmatamento, o aumento da monocultura, o uso intensivo de agroquímicos e a maior pressão sobre os recursos hídricos podem tornar a cafeicultura vietnamita mais vulnerável aos efeitos climáticos extremos.
Para o mercado global, qualquer problema de oferta no Vietnã merece atenção. O país é responsável por cerca de uma em cada cinco xícaras de café consumidas no mundo e lidera a produção de café robusta, matéria-prima fundamental para a indústria de café solúvel e para blends utilizados em diversos países.
No Brasil, que é o maior produtor mundial de café e tem ampliado a produção de conilon nos últimos anos, um cenário de quebra de safra no Vietnã pode influenciar diretamente os preços internacionais e abrir oportunidades comerciais para os produtores brasileiros.
🔧 O que isso significa para você?
Mesmo sendo um problema que acontece do outro lado do mundo, os impactos climáticos no Vietnã podem mexer com as cotações internacionais do café. Por isso, acompanhar o desenvolvimento do El Niño e o comportamento do mercado global pode ajudar na tomada de decisão sobre comercialização, travas de preço e planejamento da próxima safra. Em momentos de maior incerteza climática, informação de qualidade se torna uma ferramenta tão importante quanto a gestão dentro da lavoura.
Fonte: Folha.