Agricultura

Microrganismos ajudam mosca-branca a driblar fungos

Na prática, a mosca-branca desenvolve uma espécie de “armadura biológica”.

Daniel Vilar
Especialista
3 min de leitura
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Uma nova pesquisa da PNAS internacional trouxe um alerta importante para a agricultura: microrganismos presentes dentro da mosca-branca podem tornar essa praga mais resistente ao controle biológico feito com fungos entomopatogênicos. O estudo mostra que uma bactéria simbionte, chamada Rickettsia, e o vírus do enrolamento amarelo das folhas do tomateiro (TYLCV) atuam em conjunto para fortalecer as defesas físicas do inseto.

A mosca-branca (Bemisia tabaci) está entre as principais pragas agrícolas do mundo, causando prejuízos tanto pela sucção da seiva quanto pela transmissão de viroses em culturas como tomate, feijão, soja, algodão e hortaliças. O novo trabalho revela que esses microrganismos internos reduzem a suscetibilidade da praga a fungos utilizados no manejo biológico, como o Beauveria bassiana.

Os pesquisadores identificaram que o vírus TYLCV estimula a produção de quitina, substância que compõe a cutícula — o “exoesqueleto” que reveste o corpo do inseto. Já a bactéria Rickettsia aumenta a síntese de aminoácidos como fenilalanina e tirosina, responsáveis pela produção de proteínas e pigmentos que deixam essa barreira física mais espessa e resistente.

Na prática, a mosca-branca desenvolve uma espécie de “armadura biológica”. O estudo demonstrou que insetos infectados apresentaram menor incidência de infecção por fungos e menor mortalidade quando expostos ao B. bassiana. Além disso, populações de moscas-brancas portadoras de Rickettsia e do vírus apresentaram maior capacidade de sobrevivência ao longo das gerações avaliadas.

Os resultados também mostraram que a infecção pela bactéria Rickettsia elevou significativamente a fecundidade da mosca-branca, aumentando sua capacidade de multiplicação. Em determinadas condições, o incremento reprodutivo ultrapassou 140%, reforçando o potencial de disseminação dessa praga nos sistemas agrícolas.

Para o produtor rural, a descoberta ajuda a explicar por que, em algumas situações, aplicações de fungos entomopatogênicos apresentam eficiência variável no campo. O desempenho do controle biológico pode depender não apenas das condições climáticas e da qualidade da aplicação, mas também da presença de microrganismos benéficos à própria praga.

Os autores do estudo destacam que essas interações entre insetos, vírus e bactérias têm implicações diretas para o manejo integrado de pragas. O conhecimento desses mecanismos pode abrir caminho para novas estratégias de controle, como tecnologias capazes de interferir na formação da cutícula da mosca-branca ou no funcionamento desses microrganismos associados.

🔧 O que isso significa para você no campo?

Se você enfrenta problemas recorrentes com mosca-branca, especialmente em hortaliças, tomate ou algodão, o controle biológico deve ser visto como parte de uma estratégia integrada. O monitoramento frequente das populações, a rotação de ferramentas de manejo, a preservação de inimigos naturais e o uso criterioso de bioinsumos tornam-se ainda mais importantes diante da capacidade de adaptação dessa praga.

A pesquisa reforça uma lição cada vez mais clara na agricultura moderna: combater a mosca-branca não significa enfrentar apenas um inseto, mas um complexo sistema de interações biológicas que pode aumentar sua sobrevivência e dificultar o controle no campo.

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